• Postado por Tiago

?Não adianta você dividir a pobreza, você precisa crescer para beneficiar toda a economia?

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Osmari de Castilho Ribas aceitou, em 2001, o desafio gigantesco de transformar um pedaço de terra às margens do rio Itajaí-açu num terminal portuário moderno e competitivo. Em oito anos, o diretor da Portonave consolidou o terminal em Navegantes, estabeleceu também em terras dengo-dengo a Iceport, empresa especializada em cargas congeladas, e ainda enfrentou a experiência devastadora da enchente do ano passado. Nesta entrevista exclusiva aos repórteres Anderson Bernardes e Sandro Silva, o mandachuva do porto de Navega contou como foi o processo de criação do terminal, falou sobre a opção de não contratar trabalhadores avulsos, criticou a lentidão na dragagem do canal de acesso, mas ? acima de tudo ? se mostrou um empresário otimista em relação ao futuro do complexo portuário do rio Itajaí. As fotos são de Felipe Trojan.

DIARINHO – A inserção de um empreendimento do tamanho da Portonave numa comunidade sempre causa impacto. Como estão sendo ou foram solucionados os conflitos iniciais?

Osmari de Castilho Ribas – A preocupação com os conflitos começou antes da implantação. Nós estudamos bem a região. Nós tínhamos um estudo econômico-financeiro e de impacto ambiental. Antes de começar o processo, nós fizemos todos os estudos de meio ambiente, relatórios de impacto ambiental, passamos pelas audiências públicas e tivemos contato com o município para apresentar a maneira como nos instalaríamos. Quando nós viemos, apesar de ter causado alguma surpresa para quem não conhecia, nós já tínhamos estudado toda a região, seja do ponto de vista da viabilidade, quanto do ponto de vista ambiental, e do impacto sócio-econômico que a cidade teria. [Onde houve mais resistência? Na questão ambiental não houve tanta resistência, não é?] Não houve resistência. No meio ambiente, nós conseguimos cumprir todas as condicionantes e fomos até além, considerando que aqui não tinha um impacto de meio ambiente muito grande. A região já era uma área que não tinha habitação. Era uma área de dificuldade para as construções. Não houve grandes resistências até porque o município precisava de um empreendimento desse porte. Houve sempre boa vontade das pessoas. Algum transtorno causado durante a obra: tinha poeira, tinha barulho ? normal para uma obra desse porte. Mas nós sempre conversamos com a vizinhança, os nossos técnicos interagiram com eles, procurando minimizar os impactos que a obra causava. E hoje, com a operação, tem sido muito tranquilo. Continuamos monitorando ruído, poeira, tendo contato com a vizinhança e não temos tido reclamações.

DIARINHO – A empresa recebeu esta semana o prêmio Fritz Müller, de meio ambiente. O que diferencia a Portonave de outros terminais, fazendo com que receba prêmios de reconhecimento?

OC – Nós já vínhamos com isso desde o início. Tanto que nós já tínhamos ganhado o prêmio Fritz Muller na versão anterior por esse processamento de todas as atividades. Nós cumprimos rigorosamente o que estabelecem as normas. Temos um contato permanente com a Fundação do Meio Ambiente (Fatma) e monitoramos todas as nossas atividades. Nós tomamos um cuidado com tudo que se faz no empreendimento. Nós temos um sistema de drenagem capaz de conter um vazamento, temos um procedimento para resgatar algum animal que ainda surja e nós tentamos dar ao empreendimento uma visão de um terminal adequado a sua época, um terminal que busca a excelência. E o meio ambiente foi um dos nossos fatores preponderantes. Nós tivemos essa preocupação e o prêmio é uma consequência. Desde antes de começar até hoje nós continuamos monitorando em todos os sentidos e temos uma equipe interna permanente, trabalhando as questões ambientais. Nós nos preocupamos com os detalhes. O detalhe da separação do lixo, o detalhe com o menor vazamento que possa ocorrer… E não são só as medidas corretivas. Nós tivemos pouquíssimos eventos que tivemos que corrigir. Nós trabalhamos muito mais no sentido da prevenção.

DIARINHO – Já é possível calcular o prejuízo que a enchente causou ao terminal? Centralizar em Brasília a coordenação da dragagem do canal, na sua opinião, foi uma decisão acertada. Por quê?

