• Postado por Tiago

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Delegado da polícia federal

Enquanto aguarda a investigação interna na polícia federal para saber se vai continuar sua atuação, Protógenes Queiroz vê seu nome pipocar na imprensa nacional e internacional como o delegado que teve coragem de mexer num vespeiro de sacanagem política e econômica sem precedentes no país. Protógenes Queiroz circula pelo Brasil com a palestra ?O Estado brasileiro e a relação público x privado?, enquanto esquiva-se de ações penais que tentam colocar em dúvida sua postura profissional. Durante a palestra, que dura pelo menos duas horas, o delegado conta como rolaram as investigações que culminaram nas prisões de Paulo Maluf, do chinês contrabandista Law Kin Chong, de Naji Nahas, de Celso Pitta e, principalmente, do banqueiro Daniel Dantas.

A operação Satiagraha, se não foi a maior investigação de corrupção que já realizou, foi certamente a que mais desconfortou os bagrões da safadeza nacional. Após a palestra no centro de Ciências da Saúde da UFSC, na capital, na última semana de maio, o delegado conversou com os jornalistas Carla Cavalheiro e Rubens Flôres sobre a sua convicção de continuar lutando por um país livre de escândalos cabeludos e recheados de sacanagem.

DIARINHO: Por que o senhor abandonou a bem sucedida carreira na advocacia pela de delegado da polícia federal?

Protógenes Queiroz: Eu poderia trilhar minha carreira como procurador geral de município dando pareceres em processos que concordariam com a corrupção. Mas eu preferi renunciar. Realmente, na advocacia você ganha dinheiro. Servidor público não fica rico. Se você encontrar servidor público rico corre atrás porque tem alguma coisa errada. Ganhei dinheiro com a advocacia, mas não atingi meus objetivos. Advogava para multinacionais e quando trabalhava para as duas maiores empresas de transportes de trilhos do mundo, tive o incentivo para fazer o concurso para a PF. Preparei estas empresas para participarem da concorrência pública do metrô no Rio de Janeiro. A empresa gastou mais ou menos três milhões de dólares no início de 1992. Éramos parceiros da construtora Queiroz Galvão e fomos surpreendidos por um ato de corrupção desta empresa. Aí ouvi dos franceses: ?Estamos indo embora do seu país. Aqui só tem ladrão. O senhor tem o dever, como advogado, de ingressar com uma ação para recuperar tudo o que investimos. Vocês não estão preparados para receber empresas deste porte?. Eu fiquei com aquilo entalado e entrei com uma ação indenizatória. Mas aquilo ficou me incomodando. No ano seguinte, eu comprei um carro zero e o carro enguiçou perto do Banco do Brasil. Ali vi um cartaz chamando para o concurso da PF. Pensei: ?Delegado prende gente, dá tiro. Acho que esse é caminho? (risos). Fiz o concurso, não estudei nada, dei sorte, passei.

DIARINHO: O senhor está temporariamente afastado de suas funções. Qual a sua situação hoje na polícia federal?

Protógenes: Hoje eu sou um delegado da polícia federal, mas afastado das minhas funções por decisão unilateral da administração da polícia federal. Decisão essa que, curiosamente, ocorreu um dia depois do meu depoimento na comissão parlamentar de inquérito (CPI). Um dia depois cheguei à sede da polícia Federal e havia uma decisão publicada e um aviso sobre a minha mesa de que eu estava afastado temporariamente para responder a um processo disciplinar. Esse processo está tramitando. Ainda não tive acesso às peças. É um processo para apurar, explorar a vinculação política do meu nome com um candidato do PT e existe também outro procedimento que foi instaurado por conta de declarações que a administração entende que indicariam uma ligação partidária minha com o PSol. São notícias que até 2010 vão render muita coisa. Vão criando esses processos para tentar obstar o trabalho que eu venho fazendo em nível nacional, que é um movimento para despertar a consciência ética, moral, resgatar a importância dos símbolos nacionais e também chamar a atenção da população para o que ocorre no país hoje em termos de corrupção na administração pública.

DIARINHO: O senhor se sente abandonado pelos colegas da polícia federal?

