• 06 fev 2010
  • Postado por Tiago

Dalva Maria Rhenius

Naturalidade: Itajaí

Idade: 55 anos

Estado civil: Casada

Formação: Geografia pela Univali e curso incompleto de Letras também pela Univali

Cargos que ocupa: Vice-prefeita de Itajaí e reassumirá até março a secretaria de Saúde da prefeitura

João José da Silva

Naturalidade: Laguna/ SC. Veio para Itajaí em 1956

Idade: 74 anos

Estado civil: Casado

Formação: Economia pela pontifícia Universidade Católica [PUC] de Porto Alegre e Administração pela Univali

Cargos que ocupa: Presidente do conselho Municipal de Saúde de Itajaí e dirigente da associação dos Portadores de Atrite do Vale do Itajaí [Apavi]

Arlete Terezinha Desen

Soprano

Naturalidade: Santo Amaro da Imperatriz/SC. Veio em 1982 para Itajaí

Idade: 52 anos

Estado civil: Casada

Formação: Enfermeira sanitarista pela universidade de Concórdia e mestre em Educação pela universidade Federal do Paraná

Cargo que ocupa: Coordenadora do centro de Ciências da Saúde da universidade do Vale do Itajaí [Univali]

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DIARINHO – O primeiro dos temas a ser abordado, que é a ponta final do sistema de saúde, é o atendimento nos postos e a quantidade de exames solicitados e acumulados, ainda por fazer. A pergunta vai para o presidente do conselho Municipal de Saúde [Comusa]. Chegam ao Comusa as reclamações de filas extensas nos postos e a demora no agendamento e na entrega de exames? E, se chegam, como é que o conselho tem encaminhado essas reclamações para que tais problemas sejam resolvidos?

João – Bom, oficialmente, essas reclamações não têm chegado lá no conselho. Até porque estou assumindo agora a presidência do conselho Municipal de Saúde. Na verdade, a população não tem usado as nossas assembleias, que são públicas, para ir lá apresentar suas reclamações, seus protestos, as suas reivindicações. Mas o Comusa é uma instância para ouvir, para receber os usuários do sistema único de saúde para que façam as suas reclamações, as suas reivindicações. A gente tem conhecimento. A gente sabe. Não temos ainda um estado de atendimento ótimo ao público, até porque a demanda é muito grande, é maior do que a oferta de serviço. Mas é um trabalho que vem sendo feito, vem sendo construído, vem evoluindo bastante mesmo nas unidades de saúde. Mas nunca se chega a atender de forma satisfatória toda essa demanda, entende!? Agora, sobre o ponto básico da sua pergunta, não há uma reclamação direta ao conselho Municipal de Saúde.

DIARINHO – O senhor deve ter recebido um relatório da gestão anterior do Comusa e, se recebeu, a reclamação sobre as filas e as demoras dos exames não constam desse relatório?

João – Não! A gente tem conhecimento disso aí porque acompanha de perto essa situação nas unidades de saúde, nos serviços oferecidos, né!? E por isso sabe que a demanda é maior que a oferta dos serviços e que, evidentemente, tem demora. É que, na verdade, o usuário do serviço do SUS quer ser atendido no dia em que ele vai lá e nem sempre é assim, porque tem que obedecer a uma agenda no serviço. Mas como a demanda é muito grande essa agenda tá sujeita a essa demora no atendimento.

DIARINHO – Vice-prefeita Dalva, o agendamento telefônico de consultas, que havia na administração passada, não resolveu em parte esse problema nas filas dos postos de saúde? E, se é que tenha resolvido, por que é que foi suspenso? E, em relação aos exames, o por que da demora no agendamento e na entrega dos resultados? Continua havendo, ainda, a necessidade de pacientes de Itajaí migrarem para Florianópolis para fazerem os exames de alta complexidade ou a cidade já consegue dar conta dessa demanda?

