• Postado por Tiago

“Era o auge da belle époque. Os cabarés iluminados de Montmartre, em Paris, apresentavam espetáculos ousados, onde bailarinas seminuas enfeitiçavam miseráveis e milionários, numa mistura de alegria com sordidez.

Foi nesse ambiente que um filho da alta aristocracia francesa – Henri de Toulouse Lautrec – encontrou espaço para sobreviver. Nascido em berço de ouro em 1864, era desenhista exímio desde criança. Mas um acidente terrível esmagou seus quadris, impedindo as pernas de cresceram, enquanto o tronco se avolumou. Pra vencer a tristeza da deficiência ele mergulhou para sempre no universo colorido da pintura. E da boemia.

Descobriu a espantosa criatividade dos impressionistas: dos ângulos revolucionários de Degas, da sensualidade de Renoir, da loucura ardente de Van Gogh. Passou a frequentar o submundo e ficou amigo das hetairas que brotam como cogumelos nas sarjetas depois das chuvas – as flores do lodo.

Adentra pelo vício vermelho de Moulin Rouge e não mais para de beber absinto e pular, como um sapo, o can–can. Mas é um gênio! Pinta a realidade colhida na hora, no desenrolar dinâmico que reflete o ritmo circular dos bailes e do strip-tease. Entre grotesco e romântico, mergulha cada vez mais no universo dos “palhaços da burguesia”: garçonetes, amazonas, cantores, bailarinas, escritores, prostitutas, políticos…

Não se dá o trabalho de titular seus quadros, nem de vendê-los. Retrata mulheres do povo, anônimas. Apaixona-se por uma delas: La Goulose (a bocuda) e agride o atleta Valentin, o Desossado. Com Aristides Bruant faz o primeiro pôster ou grande cartaz de que se tem notícia no mundo, para cobrir os muros de Paris. Copiados até hoje por publicitários – plagiários.

Consegue captar como ninguém a atmosfera íntima e envolvente dos interiores, imortalizando dançarinas como Jane Avril e Yvette Guilbert, damas da noite. Grandes figuras a frente ao pó diante do anão maldito de Montmartre. Sarah Bernhardt vem posar para ele. Ministros da República pedem que os retrate. Mas estará sempre irmanado aos farrapos humanos, às carnes flácidas, às casas suspeitas do bairro boêmio, às luzes fosforescentes, ao lumpen proletariat.

Percorrendo os brancos corredores do alcoolismo, sua arte se adensa, adquire refinamento estético, rica em documentação humana. Mas quem brilha demais dura pouco. O século se acaba e Toulouse vai sendo consumido pela droga. Desequilibra-se física e mentalmente. Ainda tenta voltar para a rica casa materna. É lá que sofre os últimos ataques e morre aos 37 anos, depois de ter fixado nas telas grandezas e misérias dos seres humanos que vão e vêm, como mariposas na luz.”

Ass: Paulo Ramos Derengoski

(Transcrito ipsis litteris)

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