• Postado por Tiago

s---entrevistao-silas-foto-rubens-flores-22out09-(6)  Técnico do Avaí.

Raio-X

Nome: Paulo Silas do Prado Pereira

Idade: 44 anos

Naturalidade: Campinas/SP

Estado civil: casado

Filhos: três

Hobby: jogar tênis

Carreira como jogador: começou no São Paulo e jogou ainda por Sporting (Portugal), Central Español (Uruguai), Cesena e Sampdoria (Itália), Kashiwa Reysol e Kyoto Sanga (Japão), San Lorenzo (Argentina), Internacional, Vasco da Gama, Atlético/PR, Rio Branco, Ituano, América/MG, Portuguesa e Inter de Limeira. Também defendeu a seleção brasileira nas copas do mundo de 1986 e 1990.

Carreira como técnico: foi auxiliar técnico no Paraná, Atlético/MG e Fortaleza, e agora é técnico do Avaí.

Ele é um dos principais, senão o principal responsável por essa excelente fase do Avaí, hoje único time de Santa Catarina na elite do futebol nacional. Dentro de campo foi um craque no meio-campo. Defendeu grandes clubes do Brasil e do exterior, e também participou de duas copas do mundo representando nosso país. Fora das quatro linhas começa a ganhar destaque em sua nova profissão, a de técnico de futebol.

Estamos falando de Paulo Silas do Prado Pereira, ou simplesmente Silas, treinador da nova geração do futebol brazuca e que vem acumulando triunfos e conquistas com o Leão. Entre outras coisas, Silas ajudou o Avaí a conseguir o acesso pra série A após 30 anos, foi escolhido o melhor treinador da série B, levou o time azurra ao título do campeonato Catarinense e à consequente vaga pra copa do Brasil do ano que vem. Ele ainda realiza um grande trabalho com o Leão na primeira divisão do Brasileirão.

Em entrevista exclusiva aos jornalistas Carla Cavalheiro e Marcelo Roggia, Silas abre o jogo e conta tudo sobre esse grande momento atual do Avaí. Também fala das propostas que já recebeu de outros clubes, de seleção brasileira, Maradona, Guga, religião e mais um monte de assuntos do mundo do futebol. As fotos são de Rubens Flôres.

s---entrevistao-silas-foto-rubens-flores-22out09-(1)

DIARINHO ? Você chegou ao Avaí criticado pela imprensa local como ?aprendiz de técnico?. Contrariando a expectativa, você levou o time à elite do Brasileiro após 30 anos ? eleito o melhor técnico da Segundona 2008 ?, deu um título estadual que tava entalado há 12 anos e a vaga na copa do Brasil de 2010, além de realizar uma grande campanha no Brasileirão deste ano. Este é um cala-boca para quem falou demais?

Silas ? Eu não vejo por este lado, porque ninguém me conhecia. Não eram obrigados a gostar de mim. E eu também não conhecia eles e não tinha que dar satisfação a ninguém. Eu vim aqui com um propósito, um trabalho a ser realizado. Quem acreditou em mim me contratou e eu devia satisfação a essa gente. E foi isso que eu procurei fazer e procuro fazer isso até hoje, porque a crítica vem a toda hora. Acho que isso é do momento da posição de técnico. A posição é que é cultural, pelo menos no Brasil.

DIARINHO: Que avaliação você faz dessa sua ainda curta, mas até aqui vitoriosa carreira como técnico?

Silas ? Acho que as coisas foram acontecendo de uma forma progressiva e bem pé no chão. Em Fortaleza, fomos vice-campeões no primeiro turno do campeonato Cearense. No Paraná, fomos vice-campeões no estadual e fizemos uma boa campanha na Libertadores. A coisa veio acontecendo de uma forma progressiva e bem fundamentada. Quando eu cheguei no Avaí a gente quase foi campeão do segundo turno do estadual. Aí depois não teve jeito. A gente subiu para a série A, fomos campeões do turno no estadual deste ano, depois classificamos para a copa do Brasil e fomos campeões catarinenses. A coisa veio numa sequência de vitórias muito boa e isso deu base também para a série A. Mas mesmo com tudo isso, quando nós entramos na série A todo mundo dizia: ?Ah, vai subir e vai cair?. Eu cansei de escutar aqui, durante o campeonato Catarinense: ?Ah, com esse time aí na série A vai cair?. Eu pensava comigo: ?Pô, esses caras tão sofrendo antes de jogar?. Agora estamos numa situação bem boa, não cômoda, mas numa situação privilegiada pela história do clube que estava há muito tempo sem jogar série A. Era isso que eu falava quando a gente estava atravessando aquele momento ruim este ano. O clube estava há 30 anos sem jogar a série A. Eu não! Eu tenho dois anos aqui. O Marquinhos veio da série A. O Muriqui também. A gente teve que carregar este peso, sendo que este peso não era para esse grupo. Eu tentei separar bem uma coisa da outra.