Dalva – Bom, quero dizer que nada foi suspenso. O que foi suspenso foi de outubro a dezembro quando Itajaí sofreu com as enchentes. Um exemplo é o raio-X. Nós tínhamos 18 mil raios-X pendentes. Hoje a gente faz uma média de cinco mil atendimentos ao mês, o que acaba ainda não sendo suficiente, porque nós temos um número reduzido de prestadores de serviço. A exemplo do hospital Marieta, que faz para a região da Amfri [Associação dos Municípios da Foz do Rio Itajaí, que comporta 11 cidades], a exemplo da clínica São Lucas, que privilegia os pacientes de câncer. Então isso acaba refletindo na rede pública, especialmente lá no PA do São Vicente. Isso, estou me referindo ao raio-X. O que pra mim é um exemplo muito grande, porque é uma média de cinco mil atendimentos ao mês. Entre Natal e Ano Novo foram feitos 750 raios-X. Mas hoje esse serviço já não comporta e precisaríamos ter mais prestadores de serviço na cidade. Está aberto o credenciamento universal para prestadores de serviços. Um exemplo é a colonoscopia [Exame feito para analisar o instestino grosso, em que uma sonda é inserida no ânus do paciente]. Quando nós chegamos, além de ter uma demanda muito grande, entre novembro e dezembro estava praticamente tudo parado, inclusive o agendamento de consultas. Com isso acumulou enormemente. Priorizamos os atrasados, mas não conseguimos ainda colocar em dia os que foram chegando.

DIARINHO – Qual é o gargalo nos exames?

Dalva – O raio-X tem essa demanda louca, né!? Eu como prefeita, agora nesses últimos 18 dias, dei entrada no processo de licitação para a nossa Upa, a unidade de pronto-atendimento da grande Cordeiros. Compramos o terreno neste ano, já vai ser edificada e ali vai ter um raio-X, também. Porque eu entendo que o serviço público tem que buscar esses exames pra si, porque se depender apenas do prestador ele não dá conta. O prestador, normalmente, não quer fazer porque o preço que o SUS paga é muito pouco. Em Itajaí, com a graça de Deus e o conselho pode me respaldar quanto a isso, ninguém recebe com preço diferenciado. Nós pagamos com base na tabela do SUS, e isso é raro aí pelo estado. Aí, na verdade, há poucos prestadores. Dentro da colonoscopia, quando chegamos, lá no início do ano passado, nós tínhamos só um prestador, em Blumenau, que fazia esse exame. Abrimos o credenciamento e hoje temos um prestador aqui em Itajaí, mas ainda é insuficiente. Há uma gama bastante grande, mas ainda inferior à demanda que se precisa. E esse estudo a gente tem e por isso vai aprimorar no decorrer deste ano.

DIARINHO – Em relação ao agendamento de consultas nos postos, então hoje ainda é possível agendar uma consulta ou um retorno via telefone? Não precisa mais se descolar ao postinho de madrugada?

Dalva – Nunca parou. Desde o dia 1º de janeiro nós fizemos esse agendamento via unidade de saúde. Só que tem que melhorar. Até o final deste mês, todas as farmácias, os dispensários, toda a rede vai dispensar um medicamento e cá no almoxarifado já vai sendo dada a baixa. Consequentemente, o almoxarifado vai saber que lá na unidade do Promorar tem só 10 comprimidos e que eles têm que repor com maior rapidez isso. Agora vão ser a segunda etapa e terceira etapas. Nessa segunda etapa está sendo feito um cadastramento de todas as pessoas que estão no programa de saúde da família para fazermos o cartão magnético. Não tem mais como fugirmos a isso. E por quê? Hoje nós temos a pactuação com os municípios vizinhos, mas muita gente ainda vem de outra cidade com endereço aqui de Itajaí, consulta aqui. Essa pessoa faz os exames, vai pro especialista. E por quê? Porque ela entra como moradora de Itajaí. E nós, com o cartão magnético, vamos ter a posição real, que nunca tivemos na história, do que gastamos com as pessoas de Itajaí. E tem, também, algo que está sendo piloto. A gente não divulgou e estou dizendo aqui pela primeira vez. A unidade da Murta ela hoje tem um prontuário do paciente na mesa do médico. Hoje tem um grande número de pessoas que faz exames e não vai buscar. Marca a consulta e não vai. Aí, deixa vago esse lugar e o médico acaba ficando ocioso. Aí, puxando o prontuário, o médico sabe que a dona Maria tá consultando na Murta ali naquele dia mas que há 15 dias ela não foi buscar um exame pedido por um médico de outra unidade. E se ela não foi buscar, ela tem que ir buscar, pois tem que apresentar esse exame para ele. Isso evita que se faça o exame novamente. Evita que pegue um remédio aqui, pegue um remédio lá e pegue um remédio cá. Na verdade, nós temos que ter a reorganização do serviço. Itajaí foi é e, se não tomarmos providências, será sempre a cidade que vai acolher tudo e todos.