Protógenes: Não me sinto abandonado, não. A cúpula da polícia federal é que fez uma perseguição implacável, jamais vista na história policial brasileira. Colegas delegados, agentes, estão indignados com o que está acontecendo, com a forma com que a policia federal está se manifestando.

DIARINHO: O senhor teme perder seu cargo?

Protógenes: Se eu perder meu cargo, será um retrocesso muito grande para o país. Se fosse um criminoso, eu não seria recebido nos locais como sou recebido. Não seria respeitado. Estou de aviso prévio se for comparado com os outros trabalhadores comuns. Eu ainda acredito na isenção destes delegados que estão à frente deste processo administrativo e se porventura houver uma penalidade máxima de demissão, eu vou ao judiciário tentar reaver o meu cargo. Eu pretendo ainda levar minha atividade à frente dentro da polícia federal no combate à corrupção. Eu não nasci policial federal. Eu não temo nada. Tenho medo é da desonra. Posso perder o cargo na polícia federal, mas a minha dignidade, a honra, ninguém leva. Essa nasceu comigo, se consolidou e vou até o final com ela.

DIARINHO: Além do processo de vazamento de informações sigilosas, o senhor é réu por supostamente ter editado filmagem e anexado à operação Satiagraha para ocultar a participação de jornalistas…

Protógenes: Eu não posso entrar no mérito dessas informações até porque eu não tive acesso às peças dos autos. Eu fui indiciado pelo delegado Amaro Vieira, da polícia federal, que tem comprometimento com outros valores que não o comprometimento com a verdade. Eu fui intimado menos de 24 horas após a operação. Isso nunca ocorreu em nenhum feito da polícia federal. Coincidentemente, eu fui indicado naquela data e naquela semana se deu a apreciação de um habeas corpus junto ao Tribunal Regional Federal em que o mérito desse habeas corpus, indicava o uso de oficiais de inteligência da Abin (Associação Brasileira de Inteligência) numa operação da polícia federal. Então, o primeiro ato de sustentação que o advogado do banqueiro condenado Daniel Dantas teve junto ao TRF foi pegar o meu indiciamento daquela semana e apresentar ao TRF sob a alegação de que a polícia já havia entendido que aquele era um ato ilegal. Sabiamente, o TRF deu a resposta que a lei 9.833 justifica a existência de uma lei que estabelece o Sistema Brasileiro de Inteligência e a participação de oficiais de inteligência em trabalhos da polícia federal e em outros órgãos como o Banco Central, a Receita Federal… Então a troca de informações é legal e permissível. Foi uma decisão da justiça brasileira naquele momento, que deu uma resposta certa ao caso.

DIARINHO: O senhor entende que estes fatos diminuem a importância das investigações ou colocam em risco a credibilidade das investigações?

Protógenes: De maneira nenhuma. Isso confunde. É mais um ato tentando desqualificar e desconstituir o trabalho que foi feito. Nada mais é do que cumprir o que o Ministério Público Federal entendeu. Curiosamente, é uma tese de defesa desde o início da investigação quando o banqueiro condenado Daniel Dantas foi preso. A primeira petição, no habeas corpus da defesa ,é justamente tentar desqualificar, dizer que houve vazamento, que houve ação da polícia, que existem irregularidades…É uma situação que causa uma dúvida, um espanto muito grande e uma repulsa muito grande não só de minha parte como de toda a população.

DIARINHO: O senhor acredita que se a imprensa não tivesse tido acesso à operação Satiagraha mais pessoas seriam descobertas neste escândalo? Durante a operação Satiagraha, o senhor deu privilégio a alguma emissora de tevê ou revista?

Protógenes: Não. Eu entendo que o papel da imprensa é importante no processo de desenvolvimento democrático, justamente quando se descobre um grande escândalo. É o vetor para o povo brasileiro saber o que acontece. A investigação policial não tem esse acompanhamento. Ele só acontece depois que é deflagrada a operação. Daí é impossível a polícia ou outro órgão público segurar as informações até porque o povo tem que saber o que ocorre no país. Eu conduzi a Satiagraha no maior sigilo, senão não teria o sucesso que houve. Senão não teria condenação, bloqueio de valores, multa. Não teria a segunda fase com o indiciamento de todos…

DIARINHO: O senhor é acusado de fazer uso de escutas clandestinas, pra colocar na cadeia Daniel Dantas, Nagi Nahas e Celso Pitta. O senhor usou dessas artimanhas?