DIARINHO – Como surgiu a ideia de ser técnico de futebol?

Silas ? É mais ou menos parecido quando você está querendo ser jogador de futebol. Primeiro são os amigos que dizem que você tem condições. Já pequeno você começa a jogar contra os mais velhos. Com 12 anos você joga com quem tem 20, 30, e você se sobressai. Aí quando alguém te vê manda você fazer um teste, porque pode ter chance. E treinador é a mesma coisa. Você vai encerrando a carreira e os treinadores vão te dizendo que você tem jeito e sugerem você ir tentando como auxiliar. O cara começa a acreditar e vai. [O perfil de liderança quando jogador também ajudou?] Essa é uma das qualidades que o cara tem que ter para ser treinador. Acho que a primeira é entender. É que nem o cara que bate uma pelada de final de semana e o cara que joga futebol. A velocidade é outra, o tempo de bola é outro. O cara que joga tênis por lazer é uma coisa. Você vê o Guga jogando e vê que é completamente diferente. É outro mundo. [É verdade que você tem o hobby de jogar tênis?] Sim, gosto muito de jogar tênis. Uma vez o Guga me convidou e joguei meia hora de tênis com ele, na casa dele. É algo que vou guardar pra sempre.

DIARINHO ? Antes de desembarcar na Ilha, onde você trabalhou como técnico?

Silas ? No Paraná, como auxiliar técnico do Zetti, depois no Atlético Mineiro, no Fortaleza, como auxiliar, e depois no Avaí assumi como treinador.

DIARINHO ? O que mudou no Avaí após você ter assumido o comando da equipe?

Silas ? Acho que em primeiro lugar a parceria com o clube, com o presidente, com a empresa parceira, que é a LA Sports. Houve um comprometimento de todo mundo. É muito detalhe, muita atenção que esse trabalho exige. Parece simples você colocar um time dentro de campo, mas não é não. Um técnico de futebol precisa enfrentar várias situações. Precisa administrar 40 jogadores, meninos de 18 a 30 e tantos anos. São solteiros, com idade para ser seu filho, os casados, com problemas no casamento, em que você precisa ser pai, psicólogo, irmão mais velho, agente financeiro para ajudar o cara a investir dinheiro. Precisa ser tudo! Ainda dentro disso tem o outro lado, que é escolher o jogador para cada tática de jogo, quem está machucado, quem não tá. Tem jogador de treino e jogador de jogo. [Tem muito disso?] Pelo amor de Deus! O Muriqui, por exemplo, é jogador de jogo. Não é jogador de treino. Então ele vai de repente pra Europa, onde os caras já são meio assim com brasileiro e o cara não demonstra em treino a motivação que o treinador gostaria. Pronto. Já cortou o cara. Acabou. Você precisa saber quem é quem. Tem cara também que treina muito e na hora não joga. Tem cara de primeira divisão. Tem cara que é pra segunda. Depois você tem a imprensa. Você tem que saber lidar com a imprensa. Aqui quem não é Figueira é Avaí. Então quem não é a favor do Avaí é contra o Avaí. Você tem que lidar com diretoria, com vaidade de diretor, com diretor que não entende nada, mas que tem poder pra te mandar embora. Você tem que lidar com a torcida. São essas quatro frentes que você tem que trabalhar. O torcedor é um apaixonado que não entende nada de futebol. Uns entendem, mas a maioria não entende. Você tem que saber lidar com isso, porque o que ele entende, entende em parte, porque não convive o dia a dia. Ele não tem como dar um parecer completo, porque ele não está ali. Você tem que saber isso. [Não é um trabalho fácil?] Não, não é fácil. Tem que ter estômago de ferro, senão…

DIARINHO – Tem também uma questão que você sempre comenta, que é lidar com o jogador que tem condições de jogar, mas que em determinado momento fica na reserva por causa de esquema de jogo. É algo que nem todo mundo acaba entendendo?