OC – Nós não tivemos o resultado que gostaríamos aqui na região com a dragagem. Nós esperávamos voltar aos 11 metros de calado, não voltamos e estamos operando com a profundidade de 10 metros. Para um porto como o nosso, um metro faz diferença. Buscou-se celeridade no processo. Buscou-se deixar isso na secretaria especial de portos para que fosse rápido. A contratação foi rápida. Mas, infelizmente, nós não tivemos o resultado que nos remetesse à situação anterior à enchente. Fizemos uma tentativa local ? com Portonave, Teconvi e Porto de Itajaí ?, buscando ajustar um dos pontos, que hoje é o principal problema, que é a entrada da barra, mas também não tivemos sucesso com a empresa que se propôs a fazer esse serviço e estamos buscando algumas alternativas. È fundamental ter um aprofundamento do calado. Nós vínhamos crescendo sensivelmente. No ano passado, cresceu muito a nossa movimentação. Chegamos a 22 mil contêineres em outubro do ano passado para 44 atracações. Esse tinha sido o nosso melhor momento porque vínhamos crescendo e continuaríamos crescendo, não fosse o advento da enchente. Esse número despencou. No mês de novembro já foi prejudicado. Apesar de a enchente ter começado no final do mês, nós já vínhamos com excesso de chuva, com fechamento de barra, o que acaba prejudicando a operação. Em dezembro a movimentação foi zero ou muito próximo disso. E começamos lentamente em janeiro, com uma retomada gradativa também de profundidade. Hoje nós estamos operando as cargas que operávamos em outubro do ano passado, com um número de atracações muito maior. Isso mostra que a média por atracação caiu, parte em função do canal ? os navios precisam entrar mais aliviados ? e parte também em função da crise mundial. A nossa crise local foi muito mais sentida do que a crise mundial. Nós temos um prejuízo, sim. É difícil prever o que movimentaríamos, sobretudo porque não temos estatísticas do ano anterior. A nossa curva era ascendente. Perdemos seis meses de crescimento e esperávamos estar em outro patamar. Hoje nós operamos cerca de 22 mil contêineres, em janeiro nós operamos só 12 mil. Deixamos de operar 10 mil em comparação a hoje e hoje já deveríamos estar acima. A perda para a cadeia produtiva toda é muito grande. No nosso caso ? que é um empreendimento começando, em que você tem um fluxo de caixa mais complicado no seu início, muito mais apertado ? isso é muito mais expressivo. [Isso pode afetar os novos investimentos?] Não. No nosso caso não. Nós havíamos planejado a primeira fase como ela está implantada. Nós imaginávamos a câmara frigorífica, a ?geladeira gigante?, como o DIARINHO chama, 900 metros de cais, 270 mil metros quadrados de retro-área. Nós atrasamos um pouquinho com a geladeira. Nós inauguraríamos em novembro. Tínhamos marcado, por uma ironia do destino, a inauguração para aquele final de semana da enchente. Nós tivemos que adiar um pouquinho e ela entrou em operação no final de janeiro. A própria geladeira depende dessa relação com o porto. Um diferencial que a Portonave tem é essa integração. Como existe aqui na região uma demanda muito grande por carga congelada, o nosso objetivo é fazer essa logística integrar os dois sistemas. Mas nós implantamos como prevíamos. Obviamente que isso prejudica um pouco o retorno do investimento. Você posterga o retorno do investimento. Mas nós continuamos, não demitimos ninguém, pelo contrário, continuamos contratando e continuamos acreditando na recuperação. Não há como parar. Nós vamos continuar acreditando nisso, apesar de ter que adequar algumas situações, mas mantivemos todos os investimentos.

DIARINHO – Como o senhor avalia o impacto da abertura do porto de Itapoá na movimentação de cargas aqui no complexo do Itajaí-açu? O terminal de lá tem mais condições de receber navios de grande porte do que aqui, isso vai afetar o mercado? Como evitar a perda de clientes?