Protógenes: Clandestinas não. Todas foram feitas com os procedimentos legais.

DIARINHO: É difícil fazer uma investigação sem escuta telefônica hoje no Brasil?

Protógenes: Não. Porém tem determinadas investigações complexas que têm que ter o instrumento da vigilância eletrônica.

DIARINHO: A impressão que se tem é que quando a polícia Federal desvenda um escândalo tão grande, envolvendo peixes grandes, o STF se apega a pequenos detalhes para fugir do foco principal da investigação. Realmente é isso que acontece?

Protógenes: Há uma inversão de valores de pessoas comprometidas com o banqueiro condenado Daniel Dantas e comprometidas com valores que não os meus. Isso se revelou depois da Satiagraha. Pessoas estão se revelando e se comprometendo com o que há de mais nefasto nesse país: a corrupção.

DIARINHO: O senhor acredita que há um Brasil antes e depois da Satiagraha?

Protógenes: Sim. Pessoas e instituições, não só privadas como públicas, tiveram comportamentos diferenciados e optaram por proteger um bandido, optaram por proteger criminosos. Pior. Optaram por tentar desqualificar aqueles que tentaram cumprir com seu dever. Isso foi em todas as escalas. Até o presidente da República falou em mim. Historicamente, na polícia federal, nunca teve isso. Se vocês buscarem no histórico da PF, em 60 anos, nunca houve investigação contra um delegado após uma grande investigação. Outra coisa mais grave: instauraram uma investigação contra um delegado que tem um histórico pesado dentro da polícia federal. São 10 anos de serviços prestados em grandes operações como a prisão de Hildebrando Pascoal e mais 40. Na operação do Banestado, consegui recuperar um 1,4 bilhão de dólares do Conesul que tavam indo pro ralo, não aceitei a oferta de cinco milhões de dólares. Como não conseguiram me comprar, tentaram me executar. Eu estava no terceiro casamento. A mulher grávida. Tive que mandar a família embora de Foz do Iguaçu e fiquei para defender o meu país. Era um projeto de vida. Optei por ficar e estou vivo aqui para contar a história. Prendi até quem me ameaçou. Só sai de Foz do Iguaçu quando prendi o último. Após dois anos fui para São Paulo para investigar Paulo Maluf e o contrabandista Law Kin Chong. É este delegado que tentam desqualificar. Algumas pessoas ficaram contra, outras a favor da corrupção. A maioria dos brasileiros ficou contra. E esse é um processo. Vamos ter que ter uma reação cidadã para dar sequência a isso. É votando, sendo votado, cobrando transparência das administrações públicas, exigindo o cumprimento das leis, da Constituição. Hoje nós investigamos e prendemos. Agora se elas não ficam na cadeia, essa é outra história.

DIARINHO: Qual a situação da operação Satiagraha hoje?

Protógenes: A operação teve sua primeira fase concluída, com uma resposta para a sociedade que foi a condenação por mais de 10 anos do banqueiro Daniel Dantas e pessoas a ele vinculadas. Bem como multa de mais de R$ 12 milhões, jamais vista no país. O processo segue numa segunda fase confirmando tudo o que foi feito na primeira. Ele foi indiciado novamente por gestão fraudulenta, evasão de divisas, formação de quadrilha. Aí já pegou um leque maior de pessoas e um bloqueio de quase três bilhões de dólares. Fizemos a nossa parte com muito êxito, zelo e cuidado. Agora, evidentemente tentam a todo tempo desqualificar o trabalho que foi realizado. Os investigadores passam a ser investigados. Isso é um absurdo! O doutor Fausto de Santi (juiz), o doutor Rodrigo de Grandis (promotor) sofrem as mesmas consequências. Volta e meia tentam desqualificar o trabalho da justiça e do Ministério Público. E aí a gente volta a falar em antes e depois da Satiagraha, em que pessoas e instituições se comportaram de maneira duvidosa e até mesmo afrontando alguns mandamentos constitucionais.

