• Postado por Tiago

“Acredito ser dever de todos e principalmente do Estado assegurar o direito à vida, em minha opinião, bem maior do ser humano, devendo fazer, deixar de fazer e nunca fazer o que for necessário para tal fim.

Pode parecer estranho eu ter utilizado das expressões acima, mas elas aparecem de modo a melhor exemplificar os motivos que me levaram a escrever esta carta.

O fazer – Na contramão da recente história do nosso país, em que não raro nos deparamos com escândalos como mensalão, atos secretos, corrupção etc, a Marinha do Brasil vem se mantendo merecedora da credibilidade junto à população brasileira por desempenhar bem seu papel constitucional. Dentre suas inúmeras atribuições, existe uma, sem dúvida a que mais aprecio, em função da região onde vivo, que é a salvaguarda da vida no tráfego aquaviário, que em certa época, não muito distante, recebeu duras críticas de algumas pessoas nas cidades de Itajaí e Navegantes, no tocante às exigências ao cumprimento das normas de segurança no ferry-boat entre as duas citadas cidades, principalmente no ano de 2001.

A norma de segurança que mais rendeu discussão foi a que obrigava todos os ocupantes dos veículos transportados deixarem o seu interior e efetuar a viagem como os pedestres, retornando aos seus carros somente após a atracação da embarcação. Muitos perguntavam: Pra que deixar o interior de seus veículos se a travessia era por demais curta e rápida? E se estiver chovendo? E os idosos, doentes etc?

Quem fez a lei que as respondesse. À Autoridade Marítima, cabia apenas fazer com que fossem cumpridas. E a Marinha do Brasil mais uma vez cumpria com o seu dever!

Antes de se chegar ao ponto em que essas perguntas surgissem e que tantas pessoas se revoltassem com o fato de terem de sair dos seus veículos durante a travessia, lá pelos idos de 1998, o ferry-boat não apresentava nenhuma segurança. Existiam os calços, mas não eram utilizados. Como barreira a evitar que os automóveis caíssem no rio, existia uma cordinha. E junto a essa cordinha, ficavam dezenas de pessoas, alheias ao risco que corriam.

Hoje, desde 2001, a coisa mudou! Mas nunca saberemos se a insistência da Marinha do Brasil salvou alguma das vidas que atravessavam o Rio Itajaí-açu na noite de sábado último, mas tal fato, acredite quem quiser, já acontecido outras vezes, servirá pelo menos para que aquelas tantas pessoas que duramente criticaram a ações da Marinha possam refletir sobre o que é fazer pra salvar vidas.

Deixar de fazer – No conjunto dos órgãos pelos quais tenho grande respeito, coloco a Polícia Militar de Santa Catarina. Não obstante minha admiração, e ainda com base no respeito à vida humana, não posso deixar de levantar a seguinte questão. Até que ponto é válido que uma viatura policial saia pelas nossas ruas em alta velocidade? Será que vale a pena o risco de se atingir um ciclista ou colidir contra automóveis com cidadãos de bem em seu interior, colocando em risco as vidas de cidadãos comuns e mesmo as de policiais para prender algum bandido ou evitar algum roubo, sabendo-se que muitas das vezes nem temos onde colocar alguns desses bandidos, caso condenados? Será que não existem ações melhor coordenadas que consigam compensar alguns minutos perdidos nos deslocamentos dessas unidades?

No dia 18 de agosto, por volta das 14h, uma pick-up cabine dupla na cor bege escura da Polícia Militar, com sirene e giroflex acionados, passou em velocidade superior à permitida na sinaleira da Blumenau com a Benjamin Franklin Pereira, esquina com o auto posto Leão, possivelmente para o fim de cumprir alguma missão. Além do perigo da alta velocidade da viatura militar, que seguia em ziguezague, algum motorista desavisado ou imperito, diante dos gestos do policial lhe pedindo passagem, poderia causar também um acidente. Basta lembrar que do lado direito do motorista que seguia à esquerda da via fica aquela que é utilizada por ciclistas.

O que eles (os policiais) talvez não saibam é que, por questão de segundos, teriam chegados juntos com uma empilhadeira proveniente do porto de Itajaí que ali atravessava sem a presença de batedores.

Não é preciso falar sobre o que poderia ter acontecido. Qualquer pessoa que já tenha visto uma daquelas máquinas cruzando aquela via pode muito bem imaginar! O importante, em termos de Polícia Militar, é saber se valeu a pena o risco!

Nunca fazer – Esta última frase vai para o Porto, Teconvi, seja lá quem for o responsável pela passagem da supracitada máquina em via pública sem batedor. A passagem da máquina sem a presença de batedores, não importa a que horas, é um total desprezo à vida das pessoas aqui fora e nunca deve ser realizada. Certamente, nem a necessidade do porto produzir pode justificar tais medidas, posto que a “produtividade” não combina com risco assumido.”

Ass: Eduardo Ribeiro de Souza, oficial da reserva das forças armadas

(Transcrito ipsis litteris)

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