DIARINHO – Professora Arlete Soprano, na visão da academia qual seria o sistema ideal de atendimento à população na rede municipal de saúde visando essa agilidade?

Arlete – Olha, eu acho que Itajaí tem uma rede de saúde invejável. É admirável a estrutura de saúde que tem o município de Itajaí. Se o cidadão precisar procurar uma unidade de saúde ele acha o serviço andando a pé no máximo em 15 minutos. Mas é justamente isso o que a Dalva fala. É o que tá ocorrendo no momento e isso tende ainda a ocorrer por um tempo, até que o cidadão tome um pouco mais de consciência daquilo que é realmente importante. Algumas vezes os serviços são duplicados e a questão não avança em termos de conquistas e de melhoria do fluxo. Eu entendo que se nós caminharmos para um trabalho mais educativo, de formação de grupos e fortalecendo esse trabalho que a rede já iniciou há algum tempo, nós vamos avançar e nós vamos diminuir essas filas. Nós, na Univali, também temos laboratório em que atendemos pacientes do SUS, temos uma unidade de saúde que compartilhamos com a secretaria Municipal de Saúde. Temos uma parceria e a gente percebe isso. O paciente vai, consulta e não vem trazer os exames. A consulta tá agendada com um especialista e o paciente não vai. E isso tudo tem um custo, um custo altíssimo. Outras pessoas que têm doenças mais graves precisariam desse atendimento. Agora, o cidadão, que busca ter a plenitude dos seus direitos e está plenamente com a razão quanto a isso, é preciso que tenha um pouco mais de consciência. Dentro da universidade nós trabalhamos com essa perspectiva, de focar o trabalho de educação e saúde, o trabalho de prevenção, o trabalho de formação de grupos.

DIARINHO – Essa falta de presença nas consultas não seria justamente pela demora no atendimento? Não estaria faltando um acompanhamento da rede nesse período entre o agendamento da consulta e o dia do atendimento?

Arlete – Hoje, com a estratégia da Saúde da Família, pela qual a secretaria de Saúde tem estruturado seus serviços, com os profissionais, o médico, presentes oito horas na unidade de saúde, isso está um pouco mais difícil de acontecer. O que acontece é que às vezes o cidadão busca o mesmo atendimento em vários locais porque ele não acredita que vá ter aquela solução para seu problema logo. E isso atrapalha tudo. É complicado quando se tenta fazer dessa maneira. Mas acontece. O acesso à saúde tá universalizado, mas agora o serviço precisa ser focado em determinadas especialidades e o cidadão precisa acreditar que aquilo funcione. O SUS é um serviço brilhante. Não é ruim. O atendimento é muito bom, as esquipes são e estão sendo preparadas cada vez mais para esse aprimoramento. E aí acho que a academia pode entrar também ajudando a qualificar o pessoal da rede. Aliás, também uma boa parte dos funcionários da rede é egressa da universidade. O curso de enfermagem vai fazer 30 anos agora em 2010.

DIARINHO – Professora, na sua opinião o programa da Saúde da Família [PSF] é bom? Como política pública ele realmente funciona?

Arlete – Eu acho que sim. Funciona e funciona muito! Ele tem, sem dúvida nenhuma, uma penetração na comunidade. Muitas vezes as pessoas dizem: ?Ah! Não quero receber, não quero que venham na minha casa. Quando eu precisar eu vou lá no posto?. Mas o programa Saúde da Família é uma grande estratégia. Ele precisa ser melhorado, precisa ser compreendido pela população, mas ele é uma grande estratégia.

DIARINHO – Você acha que falta essa educação junto à população para que receba os profissionais do programa?

Arlete – Acho que precisa haver uma compreensão. É um processo histórico. Se a gente for analisar, é uma estratégia recente em termos de história. Então, pra população é um trabalho importante. Alguém está olhando para aquelas famílias, alguém tá olhando para aquele paciente que está acamado, alguém está vendo o que está acontecendo com o idoso que está sendo maltratado… Então tem gente olhando! Agora, nós não conseguiremos fazer isso em toda sua amplitude se a gente não focar alguns aspectos mais importantes. E às vezes a demanda da unidade é tão grande, que as pessoas não conseguem fazer todo esse trabalho.

DIARINHO – Qual seria a situação ideal? Onde o programa Saúde da Família falha e acerta hoje?