OC – Nós temos concorrência nas duas pontas. Em Imbituba, com um terminal privatizado, que recebe novos investimentos, e temos a concorrência do porto de Itapoá, e também do porto de São Francisco, que está se adequando. O porto de Itapoá, pela informação que nós temos, deve estar operando no final do próximo ano. São concorrentes, sem sombra de dúvida. Porém, o complexo portuário do rio Itajaí continuará sendo o mais importante do estado, pela sua vocação, por termos cargas de alto valor agregado, por sermos os grandes concentradores de cargas frigoríficas do estado. Teremos que agir. Nós precisamos ter uma celeridade maior nos processos de dragagem, na própria reconstrução, em adequar as nossas atividades. Nós temos aqui uma capacidade instalada que nos permite ser altamente competitivos. Tenho certeza que seremos competitivos. Itapoá não é surpresa, Imbituba não é surpresa. Nós precisamos oferecer melhores condições para que os clientes continuem vindo, para que os armadores continuem vindo. A questão da enchente tem um impacto, nos faz repensar alguns passos, mas nós precisamos de uma recuperação rápida para que, quando esses novos empreendimentos estiverem prontos, nós também tenhamos condições de instalações prontas para fazer frente a eles.

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DIARINHO – Em Navegantes, as obras da via expressa patinam e o mesmo acontece em Itajaí. A dragagem do canal virou uma novela. A agilidade da atuação do poder público nas obras de infraestutura em relação aos portos é satisfatória na sua opinião? Existe solução pra isso?

OC – A questão da recuperação é um caso a parte, é um peso, é uma emergência. Com relação às questões de infraestrutura poderíamos ter um processo mais rápido. No nosso caso específico, nós temos 1,8 mil metros de via portuária que deveriam estar prontos para dar condições à cidade para que não houvesse um gargalo na nossa demanda e os caminhões pudessem trafegar sem prejudicar as vias urbanas. Nós tivemos uma dificuldade. Nós vamos para o segundo ano do porto e não conseguimos fazer 1,8 mil metros de via portuária. Não há que se apontar um culpado, mas a forma como foi conduzida a obra até agora não funcionou. Isso precisa de um debate maior entre a iniciativa privada e o setor público para que tenhamos soluções que não afetem o desenvolvimento econômico da região, que é voltada para o comércio exterior e que depende de boas vias de acesso, de energia, de infraestrutura para poder se desenvolver.

DIARINHO – Como a Portonave está lidando com a retirada dos incentivos fiscais da prefeitura de Navegantes?

OC – Não falta habilidade à Portonave para se relacionar com o poder público. Sempre nos relacionamos muito bem com o setor público em todas as suas esferas. Estamos em Navegantes, esse é um empreendimento que nós começamos aqui em 2001 e, desde então, temos uma relação muito boa com o poder público municipal. Nunca tivemos nenhuma dificuldade com isso. Os benefícios fiscais foram concedidos pela administração pública, embora não pela atual, mas o prefeito atual foi vereador e secretário naquela época. Sempre tivemos uma relação ótima com todos os vereadores. Por isso, gostaríamos nesse momento de ver mantidas as condições que o município nos concedeu quando da implantação. A Portonave sempre cumpriu tudo o que assumiu com o município, então gostaríamos que isso fosse mantido. Isso não quer dizer que não tenhamos uma boa relação com a esfera pública. [Além da geração de emprego, o que a Portonave dá para a comunidade em troca desses incentivos fiscais que recebe?] Qualquer empreendimento desse