DIARINHO: Quais foram as perdas do banqueiro Daniel Dantas após a operação Satiagraha?

Protógenes: Houve perda material no sentido de ter bloqueado os valores da ordem de quase três bilhões de dólares, e isso é muito significativo porque é uma posição judicial que mobiliza todo o poder de corrupção. São recursos que foram desviados para fora do país. A outra perda, que classifico como maior, que considero um salto para o país, é a manifestação popular, de como a população recepcionou estes dados que foram revelados. A população acompanha diariamente cada passo do desenvolvimento desse caso. Descobriu-se um grande esquema de corrupção no Brasil. Como é que um banqueiro consegue mais de 1400 autorizações de explorações de subsolo brasileiro e já negociava em mercado estrangeiro de uma forma oculta, ilícita e suspeita?

DIARINHO: Quando o senhor foi depor na CPI, levou um habeas corpus preventivo. Por que o senhor disse que falaria tudo e buscou o habeas corpus?

Protógenes: Foi uma ordem buscada na Suprema Corte porque havia uma predisposição de que o delegado Protógenes seria preso naquela CPI. Vários setores já haviam me avisado. Então eu busquei esta providência. Mas não com o intuito de não falar, até porque eu falei. Só não falei de dados sigilosos porque todos os deputados da CPI já portavam os documentos sigilosos. Eu fui pra CPI preparado e ninguém teve coragem de me confrontar porque sabiam que eu poderia entregar todo mundo.

entrevistao-protogenes-queiroz-foto-rubens-flores-jun09-(2)DIARINHO: A que o senhor atribui a inversão de valores dos políticos, que deveriam estar empenhados em buscar mecanismos para proteger a sociedade da corrupção, mas muitas vezes tomam o caminho inverso?

Protógenes: Em São Paulo, eu prendi o ex-presidente da Câmara, o ex-governador e o ex-prefeito. Isso não é só a degeneração ética do governante ou do agente público. Há também a deterioração da cidade. Quando vocês sentirem que a cidade que vocês habitam não está tranquila, que não transmite o bem estar, está havendo algo de errado. Há um desequilíbrio entre o público e o privado. E aí, cabe a cada um de nós salvar as nossas cidades. Não dá para esperar. Se esperar será tarde demais. Hoje vemos sintomas em grandes cidades que já é impossível você controlar, como no caso do Rio de Janeiro e São Paulo. Cidades tomadas pelo crime. Em São Paulo, as autoridades admitem chamar um quadrilátero de ruas de cracolândia. Antigamente, na região, o entorpecente ali era consumido na calada da noite. Hoje, é a luz do dia. Há 10 anos, eram poucas pessoas. Hoje você tem mil a duas mil pessoas ali, incluindo crianças e adolescentes. Como eu, administrador de uma cidade dessas, vou permitir o uso de entorpecentes em via pública? Então não sou administrador. Se não sabe administrar, entrega.

DIARINHO: Qual a possibilidade de se colocar em dúvida a conduta profissional não só sua, mas de qualquer outro servidor público por uma suposta relação com partidos políticos?

Protógenes: Muitas pessoas já me falaram: ?Você não vai poder espirrar porque vão instaurar um processo!?. Eu não tenho nenhuma vinculação partidária a nenhum partido político, apesar de a lei não proibir isso. Não apoiei nenhum partido, apenas me manifestei em duas ocasiões, em que teve um candidato do PT a prefeito em Poços de Caldas, em Minas Gerais. Eu fui abordado no saguão do hotel para falar sobre a importância da segurança pública naquela região. Como cidadão, eu tive que falar que tinha que se implementar um programa de segurança pública. Fui a Porto Alegre e durante uma palestra na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) apareceu a deputada federal Luciana Genro (PSol). Em Florianópolis, na palestra na UFSC, teve a presença do deputado estadual Amauri Soares (PDT). Ele perguntou e eu respondi. Todos viram. Eu sou servidor público e tenho que prestar contas. Tentam descaracterizar, confundir a opinião pública.

DIARINHO: O senhor tem pretensões políticas? Será candidato?