Arlete – Talvez a Dalva tenha mais elementos para responder isso. Mas como cidadã e como dirigente do centro de Ciências da Saúde da universidade, a gente percebe o avanço ocorrido no acesso da população ao serviço de saúde. Esse olhar mais direto do profissional médico, que fica lá as oito horas de trabalho, essa relação dele com a comunidade, a relação do enfermeiro, do auxiliar e de toda equipe de saúde que com a comunidade, com a família, com os seus pacientes… Esse vínculo é uma coisa muito importante. Por que é assim: ?Ele é o meu médico?, ?o meu médido de família disse tal coisa?. Quando essa relação se fortalece, o grau de confiança aumenta. Então o paciente não precisa mais sair correndo lá da Fazenda e ir lá no São Vicente procurar um médico melhor. Ele tem o médico dele, que vai na casa se for preciso, que acompanha, que dá respostas, que pede os exames.

DIARINHO – O DIARINHO recebe denúncias de que os médicos ficam nos postos de saúde e não fazem as visitas às comunidades, como está previsto no estatuto do programa. O Comusa também recebe esse tipo de denúncia e tem fiscalizado?

João – Bom, o conselho não tem recebido esse tipo de denúncia como eu disse inicialmente. Eu acho, como disse agora há pouco a professora Arlete, que está faltando é o esclarecimento do povo, dos usuários. Até porque esse programa da Saúde Família é um evento novo. O programa ainda tá se desenvolvendo mas é muito, muito bom.

DIARINHO – O Comusa não está um pouco afastado da comunidade?

João – Na verdade o conselho Municipal de Saúde não atua diretamente com o usuário, na residência do usuário. Ele não tem essa atribuição. Existem outros departamentos na área da saúde que atuam nesse sentido.

DIARINHO – E qual seria a atribuição do Comusa, então?

João – O conselho é um órgão que colabora com a secretaria da Saúde nos aspectos dos programas de saúde, na organização, na estrutura, na fiscalização, na aprovação dos programas de saúde. Ele não é responsável pela execução. A execução cabe à secretaria e ao pessoal da Saúde.

DIARINHO – Nesse papel importante que o conselho tem, que é o de fiscalizador e o de também apontar caminhos para a saúde pública, não tá faltando os conselheiros irem até à comunidade para dizer que o Comusa existe e é um instrumento importante da organização social para pressionar os dirigentes públicos? Até para que o Comusa possa ser mais atuante?

João – O conselho tem uma oportunidade única quando realiza as conferências municipais de saúde. Que é quando ele vai aos bairros fazer as reuniões, ouvir diretamente o usuário, o povo que usa o SUS. É a oportunidade de ouvir essas reclamações diretamente e levar para a conferência. Fora disso, o conselho Municipal de Saúde não tem essa responsabilidade de ir diretamente até a comunidade. Até porque o conselho é formado por elementos voluntários. São pessoas da comunidade, que têm seus compromissos, e por isso não têm essa disponibilidade e nem essa responsabilidade de fazer essa fiscalização in loco. Até porque o conselho não dispõe de verbas para custear esse trabalho. Ele não tem verbas pra isso. Então, na verdade, isso só acontece quando a gente realiza a conferência municipal de saúde. O ano que vem provavelmente nós teremos essa conferência.

Arlete – Eu gostaria de complementar. Eu também sou conselheira e vejo a participação dos membros do conselho como muito importante nesse trabalho de acompanhamento, de desenvolvimento nas ações de saúde no município. De modo geral, os conselheiros são pessoas da comunidade bastante críticas e que trazem, sim, seus problemas de uma maneira muito direta e fazem valer sua representação. O conselho Municipal de Saúde, que o seu João preside, tem um papel importante. Temos todos que lidar – e somos todos, eu, Dalva e seu João, membros do conselho – com questões bem críticas. E o conselho é muito rigoroso. E nada passa barato. É uma disputa. Não no sentido de cada um puxar prum lado, mas sim um disputa no sentido de querer trazer, de fazer valer o direito do cidadão.

DIARINHO – Professora, qual o ponto mais nevrálgico da saúde de Itajaí debatido no conselho? Qual o dedo na ferida? Em qual situação o conselho tem cobrado mais, tem debatido mais?