porte transforma a comunidade onde ele se instala. Transforma no sentido de dar a essa comunidade uma perspectiva de um desenvolvimento muito mais rápido. Os incentivos fiscais são dados para que a iniciativa privada tenha condições de se instalar, se desenvolver e investir. O investimento do complexo Portonave aqui em Navegantes, nesse momento, é de cerca de 450 milhões de reais, um investimento expressivo. No país, nos últimos anos, são poucos os investimentos dessa ordem, principalmente na atividade portuária. Quando se faz um projeto desse tamanho não se pode olhar só o retorno direto. Tem que se olhar tudo o que gera de impostos indiretos que vão beneficiar o município: o que gera de empregos, o que potencializa novas empresas e de prestadores de serviço que arrecadam diretamente para o município. E os incentivos fiscais não são ad aeternum (pra sempre). São cinco anos que é um período normal entre a construção e o início da sua operação. [Quantas são essas empresas agregadas?] A Portonave tem muitos parceiros. Têm as empresas terceirizadas. Todos os despachantes, transportadoras, agentes e outras atividades de apoio que acabam se instalando na cidade. Isso fomenta toda a base da economia, e é isso que faz com que as cidades cresçam. O mais importante é ter uma visão de futuro. Se você comparar Navegantes com três anos atrás, vai ver a evolução que a cidade teve com relação a outras cidades do estado. Provavelmente é uma das cidades que mais cresceu no estado nesse período. Não se pode analisar um benefício fiscal pontualmente. Nós temos uma concessão para 50 anos. Benefícios fiscais de ordem estadual e federal também foram concedidos. O Reporto (Regime Tributário para Incentivo à Modernização e à Ampliação da Estrutura Portuária) nos permitiu adquirir equipamentos como os que hoje temos aqui, de primeira linha, atualizados. O Reporto foi um benefício concedido pelo governo federal que isentou de todos os impostos federais. Isso é abrir mão de receita? Obviamente que não. Isso é pensar na receita que se terá no futuro. Não adianta você dividir a pobreza, você precisa crescer para beneficiar toda a economia. Vai gerar renda pelos salários, pelos novos negócios… E mesmo nos pequenos negócios todo mundo começa a sentir isso e a economia só cresce assim. E a economia cresce muito em função de obras de infraestrutura. Os portos não podem ser vistos isoladamente. É um complexo portuário capaz de desenvolver não só Navegantes, mas sim toda a região. [Como ficou a questão dos incentivos?] Para a Iceport seriam cinco anos a partir do início da operação, que foi neste ano. Isso foi suprimido, não temos o incentivo fiscal da Iceport. E da Portonave nós temos o incentivo fiscal que vence no final do próximo ano. Isso continua vigendo. [Há negociações para a manutenção do benefício?] Nós conversamos um pouco com a prefeitura, eu acho que não a ponto de chegar a uma solução. Não tivemos uma discussão mais aprofundada. Fomos chamados para uma conversa com outras empresas que estavam na mesma situação. Mas não houve uma negociação, houve uma comunicação de como seria feito. É uma prerrogativa do governo municipal. A Portonave fará a avaliação disso e vai buscar preservar o que julga ter direito. Havendo a legalidade em todos os procedimentos, a Portonave considera que está absolutamente enquadrada no que foi colocado pelo município. Não foi a Portonave que criou isso, foi o município que concedeu. Isso é característica do município, independente de quem seja o prefeito. O benefício fiscal é um compromisso assumido pelo município e a Portonave espera que ele seja honrado.