Silas – Justamente. No jogo contra o Palmeiras, o Marcus Winícius jogou porque o Ferdinando estava suspenso. O Marcus Winícius acabou com o jogo. Não deixou o Cleiton Xavier pegar na bola. Eu falei que se a gente marcasse o Cleiton, sem o Diego Souza, teríamos grandes chances de vencer o Palmeiras no Parque Antártica. Tínhamos o Cleiton Xavier e o Edmilson, que arma todo o Palmeiras do meio de campo pra trás. O William ficou encarregado do Edmilson quando o Palmeiras estava com a bola. E o Marcão do Cleiton Xavier. O Marcão já tinha feito isso com o Paulo Isidoro lá em Fortaleza. Ele anulou o Paulo Isidoro. Fomos pro jogo contra o Botafogo. O Marcus Winícius ficou no banco, entrou no final. Aqui contra o Goiás, o Léo Gago estava com uma pancada na panturrilha. E ele é volante canhoto. Eu não podia deixar o Marcão, que é volante destro no banco. Eu tive que levar o Carlos Eduardo. A gente tava jogando em casa precisando ganhar. Eu não podia levar dois volantes pro banco. Eu precisava levar atacante e cortei o Marcus Winícius. O cara ficou: ?Pô, fiz um baita jogo contra o Palmeiras e agora não vou ficar nem no banco??. É, eu vou fazer o quê? Mas quando ele vê que você faz isso com ele, que faz isso com o outro, ele vê que não é com ele. Ele observa que estamos pensando no time. Quando a gente ganha o jogo, o cara vê que foi preciso. É muito complexo.

DIARINHO ? Existe muita diferença entre o Avaí que subiu da série B, pro campeão Catarinense e agora pro que disputa o Brasileirão?

Silas ? Quando eu cheguei aqui, o grupo tinha 35 jogadores. Hoje temos uns sete oito daquele grupo. Pouca gente. [Mas em relação ao espírito de equipe, mudou algo?] Não, isso não mudou nada. É papel do treinador também. Uma vez que você atinge um padrão, você tem que seguir ali. Hoje qual o padrão de goleiro? Eduardo Martini. Eu não posso ter no banco de reservas, não posso aceitar menos que o Martini. Tenho o Léo Gago. No banco não posso ter menos que o Carlos Eduardo. Na lateral tenho o Eltinho. Se ele for vendido, eu ponho o Uendel de olho fechado. Se o Marquinhos não jogar, eu ponho o Caio, tenho o Assis. O William não joga? Tenho o Léo, tenho o Cristian. Essa reposição é papel do treinador entender o momento do clube, o momento de quem pode ser negociado e já começar a buscar dentro do teto salarial do clube, começar a buscar as reposições. [Você tem total liberdade para estas reposições ou a diretoria é quem decide?] Eu sei o teto do clube. O Avaí hoje é um clube que precisa cavar fundo. Por exemplo, o Carlos Eduardo tava jogando o Gaúcho pelo Avenida. Foi pro Brasil de Pelotas, subiu para a A do Gaúcho. A gente tá aqui, mas tá conversando, vendo jogo, vendo dvd. Quando eu vi o Carlos Eduardo eu disse: ?Opa! Tá aí o substituto do Léo Gago?. Fui com a diretoria e vimos que o contrato era barato e trouxemos. E alguns jogadores a própria diretoria traz. A gente tem uma comissão pra analisar.

DIARINHO ? Como foi pra você os comentários no início deste Brasileirão, quando o Avaí era apontado como um dos ?favoritos? pra retornar à série B?

Silas ? É aquela negativa, aquela mídia negativa que: ?Pô, o cara. Não sei de onde ele tira esse pensamento?. Trinta anos sem jogar a série A, aí diz: ?Vai cair, pronto!? Aí passa pra um, pra outro, pra outro. Aí depois quando mostramos nosso trabalho, todo mundo é obrigado a dizer: ?Puxa vida, heim??. [O time frequentou a zona de rebaixamento nas primeiras rodadas, mesmo jogando bem. Depois deu uma grande arrancada de 11 jogos sem perder. Qual o segredo pra esta grande arrancada?] Eu mostrei para eles quando a gente começou a ganhar e entrou numa fase muito boa, o escalte (estatísticas dos jogos). A gente tem que mostrar como ganhou, onde ganhou. Marquinhos entrou cinco vezes na área, tem que entrar 10, entendeu? Léo Gago chutou três vezes pro gol? Tem que chutar seis. Rafa roubou oito bolas? Tem que roubar 16. Então você trabalha em cima desses números. Não tem como você não ver o resultado.

s---entrevistao-silas-foto-rubens-flores-22out09-(14)

DIARINHO – O presidente João Nilson Zunino já falou que quer que você fique por mais uma temporada. É o seu desejo continuar no Avaí?