Arlete – Não sei, o seu João tem mais experiência que eu nessa questão. Mas no acompanhamento das ações da secretaria, na forma como são distribuídos os programas? Há um apelo para que a coisa funcione. E a secretaria vem fazendo a sua parte e sabe o quanto tem de exigência por trás dessas ações, porque tem o conselho que está ali para acompanhar o desenvolvimento de todo esse trabalho. Mas, assim, eu diria que o conselho de Saúde é um conselho bem crítico, participativo e ele acompanha as ações que são feitas, os serviços… Tem o cuidado para que não se tenha nenhuma preferência.

DIARINHO – A comunidade poderia participar mais do Conselho?

Arlete – Eu acho que a comunidade está devidamente representada.

Dalva – Posso dar um dedinho aí? Ali dentro do conselho tem representação de praticamente todos os bairros. Automaticamente, seus membros trazem para o conselho aquilo que é necessário. Nos bairros também têm os conselhos locais de Saúde, que têm representação dentro do conselho. Nós temos um plano de saúde. Esse plano é feito a várias mãos, pelo conselho Municipal de Saúde, departamentos da secretaria de Saúde e a comunidade envolvida através do conselho. Então nós temos metas a seguir. Agora, é claro que às vezes as metas fogem da guia, a exemplo do surto da gripe A que houve, a exemplo de outras endemias ou pandemias que surgem. Mas é pautado naquilo e a secretaria de Saúde cumpre aquilo que foi planejado dentro daquele plano. E aí o pessoal diz que a Dalva só fala em enchente. Claro, seu sou obrigada a falar porque nós ainda estamos sentindo na pele. Houve toda uma desorganização do serviço por conta disso. As unidades estavam desorganizadas, as pessoas que trabalhavam nas unidades também tiveram suas casas cheias de água. Também estavam com raiva. Elas não estavam em seu normal de atendimento. Isso tudo nós temos que relevar. O seu João não era o presidente do Comusa na época, era um outro presidente. O seu João assumiu agora. Houve um retrocesso, tudo por causa da enchente. [Mas o que falta ainda?) Acho que falta como um todo. Falta da Univali, falta da Secretaria, falta investir em campanha de publicidade. Ano passado nós fizemos um folder explicativo sobre todas as unidades e todos os serviços. E pedíamos que as pessoas fossem ao PS só em casa de emergência. Resolveu? Deu uma grande aliviada.

DIARINHO: Quantas equipes de PSF (Programa Saúde da Família) Itajaí tem hoje e as estatísticas demonstram que o programa realmente tem funcionado? Que tipo de doenças diminuiram nesse período?

Dalva – Hoje nós sabemos quantos hipertensos têm em determinado bairro. E ele já recebe medicamento contínuo. Isso não é desse governo e nem do outro. Isso é lá de trás e a coisa funciona. Porque nós sabemos disso? Através do PSF que faz esse trabalho. Uma coisa boa é essas academias ao ar livre. Isso é nota mil. Estamos implantando mais quatro. Acho que vai faltar praça pra colocarmos. Porque tem que incentivar caminhada. O PSF é justo pra isso. Pra trabalhar com caminhada, junto com professores de educação física que farão os exercícios. O Itajaí Ativo, ano passado, não parou. Nós não tínhamos o projeto do progama porque ele não foi encaminhado em 2008. Agora já recebemos o novo projeto e o município implantou. Ano passado teve 829 pessoas participando. Ainda é pouco: 38% apenas dos interessados. Ainda precisamos mais, porque ainda tem bairro que precisa, tipo o São João, que têm bastantes idosos. [Onde hoje o PSF está pecando?] Ele está pecando hoje porque ele precisa ser mais atrelado com a comunidade. [Os médicos captaram a essência do PSF? Os enfermeiros têm essa relação até na própria história da profissão e da própria formação? Os médicos do Brasil, tradicionalmente, vêm de uma classe economicamente diferente, de uma classe superior. Eles captaram a essência do programa?] Ainda temos problemas. Eu vejo com muito bons olhos esse programa, o Peti, que os profissionais saem de dentro da sala de aula e vão lá ajudar a comunidade, com a supervisão de um médico formado. É um programa da universidade, secretaria de Saúde e Governo Federal. Isso é o nosso futuro.

Arlete – O profissional médico hoje está muito mais comprometido do que no passado. Hoje, o campo de atuação rico é as unidades.

DIARINHO ? Boa parte desses pacientes que acaba no pronto-socorro do Marieta não poderia ter seus problemas resolvidos nas unidades de saúde da prefeitura? No caso das crianças, também não poderia haver uma triagem nos postos antes da chegada ao pronto socorro do Pequeno Anjo?