DIARINHO – Existe alguma conotação política neste episódio? O terminal se posicionou a favor de alguém nas últimas eleições?

OC – A Portonave não tem nenhum viés político. Nós vamos conviver com o administrador que o povo de Navegantes eleger. O povo de Navegantes sabe o que é melhor pro seu município e, democraticamente, elege os seus representantes. Não temos nenhuma participação. Eu não tenho nenhuma vinculação partidária. Temos o relacionamento que toda empresa deve ter com seu município, com seu estado e com seu país. Cumprimos as regras e não temos nenhum viés político. Não vejo que isso possa ser uma retaliação por algum posicionamento da Portonave. A empresa sempre foi isenta neste sentido e nos manteremos assim.

DIARINHO – Como o senhor avalia a qualidade da mão-de-obra na região e até que ponto isso influência nos resultados do terminal? Como foi administrada e a quantas anda a pressão dos sindicatos dos trabalhadores portuários, que nos primeiros tempos levantaram questões a respeito da forma de usar mão de obra na Portonave? Por que a Portonave não contrata a mão-de-obra através do órgão gestor?

OC – A Portonave tem, na sua grande maioria, trabalhadores aqui da região, em todos os níveis. Nós começamos a empresa aqui, a Portonave foi fundada para esse empreendimento. Nós tivemos que começar do zero, como construção, como obra e como empresa também. Tivemos que criar todos os procedimentos, desenvolver uma política de recursos humanos a partir do zero. Eu sou o mais antigo aqui, eu comecei este processo. A partir daí fomos contratando e tivemos que adequar essa mão-de-obra. Tínhamos alguns procedimentos, alguns equipamentos e essa mão-de-obra não estava treinada para isso. Tivemos que criar também uma ?cultura de Portonave?. Como nós buscamos a excelência, trabalhamos muito no treinamento. Buscamos uma mão-de-obra com boa escolaridade. Nós temos aqui a nossa mão-de-obra com, no mínimo, o segundo grau. É uma coisa não muito comum. Fizemos um processo de seleção aberto e transparente e trabalhamos intensivamente no treinamento. É uma mão-de-obra que já vinha com muito boa base e alguns com experiência. Aproveitamos essa experiência, mesclamos isso para que tivéssemos uma mão-de-obra qualificada. Nós optamos por uma gestão do nosso pessoal vinculado. Não trabalhamos com a modalidade do trabalhador portuário avulso. Essa foi a mudança que nós fizemos com relação à prática que é comum nos portos. Ofertamos agora vagas com preferência aos trabalhadores vinculados ao OGMO (Órgão Gestor de Mão-de-obra) desde que eles estivessem dispostos a trabalhar exclusivamente com a Portonave no regime de trabalhador CLT convencional. [Quais são as desvantagens de se contratar mão-de-obra avulsa?] Nós conseguimos desenvolver equipes de trabalho coesas e mais treinadas se elas estiverem permanentemente conosco. Nós evitamos o rodízio, é uma equipe que está sempre conosco, que nós podemos acompanhá-la, treiná-la adequadamente e dar a ela uma perspectiva de carreira. [A remuneração da força de trabalho é menor também, não é?] Existem vantagens e desvantagens de um lado e de outro para ambos os lados, depende muito de quem analisa. Se, por um lado, o trabalhador portuário tem a flexibilidade de aceitar ou não aceitar um tipo de trabalho, de administrar a sua maneira a sua vida profissional, o trabalhador vinculado tem um compromisso de, em um determinado turno, estar à disposição da empresa. Por outro lado, esse trabalhador vinculado tem todas as garantias trabalhistas. Pelo lado da empresa, há uma desvantagem porque isso é um custo fixo. Eu tenho que pagá-lo tendo ou não tendo navios atracados. [Houve atraso de salários?] Nenhum. Nunca tivemos um dia de atraso aqui. Não cortamos nenhum benefício. O trabalhador não foi afetado de maneira nenhuma. Não houve salário reduzido, benefício cortado… Esse trabalhador ficou ocioso, mas ficou recebendo seu salário normalmente. São as características das duas formas de trabalho. Nós acreditamos e vamos continuar investindo no trabalhador vinculado.

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DIARINHO – Qual é a verdadeira relação de forças entre os portos de Itajaí e Navegantes? Eles cooperam ou concorrem? Existe algum esforço conjunto entre as administrações dos dois terminais?

OC – Com a autoridade portuária há uma relação de cooperação e de participação, tanto é que temos buscado e discutido soluções em conjunto. A autoridade portuária entende que o sucesso da Portonave é também o sucesso do porto de Itajaí. O porto de Itajaí não é concorrente da Portonave. O porto de Itajaí é a autoridade portuária. Cabe ao porto de Itajaí regular a atividade e ter medidas que acelerem o crescimento. Temos uma relação muito boa. O Antônio Ayres (superintendente do porto de Itajaí), que é uma pessoa de grande capacidade administrativa e de muito conhecimento técnico, tem essa visão. Esta é a visão de toda a administração de Itajaí. Fica bastante evidente que é preciso somar, que a Portonave tem um papel importante nesse momento. Com essa crise que vivemos aqui, a Portonave é quem mais opera na região e isso contribuiu não só para Navegantes, não só para esse lado da vala. O outro lado da vala é determinante e contribui para o sucesso de toda a região. Os portos não são vistos isoladamente, no quintal de casa. O Teconvi é nosso concorrente, mas nem por isso é nosso inimigo. O Teconvi é um terminal que concorre, que precisa ser eficiente e nós também precisamos ser eficientes. É importante que tenhamos dois terminais de porte e eficientes. A concorrência não é entre nós, dentro de casa. A concorrência é com o mundo.

[Quando mudou a relação entre os portos de Itajaí e Navegantes?] Eu acho que isso foi amadurecendo aos poucos. A Portonave foi vista como ameaça por alguns no início, foi vista com desconfiança e não sei a que atribuir isso. Mas eu acredito que essa relação foi amadurecendo com os fatos que vieram a ocorrer, com a Portonave ficando sólida e mostrando que veio para somar e não veio para dividir.

DIARINHO – Qual é o horizonte, a longo prazo, com o qual a Portonave trabalha? A Portonave já comprou um terreno vizinho para que inicie a ampliação do terminal, mas existe um imbróglio com relação a uma questão jurídica. O que tá havendo? Há previsão para o início das obras?