Silas ? Se eu fosse presidente do Avaí eu também ia querer que o Silas ficasse aqui. A questão é dar tempo pras coisas e não sofrer antecipadamente. Eu não quero sofrer e também não quero fazer ninguém sofrer antecipadamente. Aí tá envolvido não só dinheiro, porque se fosse isso eu já teria ido embora. Tá envolvida a carreira, sentir paz pra ficar ou ir embora, vai depender muito disso aí. Tô feliz aqui. O lugar que eu moro é maravilhoso. Logicamente, se eu puder ir pra um lugar onde vou ficar perto da minha esposa, aí talvez fosse bom, porque ela também tá sofrendo. Não adianta também eu deixar as pessoas todas aqui felizes e minha mulher lá triste. Tem tudo isso que tem que pesar, dinheiro também, logicamente. Quanto mais grana eu ganhar agora, mais cedo eu posso parar. Não quero ficar nisso aqui a vida inteira, porque é um estresse que não tem tamanho. Eu brinco com o presidente falando pra ele dar o dinheiro pra mim, porque parece que ele quer ser o defunto mais rico do cemitério, pois não vai ter tempo de gastar todo dinheiro que tem. Se ele der pra mim, a gente divide um pouco esse peso (risos).

DIARINHO ? O Avaí te dá uma boa estrutura de trabalho?

Silas ? Muito boa. O Avaí tá crescendo e eu vejo que muita coisa do crescimento depende de mim também, da minha ajuda, pelo conhecimento que eu tenho de fora, de São Paulo, de ter visto muita coisa. Fico feliz, não só pelo time dentro de campo, mas por estar ajudando o clube. Você vê essa área de licenciamento do clube, com quase 1300 produtos licenciados. Quando nós chegamos aqui parece que tinham 80 ou nem isso. Isso é o patrimônio do clube que está aumentando. O Avaí nunca tinha saído no Jornal Nacional, no Fantástico, e você fazer parte disso é bem legal.

DIARINHO ? Você disse que, se fosse por dinheiro, poderia até já ter saído do Avaí. Quais foram os clubes que já te procuraram e te fizeram propostas?

Silas ? O Sport, Atlético/PR, Coritiba, Barueri, Portuguesa, Vitória, Flamengo, Botafogo, esses times falaram na possibilidade de conversarmos. O Internacional agora tão falando, mas ninguém do clube falou nada. O que eu fiquei sabendo é o que saiu na Zero Hora, num blog dum cara lá, aí me ligaram lá de Porto Alegre, mas do Inter ninguém falou comigo. Eu também falei que não quero dizer nada, porque tem um profissional trabalhando lá. É chato pra caramba eu trabalhando aqui no Avaí e um cara lá de São Paulo, por exemplo, dizer que pode vir pro Avaí.

DIARINHO ? Acha que hoje, com 43 pontos e na 10ª colocação, o Avaí já está garantido na primeira divisão pra 2010?

Silas ? Acho que sim, se o Náutico e o Santo André não pontuarem nessa rodada. Porque aí vão ficar faltando sete jogos, 21 pontos pra serem disputados e uma diferença de 14 pontos. Nós estamos a 14 pontos dos dois que têm 29, Náutico e Santo André [A entrevista rolou antes do time paulista vencer o Palmeiras e subir pra 32 pontos]. E estamos a 17 do Fluminense que tem 26 e a 15 do Sport. O Fluminense é muito difícil. Faltando 24 pontos pra disputar, tirar 17 é muito difícil. Temos que perder tudo e eles têm que ganhar tudo. E pro Fluminense ganhar tudo, um dos outros que eu falei também vai perder. O ideal era que eles perdessem todos, até quando jogassem um contra o outro, mas aí não tem jeito (risos). É uma situação difícil e eu já vivi essa pressão. Nenhum deles pode nem empatar. O Sport, por exemplo, não pode nem empatar com a gente aqui. O empate é um mau resultado. [Vai ser um jogo difícil pro Avaí?] Vai, mas se a gente tiver inteligência, de repente ele fica fácil. Se a gente sai na frente e consegue segurar o primeiro tempo na frente, no segundo tempo o Sport tem que vir pro tudo ou nada e abre lá atrás.