Dalva ? Pode, mas isso é muito cultural. Eu falava com uma pessoa, que sua filha teve um corte no dedo. Foi atendida no Pequeno Anjo rapidamente. Que bom, nota 10. Mas ela poderia ter sido atendida na unidade de saúde. A gente pergunta: ?O senhor foi na unidade??. E ele responde: ?Não, eu fui na hospital porque lá é mais rapidinho?. Isso é muito cultural. Mas não é só isso. Mesmo quando ele pode resolver lá na sua base ou no PA do São Vicente, ele acaba vindo para os hospitais porque é mais rápido. Mas muita coisa poderia ser resolvida na unidade de saúde. [Como fazer pra mudar isso?] Eu acho que a referência e a contra-referência ainda é uma medida, mas ela vai ser devagar. Mas ainda é a melhor, com certeza. A pessoa que esteve no PS, ela tem muito mais urgência de ser atendida no dia seguinte nos postos do que aquela que vai na unidade. Claro que vai ser perguntado e diagnosticado ali, mas ela precisa dessa contra-referência pra não ficar indo e vindo. Depois ela também recebe a orientação que deve procurar a unidade. Gradativamente, a gente vai estar retornando a isso.

DIARINHO ? O conselho debate este problema? Seria falta de investimento do hospital ou falha no sistema municipal? Qual a proposta da comunidade?

João – Dentro do conselho se discute toda a política de saúde. Até porque dentro do conselho temos várias comissões que atuam em várias áreas. O conselho se reúne por várias razões e as comissões foram recém-formadas. As comissões vão nos locais acompanhar, atuar e fiscalizar as políticas de saúde. De acordo com o trabalho realizado, o profissional emite um relatório. E, depois, numa assembléia, se discute o relatório e se aprova. Ai se cobram as medidas da secretaria de Saúde ou dos responsáveis pela execução do programa. Ou ainda do hospital. Quando os assuntos chegam ao nosso conhecimento, a comissão vai lá e vê de perto. Porque não se pode só ouvir uma crítica sem fundamento, a crítica tem que ter fundamento.

DIARINHO ? Os serviços de extensão da universidade não poderiam ajudar a desafogar o atendimento no pronto-socorro? A universidade não poderia ser mais ativa nesse sentido?

Arlete ? Olha, eu entendo que esta é uma questão cultural, como a Dalva havia falado. Os prontos-socorros do Marieta e do Pequeno Anjo têm uma demanda muito maior, porque têm mais serviços, até por conta do horário de atendimento. Eu entendo que todo e qualquer trabalho educativo e de prevenção que podemos fazer junto com a comunidade, nós vamos melhorar esse fluxo. Na medida que o cidadão se sente acolhido naquele serviço, do qual ele é originário, ele também vai passar pra dar um olhadinha. A tendência é ir pro PS porque tem algo mais grave. Têm alguns avanços. Mas, sem dúvida nenhuma, a universidade pode ajudar. Temos alguns programas na própria rádio e TV. Com o pessoal da comunicação dá pra pensar em trabalhos conjuntos e dentro das disciplinas específicas, dentro das Ciências da Saúde.

DIARINHO ? Quais as doenças infectocontagiosas que hoje mais preocupam os profissionais da secretaria de Saúde? Itajaí é mesmo uma das principais no ranking nacional de Aids, hanseníase e tuberculose? A gripe A foi totalmente superada ou no inverno poderemos ter novos surtos?

