• Postado por Tiago

 

 

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O casal Santos (foto menor) não troca sua casa (foto) por apartamento nenhum

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Móveis de época da sala dos Santos eram da família Bauer

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Dona Amanda tem o privilégio de um quintal repleto de verde

Se a moda é mudar-se de casas para apartamentos, há também os moradores que não só são uma execeção a esta regra, como representam uma resistência a ela.

Na citada rua Samuel Heusi, outras duas casas preservam toda a beleza e a graça que exibem desde a sua construção, nos anos 40 e 50. A família Santos ocupa duas delas, consideradas umas da mais bonitas que Itajaí já teve. A de número 185 foi construída por outro homem muito rico e poderoso, César Ramos, também dono de banco e armador, e irmão de Abílio Ramos. A casa já abrigou até a embaixada da Argentina e hoje é ocupada pelo aposentado Antonio Carlos dos Santos, o popular Antoninho, de 75 anos, e por sua esposa, dona Lucia Lins dos Santos, de 72 anos.

Na casa vizinha a de seu Antoninho, que foi de dona Benta Bauer, outra figura tradicionalíssima da cidade, mora o filho do aposentado, Roberto dos Santos, o popular Beto da Saveiro. Mas Roberto se muda para um apartamento, em Balneário Camboriú, nos próximos dias.

Como se vê, as preferências entre viver em casa ou num apartamento são polêmicas até mesmo numa mesma família. Beto da Saveiro pretende, por enquanto, locar sua casa histórica, ao invés de ser desfazer dela. Seu Antoninho lamenta a mudança do filho, mas entende que ele, a esposa e as duas filhas jovens se sintam atraídos pelo movimento de Balneário Camboriú. ?Eles gostam de lá. Tá certo. Mas não venham me dizer para mudar para um apartamento também. Trocar a tranquilidade e o conforto da minha casa para se incomodar com vizinho em Balneário Camboriú? Nunca!? fecha a questão.

O apreço do aposentado pela casa têm muitas razões. Foi no casarão que seu Antoninho viveu 37 dos 53 anos de casado com dona Lucia. Ali viu os quatro filhos crescerem, e depois os cinco netos se divertirem nos almoços em volta da piscina. As recordações são de toda uma vida feliz.

Com orgulho, seu Antoninho mostra cada um dos cômodos da casa, que foi construída por César Ramos, genro de dona Benta Bauer, em 1951. São mais 300 m2 de área construída, nos fundos há ainda uma área para lazer, churrasqueira, piscina e dependências para empregados. O piso de madeira de lei, a escada, e boa parte dos cômodos e armários embutidos permanecem originais.

Quem entra no casarão, tem a impressão que volta muitos anos no tempo. ?Era uma outra época?, resume o feliz dono.

Seu Antoninho viu da varanda da sua casa o crescimento e a verticalização da cidade. Ele, que já teve como vizinhos a própria dona Benta Bauer, que manteve um portão ligando a sua casa a do vizinho, numa convivência harmoniosa e cordial, foi também vizinho de seu Abílio Ramos e de muitos dos filhos dele, que se casavam e ocupavam casas próximas ao pai, ali na Samuel Heusi mesmo.

Hoje os tempos são outros. Com a mudança do seu filho para um apartamento, já não sobrará vizinho algum. Os únicos moradores da Samuel Heusi, além da família Santos, são os que vivem no edíficio Jaci Ramos. No mais, a rua é ocupada pelo shopping da cidade e por alguns escritórios e comércios. Mas seu Antoninho diz que resiste. ?Eu recebo meus amigos, meus filhos e netos. Tem dia de semana que almoçam mais de 13 pessoas aqui em casa. Eu me aposentei e agora vivo à disposição dos meus filhos. Mas da minha casa só saio pra aquela casa ali na Fazenda, o cemitério?, brinca o animado seu Antoninho.

Ele já teve propostas de vender a casa, mas tem uma tática para espantar possíveis interessados. ?Peço três vezes o valor da casa, assim eles vão embora correndp. Não quero vender, então falo o preço que me vem na cabeça,? ensina.

A historiadora Marlene Rothbarth, de 76 anos, outra moradora histórica do centro de Itajaí, é muito coerente com a vida que leva e o que acha ideal para o futuro da cidade. Moradora da mesma casa, na avenida Sete de Setembro, há 51 anos, dona Marlene foi vendo cada um de seus vizinhos se mudar com o passar dos anos. ?A partir da década de 90, as pessoas começaram a se mudar para apartamentos, e muitos para Balneário Camboriú. Eu jamais faria isso! Quando sei de um amigo que está indo embora para Balneário eu ainda chamo a atenção, questiono se ele não tem amor por nossa cidade, por nossa terra?, conta, bem-humorada.

Dona Marlene faz parte do Conselho de Patrimônio Histórico de Itajaí e garante que está havendo um esforço para que a Câmara de Vereadores crie regras para a preservação do centro histórico de Itajaí. ?O porto não pode continuar a avançar sobre o centro da cidade, sob pena de perdermos o nosso centro histórico e a nossa identidade?, alerta dona Marlene.

Outra que resiste aos novos tempos é a dona de casa Amanda Slama Seeberg, de 82 anos. No que depender dela, a especulação imobiliária não ocupará todo o centro da cidade. Moradora de uma simpática casa no coração de Itajaí, em plena rua Felipe Schimitd, dona Amanda vive num terreno cheio de ávores frutíferas e flores.

Ela cria galinhas e um vira-latas num imenso quintal, em pleno centro de Itajaí. Dona Amanda confirma que foi assediada pelo mercado imobiliário. Queriam construir salas comerciais na frente de sua casa e sugeriram que ela ocupasse os fundos do terreno. Dona Amanda não concordou. Ela não abre mão do seu jardim e de seus animais. Sinal de que ainda nem tudo é comércio no centro de Itajaí.

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