DIARINHO ? O torcedor do Leão já pode sonhar com algo mais, além de permanecer na elite, como uma classificação pra Sul-americana ou até mesmo pra Libertadores?

Silas ? A Sul-americana, você ficando na série A, tá quase ligando uma coisa à outra. Da Libertadores nós estamos a seis pontos. O São Paulo, por exemplo, tem o Santos agora, na Vila. O Inter tem o Grêmio, o Atlético/MG tem o Vitória, o Goiás tem o Fluminense, o Flamengo tem o Botafogo. A gente tá muito próximo. De repente a gente ganha do Sport, o Inter não ganha do Grêmio, o São Paulo não ganha do Santos, a gente fica a três pontos da Libertadores. É difícil, mas é possível. [E o grupo tá focado neste novo objetivo?] Não é que está focado. A gente ainda precisa dessa vitória de domingo pra ver onde estaremos no campeonato. É claro que, entre a gente, já corre a voz de que é possível. A fé é isso aí, vai passando de um pra outro. Quando todo mundo acreditar e ficar uma coisa só, aí as coisas melhoram ainda mais.

s---entrevistao-silas-foto-rubens-flores-22out09-(7)

DIARI NHO – A imagem do jogador de futebol normalmente está associada a baladas, mulheres, filhos fora do casamento. Como o jogador Silas conseguiu passar imune a isso?

Silas ? A família dar certo é metade do caminho andado para o sucesso na carreira. A minha missão como técnico não é só resultado dentro de campo. Eu preciso formar gente. Eu preciso entender que uma mulher ajuda muito, que um bom casamento é fundamental. Eu falo para os meninos de 26, 27 anos: ?O que vocês estão esperando??. O Léo Gago arrumou uma menina que está ajudando muito na carreira dele. O Ferdinando a mesma coisa. A esposa do Eduardo Martini é uma joia. Assim como a esposa do Odair ajuda muito ele. Esse lado é papel do treinador também mostrar para eles. [Mas como jogador, como você conseguiu passar por isso? A formação religiosa ajudou?] Isso tem a ver com a pessoa. Nunca fui namorador. Eu tinha 12 anos e namorei uma menina um ano e ela tinha 11. Eu fui pedir ao pai dela para namorar. Imagina? Eu fico imaginando hoje, meu filho tem 12 anos indo falar com um pai para namorar uma menina de 11, e ele deixar, né? O que é pior! Namorei uma outra lá mais uns cinco anos e conheci minha mulher. Acho que não tem muito o que entender não.

DIARINHO ? E a religião, como entrou na sua vida?

Silas ? Eu nasci numa família cristã. Cresci nesse contexto. E a vida cristã, além de ser uma vida de fé, é uma vida de conduta, de ética, de valores. Cresci aprendendo valores. Cresci aprendendo a respeitar os mais velhos, a ter palavra, coisa que tá muito fora de moda hoje. Quer ver uma coisa? Meu pai tinha um sítio e vendeu pra um cara de boca. Antigamente vendia de boca. O cara morreu, meu pai morreu. Somos em nove irmãos e o sítio valia muita grana. Agora, há pouco tempo, os filhos vieram pedir pra gente pra assinar os documentos pra eles passarem o sítio pro nome deles. Se fosse numa família meio assim, iam dizer que ninguém foi autorizou a vender. A gente pegou a papelada e assinou.

DIARINHO ? O que acha de alguns jogadores ditos como ?Atletas de Cristo? estarem envolvidos em polêmicas dentro e fora de campo?

Silas ? Acho que é uma questão de ter tido um encontro real com Deus. O cara acha que teve, mas não teve. Há um versículo na Bíblia que diz que ?não pode uma árvore boa dar um fruto ruim e nem uma árvore ruim dar um fruto bom. Pelo fruto você conhece a árvore?. Pelo procedimento, você vê que o cara não tá dizendo aquilo que ele sente. É simples. Tá cheio de nego picareta. O evangélico é um filão que dá muito dinheiro hoje. E é um mundo também onde as pessoas são muito enganadas. As pessoas não têm conhecimento de Deus, não têm intimidade com Deus, não têm conhecimento da palavra de Deus e são enganadas por qualquer coisa. O cara fala: ?Dá tudo aí que você tem no bolso para a igreja porque Deus está mandando?. E o cara dá. Mas Deus não tá falando nada disso. Aí vai embora a pé e acha que Deus vai mandar um disco voador, mas não é assim.