Dalva ? Já foi uma das principais desse ranking. Ano passado, como secretária da Saúde, recebi uma prêmio do ministério da Saúde. Foram R$ 40 mil depositados em conta para o fundo municipal da saúde, pela qualidade da atenção básica. E olha que particularmente eu acho que temos que melhorar muito. Mas isso deu um fôlego pra trabalharmos muito mais. Voltando às doenças infectocontagiosas. Da Aids não somos mais o primeiro. Mas não importa, porque fomos o primeiro. Porque fomos o serviço que iniciou o diagnóstico. Eu lembro, em 1980, quando surgiu o primeiro paciente de Aids, em Itajaí, ele morreu dentro do hospital Marieta. Era uma doença muito grave que começava a se falar mundo a fora. Com isso, começou a se estruturar um serviço e que depois passou pro Codim. A partir daí começamos a receber gente de tudo o quanto é lugar pra fazer o diagnóstico. Essas pessoas não queriam que em sua cidade alguém descobrisse. Eu me lembro que veio ministro pra região e pessoas que queriam dar dinheiro pra Itajaí por causa deste problema. Foi bom e foi ruim [risos]. Hoje, nós temos os programas de redução de danos, o Bem-me-quer, tanto os que cuidam das mulheres, dos homens, meninos e dos jovens. Que buscam essas pessoas e orientam. A tuberculose tem um grande número também. [E a gripe A foi totalmente superada ou no inverno podemos ter mais um surto?] A secretaria de Saúde, as unidades, a universidade e o hospital foram de uma eficiência nota mil. Ninguém morreu vítima de crime em nossa cidade. E isso foi à toa? Não foi. Fomos o primeiro a abrir uma central de gripe no bairro São João e quando se tinha uma suspeita nós já começamos com o tratamento; tínhamos profissionas que iam até as casas. Todo mundo entrou na luta. E tem mais: deveríamos ampliar isso para o próximo ano. Porque lá no passado não tinha o diagnóstico de gripe A, mas já se morria muita gente pela gripe. [O município vai receber as vacinas, o estado já está adquirindo?] O município já está recebendo as orientações. Mas só.

DIARINHO ? Este surto, essa grande comoção, em relação à gripe A, a academia vê como exagero ou a doença era mesmo perigosa?

Arlete – Olha, as duas coisas. A gente não sabia lidar com uma coisa de tanta proporção. Então, parabenizo a todos: secretaria de Saúde, todos os profissionais, Univali, à população. A forma como cada um absorveu a questão da gripe A foi realmente um grande exercício. Nós não tínhamos referências mundiais de atuação naquele momento. Cada um fez o que pode. Na minha vida profissional ? e tenho 35 anos de profissão – foi a primeira vez que vi uma epidemia de tão grandes proporções. Embora não tenham ocorrido óbitos aqui, houve muitos outros em vários locais. Itajaí se organizou muito rapidamente e de uma forma muito eficiente. Vejo como o maior desafio que os profissionais de saúde enfrentaram, até hoje, em suas vidas. Então, pra mim que sou sanitarista, vivi isso de uma maneira muito intensa. [Isso foi mais importante para testar este sistema ou para combater a doença?] Eu acho que houve de tudo. Ele nos testou, provocou esse desafio e combateu. Os hábitos têm que ser incorporados. Os hábitos higiênicos estavam realmente deixados de lado. Isso tem que ser incorporado na vida de cada um. Não era somente com o vírus que nós estávamos lidando, mas com o pânico da população. O pânico de todos, inclusive, de nós [Refere-se aos profissionais de saúde].

DIARINHO ? Seu João, como o conselho tem analisado, quando se discute orçamento para o município, a prevenção e o combate as doenças infectocontagiosas?

João – Bom, no conselho a parte orçamentária não se chega a ter uma discussão nesses termos. Porque o orçamento é definido pela Saúde e apenas se submete à apreciação e aprovação do conselho. Nós não temos esses estudos aprofundados de onde vão ser gastos esses valores e como vão ser gastos. O município que determina onde vai gastar, onde há necessidade e o conselho apenas discute a aplicação desses recursos e recomenda. Depois, o conselho acompanha exatamente como ele foi aplicado e se obedecem aqueles critérios que estão no orçamento. [Mas o conselho tem um papel, inclusive, anterior ao orçamento…]

Dalva – Isso é com o plano. O plano é tudo. Ele é estudado a várias mãos, o que vamos aplicar em prevenção e ações.

Arlete – Ele é feito a muitas mãos sim, mas apresentado ao conselho. O conselho aprova esse plano, discute, implementa.

DIARINHO – Qual a preocupação do conselho com as doenças infecto-contagiosas?