Protógenes: Não. Eu pretendo, neste momento, resistir ainda que judicialmente e reaver o meu cargo de delegado federal e reaver a minha atividade. Este viés político surge através de um clamor público de uma exigência, até mesmo popular, salutar no processo que o Brasil vive hoje, mas de antemão, por ora, eu pretendo ficar na posição de delegado da polícia federal.

DIARINHO: Mas o senhor mantém contatos com partidos políticos?

Protógenes: Contato sim, até porque é uma coisa involuntária. A gente nunca sabe com quem vai encontrar e quem será o próximo a nos convidar para uma palestra. Mas não sou filiado a nenhum partido, como alguém do PDT aqui de Santa Catarina andou dizendo. O que ocorre é que hoje, o delegado Protógenes é vigiado e se aproximar de alguém sempre vai gerar algum tipo de informação.

DIARINHO: O seu nome consta como beneficiário de passagem aérea do gabinete da deputada federal gaúcha Luciana Genro (PSol). Como o senhor explica o fato?

Protógenes: Eu fui convidado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e não tomei conhecimento de quem pagou a passagem. Quando soube, achei natural. Foi dinheiro público usado a favor de um funcionário público no cumprimento de seu dever: levar informação para uma universidade federal. Não levei nenhuma namorada ou parente a nenhum lugar.

DIARINHO: Dizem que o senhor certa vez falou durante uma palestra que o povo deveria invadir terras. Falou isso mesmo?

Protógenes: Não é bem assim. No entanto, é inadmissível que um indivíduo tenha mais de 1400 concessões de exploração do solo brasileiro, como eu identifiquei durante as investigações, e negocie com empresas estrangeiras. Ou seja, o produto desta riqueza não é revertido em educação, em saúde. As riquezas estão sendo negociadas num clube de amigos. Eu sou contra a ocupação de terras, mas penso que é dever do povo brasileiro ocupar as terras do senhor Daniel Dantas porque ele está subtraindo as riquezas do nosso país. Não se trata de ocupação de terras improdutivas, se trata de impedirmos que riquezas saiam do nosso país, riquezas que seriam usadas no desenvolvimento de povos mais desenvolvidos e mais ricos.

DIARINHO: Em seu discurso, o senhor sempre se refere aos símbolos nacionais. O que o senhor tenta passar nesta mensagem?

Protógenes: Os símbolos nacionais fazem parte da construção de caráter. Isso eu só vim a aprender na fase adulta, quando eu conheci outros países, quando vi bandeiras fincadas em quintais. O sentimento das pessoas venerando, demonstrando que têm orgulho de seu pais. Essa falta de patriotismo, esse distanciamento da importância dos símbolos nacionais criou um vácuo muito grande, uma permissividade de todo mundo achar natural e normal desviar riqueza do país. Outros até pensam que faz parte do capitalismo internacional, faz parte do processo de globalização. A bandeira, a Constituição da República, que é a lei maior, estão esquecidas. A Constituição até está sendo violada por quem tem o dever de zelar por ela.

DIARINHO: O que deve ser feito com os políticos corruptos?

Protógenes: Ministrei uma palestra na cidade de Rubiatara, no interior de Goiás. No auditório havia mais de mil pessoas. Lá me disseram que já estão tomando providências contra esse tipo de gente. Na legislatura passada, de 11 vereadores eles cassaram nove. Já elegeram os novos vereadores e avisaram: ?Se não derem conta do recado, vamos colocar para fora?. Nesse trabalho, cassaram ainda um prefeito da cidade vizinha. Essa é a punição maior: não eleger político corrupto. Os homens de bem têm que vir e assumir a administração pública, porque nós queremos e exigimos.

DIARINHO: O senhor acredita que sua luta é a luta de um homem só?

Protógenes: Não. Foi a luta de uma equipe de policiais até o dia 8 de julho do ano passado. Quando se revelou todo esse processo, que o Brasil tomou conhecimento do produto do trabalho do delegado Protógenes, todo mundo firmou o compromisso. Eu tenho tido manifestações que são significativas. Eu ando na rua tranquilo. Ninguém me joga tomate e ovo. As pessoas me cumprimentam e me apoiam. É uma luta dos brasileiros.