DIARINHO ? Essa tua orientação religiosa influencia de que forma os jogadores, principalmente os que não seguem a mesma religião?

Silas ? Eu que tenho que separar isso. Eu sou o que eu sou. Não tem jeito. Eles vão ver a diferença no trato que eu tenho com a minha mulher, no respeito que eu tenho com ela. Eu tô aqui há dois anos e quem falar que me viu em algum lugar está mentindo, porque não me viu. Eles vão observar meu respeito com os meus filhos. Já falei para eles que não quero ninguém gritando comigo, porque não vão me ver gritando com ninguém. Se tem alguma coisa que não gostou, me chama, expõe os motivos, que eu exponho os meus. Esse tipo de coisa também está ligado a dinheiro. Eu não sou empresário. Sou só técnico e acabou. É uma sujeira que não tem tamanho. Eu posso falar pro Johnny (Monteiro, conhecido como guru de Silas, que acompanhou o entrevistão) ir lá no Internacional, falar que eu quero o jogador tal, ver quem é o empresário dele. E eu falo pro Avaí comprar o jogador e negocia quem vai ficar com quanto e ninguém fica sabendo. Tá cheio de cara fazendo isso.

DIARINHO ? Essa é uma realidade no futebol brasileiro, mas acha que isso também acontece na seleção brasileira? Acha que pode ter, por exemplo, uma pressão para o Ronaldo ser convocado para a copa de 2010?

Silas ? Eu acho que não. Pressionar, o pessoal pressiona. Depende de quem tá dirigindo ceder ou não. Aí é um preço que você tem que pagar e às vezes o preço é sua permanência lá no lugar. A única coisa que eu falei pro presidente foi que nunca interferisse no time que eu fosse escalar, pra gente nunca ter problema.

DIARINHO ? Falando em seleção brasileira, qual a sua opinião sobre o técnico Dunga e o trabalho que ele está realizando?

Silas ? O trabalho do Dunga é maravilhoso. Fazia tempo que a seleção não se classificava com tanta antecedência. Agora, no Brasil, vice não serve e é muita gente em cima, falando o tempo todo. Mas os números do Dunga são muito bons e contra esses números não tem o que dizer. E ele é um cara sério também. É um cara muito comprometido com o trabalho, com a verdade, e também tá enfrentando essa situação que é nova pra ele. Os caras bateram muito nele.

DIARINHO ? E você acha que hoje tem espaço pra algum jogador do Avaí vestir a camisa da seleção?

Silas ? Eu acho que o Marquinhos tem, tranquilamente. Até mesmo porque até o Parreira (Carlos Alberto, técnico de futebol) diz que ele é o melhor jogador da posição. [E o melhor jogador do país hoje pra você, quem é?] Boa pergunta. Eu acho que hoje no Brasil o melhor jogador em atividade é o Miranda (zagueiro do São Paulo). [E o melhor brasileiro no exterior?] Pra mim é o Kaká. [Você tem algum ídolo no futebol?] Meu ídolo é o Zico.

DIARINHO – Entre os treinadores, tem algum nome especial, em quem se espelha?

Silas ? Hoje o treinador que eu mais gosto é o Muricy (Ramalho, técnico do Palmeiras). O Muricy é verdadeiro, não tem coisinha com ele. Entende e não perdeu a simplicidade por ser o melhor do Brasil. [Acha que o Palmeiras chega ao título este ano?]. Sim. [Por causa do Muricy?] Também. Acho que o time conseguiu uma vantagem boa hoje. Os outros times tiveram chances pra quebrar essa vantagem, mas não conseguiram. Time grande como o Palmeiras não perde três jogos seguidos. [E como foi sua convivência com o saudoso Telê Santana?] O Telê era um paizão. Era um cara muito sério, bem na dele, muito educado. Depois eu trabalhei com o filho dele, com o Renê Santana.

DIARINHO – E você sonha em um dia treinar a seleção brasileira?

Silas ? Hoje não. Acho que a gente tem que ir dando saltos, pra um dia poder estar entre aqueles que possam dirigir a seleção. Como a gente diz na gíria quando é criança, precisa comer muito feijão ainda. [Teria vontade de voltar a viver um clima de copa do mundo, por exemplo?] Não é um mundo estranho pra mim, muito pelo contrário. Assim como não vai ser pro Dunga.