João – O conselho, assim como os outros órgãos e a comunidade, tem uma preocupação constante com esse tema. O conselho tem acompanhado esse trabalho da saúde, essas ações da saúde e aprova, recomenda ou pode até sugerir alterações de programas. O conselho, é bom que se fique registrado, é um órgão independente, ele não está subordinado à Saúde. Ele é vinculado, mas independente. Dentro do conselho tem uma composição de 50% dos usuários de saúde, representados pelos conselhos municipais de saúde, associação de portadores de patologia, entre outros. Os outros 50% são divididos entre administração da Saúde, trabalhadores da área da Saúde, prestadores de serviço. [Pra 2010, o conselho chegou a fazer alguma deliberação, pedir alguma mudança no orçamento da Saúde?] Não. O conselho não fica alheio nem sobre as ações da saúde e nem sobre as verbas que são aplicadas. O conselho faz esse acompanhamento, faz estudos e faz o seu parecer. Depois e submete à apreciação de todos os conselheiros. Eu, antes de ser presidente, era presidente da comissão de avaliação e acompanhamento do Plano Municipal de Saúde e fazia sempre o relatório das análises das contas do trimestre, fazendo um comparativo com trimestre anterior e do mesmo período do ano passado. A gente analisa também o percentual de gastos e quanto o município está investindo na área da saúde. [Qual o setor que está precisando de mais dinheiro na área da saúde?] Eu acho que a saúde é sempre deficitária. Os recursos que chegam não são suficientes. Sempre há carência de recursos.

Arlete – De qualquer maneira e, Dalva, não me interprete mal, pois a rede de saúde está muito bem estrutura, nós temos um número expressivo de servidores, mas num momento futuro seria interessante ofertar qualificação para esses profissionais. Daí a universidade poderia estar mais presente.

Dalva – Mas já estão sendo qualificados.

Arlete – Mas precisaria tornar este processo um pouco mais amplo para poder, junto com a comunidade, torná-lo mais eficaz, para que os serviços possam ser mais resolutivos. Envolver a todos numa nova cultura de atendimento.

DIARINHO ? Vice-prefeita, qual o modelo de políticas públicas praticada pela secretaria quando o assunto é prevenção e promoção de saúde?

Dalva – Primeiro diagnosticar o problema e tratar ele. Por exemplo, na tuberculose, se precisar buscar o paciente, que se busque o paciente. Esse é um modelo de atenção voltado como um todo. [Mas na prevenção mesmo, para programas como o Itajaí Ativo. Programas mesmo de prevenção e promoção da saúde?] É buscar essas pessoas, inclui-las no meio. [Essa sua fala não passa a ideia de que a gente está indo resolver o problema, como gestor de saúde, só depois que a doença é diagnosticada? Não seria importante trabalhar para que essa doença não ocorresse?] Isso é prevenção, que já falamos no começo. Aí eu digo que a capacitação permanente dos profissionais, ela é importante neste momento. É preciso levar a prevenção à população. [A senhora falou no início do programa Itajaí Ativo, ele deve voltar em 2010 com toda a sua potência?] Em 2009, ele já atendeu 829 pessoas. [Mas ele não aconteceu em algumas unidades, como no bairro Cordeiros. Esse ano, ele volta à ativa em todos os postos?] Ele não terminou 2009 sem. Ele começou sem em 2009. Ele volta porque nós temos uma parceria com a fundação Municipal de Esportes e, com essa parceria, os professores de educação física irão trabalhar com não só com isso, mas com as caminhadas também.

DIARINHO ? Para o conselho, o investimento em prevenção e promoção de saúde está a contento?

João – Pode ser melhorado, mas são investimentos muito pesados. A prevenção passa por um programa de reformulação do município, passa pelo esgoto sanitário. Não se pode pensar em prevenção de saúde, quando se tem valas abertas na cidade, com o esgoto a céu-aberto. A prevenção passa também por programa de alimentação.

DIARINHO ? A universidade apresenta propostas pros gestores públicos de ações que visam a prevenção e a promoção de saúde da população? E também faz ações diretas na comunidade?

Arlete – Olha, a nossa luta é sempre, na formação, fazer valer o modelo de gestão do sistema Único de Saúde [SUS]. A nossa luta é para que o nosso aluno, o nosso egresso, ele compreenda e incorpore os princípios do SUS. [O SUS tem essa área de prevenção? Porque ele parece que trabalha mais para apagar o fogo…] Não. Ele é o melhor e maior programa de saúde do mundo. Ele abrange todas as áreas. Quando eu estou tomando essa água, eu estou tomando porque o SUS está presente nela. Por causa da vigilância sanitária, vigilância epidemiológica. Ele está presente em todas as nossas ações. A gente acha isso normal, é obrigação e tal. Só que por traz disso tem um conjunto de ações, que advém toda essa diretriz nacional. Ele é completo, mas o que se precisa é que todos nós, de uma forma comprometida e responsável, possamos inserir essas ações em toda a sua potência. O caminho é esse, mas tem que ser pra valer.

Dalva – O SUS é promoção, proteção e recuperação da saúde.

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