OC – A Portonave prevê o crescimento, na implantação já falávamos dessa maneira. Nós vamos crescer em área, nós temos área disponível na Ponta da Divinéia. Nós temos 100 mil metros quadrados que já estão com aterro de sobrecarga, para trabalhar esse terreno que tem certa dificuldade de geologia. E temos mais 50 mil metros quadrados num terreno depois da Iceport. Nós temos área para crescer. O nosso projeto é crescer em retro-área e crescer em equipamentos. [Crescer quanto e como?] Nós imaginamos que isso deva ocorrer em 2011. É claro que esse fato da enchente e a crise internacional faz com que tenhamos que revisar o nosso planejamento. Mas nós acreditamos que haverá demanda, que teremos um crescimento da economia, a conteinerização cresce mais do que o comércio exterior e acreditamos na carga congelada, com uma possível duplicação da câmara frigorífica. Nós não conseguimos ver um empreendimento como esse de maneira estanque. Nós precisamos olhar para o futuro. Os terrenos que a Portonave adquiriu estão todos legalizados. Existe o terreno de uma massa falida, que não é uma discussão da Portonave. A Portonave vai esperar por uma definição e, havendo essa definição jurídica e condição comercial, a Portonave terá interesse nesse terreno.

DIARINHO – Os portos de Itajaí e São Francisco estiveram recentemente envolvidos em investigações da polícia federal. Isso afetou Navegantes? O que a Portonave tem feito pra evitar que os desvios que ocorrem nos portos públicos não se repitam na iniciativa privada?

OC – Esse é um assunto que nós acompanhamos, mas não temos muitos detalhes, não nos cabe avaliar. A Portonave procurar evitar isso com um sistema de gestão integrado de maneira que todos os nossos procedimentos sejam padronizados, para que nós tenhamos como rastrear todas as atividades e que tenhamos absoluto controle sobre elas. Nenhum sistema é imune a falhas, se não houver uma equipe integrada com isso. Nós, felizmente, conseguimos desenvolver aqui uma equipe de gerentes com uma qualificação muito boa do ponto de vista técnico e do ponto de vista de comportamento. Pessoas que conhecíamos de outros empreendimentos, pessoas que tinham as melhores referências. E buscamos divulgar uma ?cultura da transparência?. Todo funcionário que entra aqui recebe uma camiseta branca. Essa camiseta simboliza para ele a transparência com que as coisas devem ser tratadas aqui ? como nós vamos tratá-lo e como ele deve se comportar. E damos uma camiseta branca onde ele vai escrever a história dele dentro desse empreendimento. Com conscientização e controle paralelo nós procuramos evitar esse tipo de ocorrência. Até hoje não tivemos nada que fugisse ao convencional. Temos abertura, todos podem conversar com a diretoria ou com os gerentes a qualquer momento. Nós ouvimos as reclamações e não nos aborrecemos com elas. Elas nos dão a oportunidade de crescer, de aprimorar e de melhorar. Buscamos a excelência. Desenvolvemos um sistema integrado de gestão e, em menos de dois anos, já certificamos ISO 9001. À medida que você aprimora os procedimentos internos, à medida que você dá o exemplo, à medida que você convive com uma equipe que sabe por que está aí, que está motivada, a gente diminuiu bastante este risco.

DIARINHO – Como é feito o trabalho de atração de clientes para um porto? Há uma concorrência forte de outros portos? O que conta a favor e o que atrapalha nesta disputa?