DIARINHO ? Como jogador, você começou sua carreira em 1985, no São Paulo, passou por grandes equipes do país, além de times da Itália, Portugal, Japão, Uruguai e Argentina. Em clubes qual foi o seu melhor momento?

Silas ? O São Paulo foi o começo. Depois na Sampdoria a gente foi campeão da Recopa, lá na Itália. Com o San Lorenzo a gente foi campeão argentino, depois de 22 anos. Cada lugar teve a sua importância. Mas a Argentina, pelo fato dos brasileiros não se darem bem lá, teve um gostinho especial. E eu fiquei quatro anos lá, muito tempo. [Você foi bem recebido na Argentina?] Fui sim. O argentino gosta de brasileiro. O pessoal pensa que não, mas o argentino gosta muito do brasileiro.

DIARINHO ? No São Paulo você fez parte dos ?Menudos do Morumbi?. Como começou com essa história e quais jogadores integravam este ?grupo? no Tricolor?

Silas ? Era o Renatinho, o Vizoli, o Sidney, eu e o Muller. Os Menudos estavam no Brasil, o Ricky Martin e aquela turminha toda lá, e eles ficavam no Morumbi. Eles ensaiavam e a gente ficava lá assistindo. E aí botaram o apelido de Menudos do Morumbi. Muita gente também teve a explosão no futebol na mesma época deles na música.

DIARINHO ? Também em 1985, o Brasil foi campeão mundial sub-20, na antiga União Soviética, e vocês levaram um susto na viagem de volta. Como foi isso?

Silas ? O avião quase caiu na volta. Eu com a bola de ouro na mão e o trem de pouso não desceu em Amsterdã. Foi uma loucura, mas não aconteceu nada. Deram um jeito lá e desceu. [Naquela oportunidade, você foi eleito o melhor jogador do mundial. Foi o momento em que se abriram de vez as portas pra sua carreira profissional?] Foi sim, porque eu já estava no São Paulo e ali foi o primeiro ano que eles transmitiram a final do mundial sub-20, porque eles não transmitiam os jogos de campeonatos juniores, principalmente este que foi na Rússia. Aí depois eu voltei pro São Paulo e a gente foi campeão brasileiro, bicampeão paulista, já tinha sido campeão sul-americano de juniores. Em menos de dois anos, cinco títulos, três profissionais e dois juniores, é muita coisa. Tem gente que passa a vida inteira jogando futebol e não ganha um título. E jogadores bons…

DIARINHO – Sabemos de sua preocupação com os jogadores da base do Avaí. Qual a diferença da tua época e do que é vivido hoje pelos jovens atletas?

Silas ? Antigamente subia um só ou dois por ano. Quando nós subimos pro profissional, subiu o Muller e eu. Agora vem de baciada, como a gente costuma dizer. Vem um monte. E os meninos já vêm caros, valendo muito dinheiro, com empresário. O Medina (lateral-direito do Avaí), com esse negócio do Falcão (seu empresário e melhor jogador de futsal do mundo), foi uma encheção de saco pra mim. Quando eu coloquei o Medina lá em Ibirama, um artista aqui da imprensa falou que eu coloquei pra agradar o Falcão. Aí depois eu não colocava o moleque e falavam que eu não colocava porque o Falcão tava de briga com a diretoria. E você tem que escutar essas coisas. Eu tava vendo o jogo do Cruzeiro e o cara falou que não sabe o que aconteceu, pois depois que o Falcão teve um problema com o Avaí o Medina não foi mais convocado. Você não pode ligar pra isso, porque às vezes é o que o cara que falou quer. Fala uma besteira pra ele ficar conhecido. [A maioria dos empresários atrapalha o futebol?] Não, tem muita gente boa. Acho que em tudo tem muita gente boa e muita gente que não presta. Futebol é um meio de muito dinheiro e pouca gente capacitada. Muita gente sem estudo, muita gente sem escrúpulo.

DIARINHO – Você participou de duas copas do mundo, em 1986 e 1990, sob o comando de Telê Santana e Sebastião Lazaroni, respectivamente. Por que os dois grupos não tiveram sucesso, o que deu errado?