DIARINHO: O senhor fala que estão tentando desqualificar seu trabalho. A impressão que se tem é que ?É tudo culpa do Protógenes?. De onde o senhor tira forças para não desistir?

Protógenes: Em debates eu recebo várias manifestações. Tem o caso de uma criança de sete anos em Londrina, a Júlia. A menina desenhou uma bandeira do Brasil e escreveu: ?Delegado Protógenes Queiroz, por favor não desista?. Eu recebi isso na semana em que fui afastado. Então eu firmei um compromisso com ela. A menina é a representante do sentimento de uma geração que está chegando. Ali eu tive certeza de que esta luta não é inglória. Esse trabalho que foi realizado na Satiagraha não é o trabalho do Protógenes. É o trabalho do Brasil. Os órgãos públicos, as autoridades têm que seguir o que esta nova geração está sugerindo.

DIARINHO: O que falta para acabar com a safadeza política escancarada no Brasil?

Protógenes: O que falta hoje é punição à impunidade. Vivemos num período em que só vai para a cadeia quem é pobre, desempregado, pessoas de comunidades carentes. Rico e poderoso não vai para a cadeia, a exemplo do que ocorre com o banqueiro Daniel Dantas, que acumulou riqueza, poder, com envolvimento de mais de 20 anos na República e, apesar de condenado, não se tem uma resposta rápida. Essa corrupção tomou conta do estado brasileiro a ponto de um deputado erguer um castelo na cidade mais pobre de Minas Gerais. Não declara, fica por isso mesmo. É uma agressão à sociedade. Aí se torna corregedor e verbaliza? ?A partir de hoje ninguém é processado. Não se tem mais processo disciplinar. Se tiver isso é coisa da policia. Eu não vou apurar nada porque aqui tem um sentimento de camaradagem que não me permite apurar nada?. Não tem lei nesse país? Ele está ali para corrigir um desvio de conduta dos parlamentares? Esse é um dos sintomas do ponto que chegamos. Isso é ruim, é um mau exemplo às futuras gerações. Mas não é desestímulo, senão não dialogaríamos a corrupção. A corrupção é sistêmica. Nós temos que resistir.

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DIARINHO: O senhor se acha um exemplo?

Protógenes: Eu sou apenas um vetor. O grito foi dado. As responsabilidades estão aí para serem cumpridas por cada um de nós. Eu estou cumprindo a minha parte e vou até o final. Estou sendo processado administrativamente e criminalmente. Mas eu não desisto.

DIARINHO: O que o senhor pensa do futuro do Brasil?

Protógenes: O futuro do Brasil depende de cada um de nós, de representar o nosso interesse e da busca do equilíbrio entre o público e privado. Este sentimento é expressado desde a mais tenra idade, como também de pessoas da minha geração e até mais idade do que eu. Então, cada um de nós tem um papel importante na exigência do cumprimento das leis, da Constituição da República e no resgate dos símbolos nacionais. A pessoa hoje coloca na janela da casa a bandeira do clube e não a bandeira do Brasil. Temos que resgatar estes valores éticos.

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3 Respostas to “Protógenes Queiroz: “Posso perder o cargo na PF, mas a minha dignidade ninguém leva. Essa nasceu comigo, se consolidou e vou até o final com ela””

  1. mignon Diz:

    Excelente, é isso que precisamos neste país. Homens do quilate do Dr. Protógenes. Parabéns pelo entrevistão. Acorda, Brasil.Pedro

  2. reserva Diz:

    O país só mudará se o povo mudar, sabendo votar consciente e não vender o seu voto, como diz o delegado , nós temos que ter amor ao Brasil e dar um basta na corrupção e desonestidade deste país e não trocar o nosso voto e fiscalizar os nossos representantes, parabéns delegado Protógenes! a nossa consciencia é que manda, abraço joel cidade itajaí.

  3. sistema01 Diz:

    Se este delegado vier a Itajai , que saia correndo o Décio , Jandir , Sodré , garanhão italiano e outros politicos de quinta categoria que Itajai elegeu nos ultimos anos

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