OC – Existem os armadores e a prospecção deles é um contato direto porque são grandes empresas, conhecidas de todos. Não existe um armador desconhecido. São enormes empresas com as quais você precisa ter uma conversa comercial diretamente. E existem os usuários que são as empresas que vão exportar ou importar a carga por aqui. Existe o pequeno, aquele que movimenta um contêiner vez ou outra. E existem os que têm escala. Nós temos uma área comercial, que trabalha esses contatos, e nós buscamos divulgar as condições que temos aqui e dar a todos os clientes um tratamento transparente, mostrando que vantagens ele terá aqui. Nós temos um porto dentro de todas as especificações nas quais se encontram os principais portos. Nós temos ISPS Code (código internacional de segurança da Organização Marítima Internacional) com tudo atendido, já temos a ISO 9001 atendida, controle ambiental, temos equipamentos que garantem produtividade ? os portêineres são os primeiros de Santa Catarina, equipamentos de alta performance. [Os portêineres são essas ?girafas??] São essas girafas azuis, maiores. Cada girafa dessa custa 10 milhões de dólares. Não é um equipamento barato. E nós tivemos a oportunidade de planejar um terminal. E temos a Iceport, com 18 toneladas de capacidade estática toda automatizada. Conseguimos oferecer ao usuário uma integração com a qual ele trará a carga solta e nós faremos todo o trabalho. Mil e duzentas tomadas na área reefer (para contêineres frigoríficos), que também nos permitem competitividade. Você consegue desenvolver um terminal se você tiver qualidade, isso é fundamental. [As tarifas são menores que as dos concorrentes?] As tarifas são competitivas. O mercado define tarifa. Preço é determinado pelo mercado. Mas esse mercado não olha só tarifa. Tarifa não é o mais importante. A tarifa não sobrevive por si só. Se a tarifa é baixa e o é serviço ruim, não interessa ao cliente. O importante é que o navio chegue, possa ser operado rapidamente, sem avarias, que você tenha celeridade no processo no que depende do terminal. A tarifa não é observada isoladamente. Não basta ter uma boa tarifa e uma baixa produtividade.. Nós temos um investimento que precisa ter o seu retorno. Não vai ser mergulhando tarifas que se terá o retorno de um investimento concentrado como esse.

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DIARINHO – O senhor é economista de formação. Tinha experiência em gestão de terminais antes de assumir a Portonave? O que difere a gestão de um economista da de um administrador?

OC – Eu não tinha nenhuma bagagem de porto até começar a estudar o terminal de Navegantes, mas eu comecei a estudar esse terminal em 2001, quando era um projeto e nós começamos a estudar a viabilidade técnica e econômica disso. Nos cercamos de profissionais das mais diversas áreas: engenharia, logística, de estudo de mercado para definir a condição do empreendimento. Eu vejo os profissionais de gestão como generalistas. Esses profissionais, a partir de um determinado nível das suas carreiras, se tornam generalistas, capazes de estudar projetos sejam de área portuária ou de qualquer outro segmento da economia. Isso faz com que aprendamos um pouco de tudo e, cercado de especialistas em cada área, alcancemos os objetivos. O grande mérito do gestor é construir equipes fortes e se apoiar nelas.

DIARINHO – De quem é Portonave?

OC – A Portonave tem dois sócios, dois grupos. A Triunfo Participações, de capital nacional, e a Backmoon Investments, uma empresa suíça. São os dois sócios da empresa, cada um com 50%. [A Portonave controla outra empresa?] Não. Ela é uma empresa criada só para esse terminal. Controla a Iceport, que é 100% da Portonave. Ele tem uma administração separada por estar fora da área alfandegada e por ser um negócio específico, com outra característica de pessoas na operação.

DIARINHO – Na sua opinião os portos privados levam vantagem em relação aos públicos pela sua forma de gestão? Por quê?

OC – Existe sempre uma flexibilidade maior ao se gerir uma empresa privada. Temos talvez menos amarras, as coisas talvez sejam mais ágeis. Na administração portuária, existe espaço para as duas modalidades. O que se observa hoje é o processo de concessão à iniciativa privada, como fez Itajaí e como fizeram vários outros portos. Os dois modelos podem e devem coexistir e você terá vantagens e desvantagens dentro de um e de outro. Mas a tendência é fazer o que Itajaí está fazendo: ficar com a autoridade portuária e conceder a operação à iniciativa privada.

DIARINHO – A modernização dos portos coloca em risco a continuidade da atividade de portuário?

OC – Não coloca em risco, mas exigirá um profissional com outras características. No país todo é assim, no mundo é assim. Haverá uma necessidade maior de adaptação, de treinamento. Os portos não podem mais ser arcaicos. Nós temos que ser competitivos para que possamos dar ao produto nacional competitividade no exterior . O custo portuário influencia muito na colocação dos produtos lá fora. Não vejo o trabalhador portuário perdendo seu espaço, o vejo buscando qualificação e adaptação aos novos tempos.

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Uma Resposta to “Osmari de Castilho Ribas: Diretor Superintendente Administrativo da Portonave”

  1. zenidasilva Diz:

    Gostei dessa entrevista,è muito inteligente.A sua visao sobre a economia quando diz que nao adianta dividir a pobreza,mas sim crescer para beneficiar a economia,è o pensamento de um empresario altruista,nao egoista.Muito bom parabens….Zeni

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