Silas ? É muito difícil. Copa do mundo, mesmo sendo Brasil, é muito mais complicado do que parece. Muita gente boa, muita seleção boa, e no Brasil a cobrança é muito grande. [Mas a gente tinha times pra levantar a taça?] Tinha sim. Toda seleção brasileira tem chance de ser campeã. Se vai ser ou não, depende de um monte de coisas. Por exemplo, isso que aconteceu com a Argentina (quase ficar fora da copa de 2010) é perigoso pra gente, porque agora o grupo vai se fechar. [Você torceu pra eles ficarem de fora da copa?] Não. Eu tenho muitos amigos lá e não queria não.

DIARINHO – Em 90, o Brasil foi desbancado nas oitavas-de-final pela Argentina, por 1 a 0, gol de Caniggia, com você em campo. Como foi perder um jogo que dominamos do início ao fim?

s---entrevistao-silas-foto-rubens-flores-22out09-(5)

Silas ? Eu tirava muito sarro do Ruggeri (Oscar, zagueiro capitão da seleção argentina) porque depois eu fui pra Argentina e nós eliminamos eles na copa América. E ele tirava sarro de mim e falava que eles eliminaram a gente na copa do mundo. Mas perder um jogo desses é como perder uma pessoa da família. Não pra Argentina, perder pra qualquer um. Contra a França, em 86, foi assim também. [E a polêmica da ?água batizada? que o massagista da Argentina teria dado ao lateral Branco naquele jogo, realmente existiu?] Sim, o cara deu a água. Ele foi nosso massagista lá (no San Lorenzo). Eu falava que a polícia ia atrás dele e ele dizia que não tinha nada a ver com a história. A gente ia pescar e levava ele pra fazer o churrasco pra gente. [E acha que este fato influenciou no resultado do jogo?] Não. O Branco ficou uns 10 minutos voando e depois voltou. Foi só o Branco que tomou. Mas é um negócio que eles vão morrer jurando que não fizeram. Qualquer coisa que pudesse ter sido comprovada com relação a isso aí, até nos dias de hoje, poderia trazer problemas pra eles. [Viu que o próprio Maradona chegou a falar desse episódio e ironizar os brasileiros num programa de televisão que ele tinha?] Mas quando ele viu que o negócio tomou uma dimensão de CBF (Confederação Brasileira de Futebol), ele disse que estava brincando. O Bilardo (Carlos, técnico da Argentina em 90) também não deu entrevista sobre isso. No começo tava todo mundo gozando do Brasil, tirando a gente meio como trouxa. Mas depois que viram que o negócio poderia esquentar, eles meio que deram uma recuada.

DIARINHO ? Qual seleção brasileira foi melhor: a de 86 ou a de 90?

Silas ? A de 86 tinha mais craques. A de 90 teve muito problema. [Houve mesmo discussão por causa de dinheiro de patrocinador, com jogador escondendo a marca da empresa de material esportivo, colocando a mão em cima dela na hora do hino nacional?] Isso tudo é conversa, do mesmo jeito que eles falam que o Brasil vendeu a copa de 98. Faltava um pouco de organização. A CBF não tinha a grana que tem hoje, os jogos fora eram caça-níqueis. A gente ganhava muito pouco pra ser campeão do mundo.

DIARINHO – Qual a melhor herança que o futebol te deixou?

Silas ? Acho que foi ter conhecido o mundo todo, viver as coisas e aprender. Acho que isso não tem valor. [Tem algum arrependimento ou algo que não conseguiu realizar?] Não, nada. Talvez, quando eu fui pra Itália e depois aprendi quando fui pra Argentina, eu poderia ter sido um pouco mais cara fechada, não tão dado. Eu era muito amigo de todo mundo. A função de técnico te traz isso. Quando eu era auxiliar, eu sentava na mesa com os jogadores, contava piada e dava risada, mas técnico não dá. Tem momentos que sim, mas você não pode ser muito amigo do jogador. Tem que manter uma distância e ficar o tempo todo falando pra eles que a amizade que a gente tem é uma coisa e o trabalho é outra, pra saber diferenciar. [Na Itália você conviveu com muito jogador traíra, como dizem na gíria do futebol?] Não, no fundo eles não aceitam o estrangeiro com o coração aberto. O Maradona deu certo na Itália porque ele era meio filho da mãe. Ele não queria nem saber e pisava nos caras. E depois você vai aprendendo como conviver com o italiano. Agora, o futebol italiano sem os estrangeiros não existe.

Tem jogador  de treino e jogador de jogo

Você tem que lidar com diretoria, com vaidade de diretor, com diretor que não entende nada, mas que tem poder pra te mandar embora

  •  

Deixe uma Resposta