• Postado por Tiago

A patuscada vivida em Honduras encaminha-se para um final feliz, restabelecendo-se a democracia e devolvendo-se o mandato ao cassado que poderá usar o trono, mas não a caneta, até o término de seu prazo.

O entrevero serviu para demonstrar que os bolivarianos e seus admiradores não preenchem qualquer requisito que os credencie a ingressar no clube dos Estados que influem nos destinos políticos dos habitantes deste planeta.

Nos quatro meses que se seguiram ao afastamento do presidente Zelaia, como consequência de um golpe de estado “preventivo”, aplicado para evitar que o país se tornasse mais um satélite do bolivarianismo do caudilho Hugo Chávez, diversos negociadores e até mesmo organizações multilaterais, entre elas a OEA, não conseguiram qualquer solução para o caso.

Transcorrido tal prazo e não havendo nenhum progresso, os Estados Unidos da América decidiram entrar na negociação, enviando a Honduras uma missão chefiada pelo secretário-assistente de Estado para Assuntos Hemisféricos, Thomas Shannon, que é o embaixador designado para o Brasil e, em pouco mais de 48 horas de negociações, conseguiu o que as organizações multilaterais, inclusive a OEA, não obtiveram em quatro meses.

O acordo mediado por Shannon e assinado pelos representantes do presidente de fato Roberto Micheletti e do presidente deposto Manuel Zelaya estabelece as bases para o retorno à democracia naquele país e de tal forma que nenhum dos lados poderá dizer que saiu vitorioso.

O governo de fato aceitou que a volta de Zelaya à presidência seja decidida pelo Congresso – onde as probabilidades favorecem o presidente deposto – e não somente pela Suprema Corte – que provavelmente mandaria Zelaya para a cadeia. Contando a seu favor o fato de ter liderado um movimento que impediu que Zelaya violasse dispositivos pétreos da Constituição numa tentativa de permanecer no poder. Observe-se que os chamados “golpistas” agiram dentro da lei, até que os militares encarregados de cumprir o mandado de prisão emitido pela Suprema Corte contra Zelaya exorbitaram e o expulsaram do país.

Zelaya, que foi obrigado a se comprometer a não tentar, de novo, mudar as cláusulas pétreas da Constituição que proíbem a reeleição, deverá ser reinvestido no cargo, mas apenas para concluir o seu mandato. Manterá suas funções cerimoniais, mas o poder de fato será exercido por um gabinete de união e conciliação nacional.

O desfecho de tal episódio pôs em destaque a política externa do presidente Barack Obama. No início, por inspiração de Hugo Chaves, não faltou quem garantisse que os Estados Unidos apoiariam o governo de fato. Mas o que a Casa Branca fez foi juntar-se a todos os países do hemisfério na condenação da quebra da norma democrática. Depois, deu tempo e espaço para que a OEA e os países da região tentassem mediar o conflito. Só quando falharam todas as tentativas de mediação da OEA e se chegou a um impasse, o governo americano interveio. Com isso, Washington demonstrou que apoia a ação das instituições multilaterais.

Em linguagem diplomática, o embaixador Thomas Shannon explicou que o argumento decisivo para a obtenção do acordo foi “o reconhecimento que Honduras tem de ir para as eleições com o apoio da comunidade internacional e que a falta desse apoio jogaria o país ainda mais fundo na crise política”. Na verdade, a diplomacia americana jogou, com habilidade, porém com energia, com os dois lados em disputa. E obteve um bom acordo.

A diplomacia brasileira fez o contrário disso. Desde o início da crise, por inspiração do caudilho Hugo Chávez, o governo brasileiro assumiu posições intransigentes contra o governo de fato e a favor do presidente deposto. Ao permitir que Manuel Zelaya ocupasse a embaixada em Tegucigalpa e dela fizesse o centro da agitação política contra o governo Micheletti, o governo brasileiro passou a interferir nos assuntos internos de Honduras, violando um dos princípios básicos da nossa política externa, que é a não-intervenção. Essa inabilidade inviabilizou a possibilidade de qualquer tentativa brasileira de liderar um processo de negociação.

Tal maneira de agir evidenciou o despreparo “cumpanheiro” para alçar voos mais altos, como é dos seus sonhos. A intervenção americana mostrou que há uma hora em que se deve separar os homens dos meninos e tomar-se a coisa a sério.

  •  

Deixe uma Resposta