• Postado por Tiago

Saí na rua na manhã de domingo. Blumenau é uma cidade que fica vazia aos domingos: se verão, está todo mundo na praia; se não é verão, está todo mundo dormindo, curtindo a ressaca do churrasco ou do baile da véspera. Mas, apesar do seu ar de cidade abandonada, sempre há uns corajosos que se aventuram a andar na rua nas manhãs de domingo, e eles me chamaram a atenção.

Como se anda na rua, hoje, nas manhãs de domingo? Assim neste tempo de outono, os trajes variam das bermuda ao agasalho, do chinelo ao tênis. Eventualmente, vê-se uma velhinha em trajes chiques, na certa indo para a missa, e essas raras velhinhas me fizeram viajar no tempo, fizeram com que eu revivesse as manhã de domingo do começo da minha vida, quando todas as manhãs de domingo eram manhãs muito solenes.

Na minha infância, e no começo da minha juventude, domingo era dia de ir à missa. E ia-se à missa na maior estica, usando-se a melhor roupa que se tinha, com sapatos pretos muito bem engraxados, ou sapatos brancos recém-pintados de Nuget. Naquele tempo, tinha-se os vestidos de andar em casa, os vestidos mais-ou-menos, e os vestidos de ir à missa. Na época, as roupas masculinas eram totalmente sem graça e sem imaginação – todos os homens usavam camisas brancas engomadas e calças de casemira azul-marinho com vinco – de maneira que nem lembro como eram as roupas dos meninos, mas nós, meninas, arrasávamos nas cores e nos modelitos. Vestido de missa era coisa séria, tinha que estar muito bem passado, e armado por toda uma coleção de anáguas de bordado inglês cheias de goma. Na saída da missa, na hora do pacote de pipoca semanal, as meninas ficavam se exibindo umas para as outras, contando, sob a barra do vestido, quantas barras de rendas de anáguas que cada uma tinha – quantidade de anágua era questão de status.

Nessa época, lá no começo da década de 60, minha tia Frieda, que vivia na fantástica cidade do Rio de Janeiro e que uma vez por ano viajava para Santa Catarina (ainda me lembro quando ela vinha do Rio de Janeiro de navio), trouxe, para mim e minhas irmãs, a última novidade em moda: anáguas de um material novo, que ficavam armadas sem necessidade de goma, cobertas de riquíssima renda de nylon, um arraso total para se usar, e, principalmente, para se exibir para as outras meninas na hora do pacote de pipoca semanal.

Eu adorava aquelas roupas rebuscadas e complicadas, aquelas roupas de ir à missa. Ainda na década de 60, porém, a moda começou a mudar. Surgiram fibras novas, a primeira delas sendo o nycron. Minha mãe, adepta das novidades, não titubeou: passou a vestir-nos de nycron e ban-lon, roupas que não precisavam ser engomadas, e sequer passadas a ferro. Por algum tempo, foi empolgante usar saia plissada de nycron e vestido de nycron, mas, para mim, aquilo logo perdeu a graça. Tinha saudades das roupas rebuscadas, complicadas e engomadas; sonhava com vestidos de organdi cheios de babadinhos, enquanto tinha que usar aquelas roupas de vanguarda, aquele chatíssimo vestido de nycron cor-de-rosa para as missas de domingo, mas isso é outra história, coisas do meu gosto pessoal.

O fato é que as pessoas do começo da minha vida vestiam-se de festa a cada manhã de domingo. As mulheres usavam suas sedas e suas joias; os homens usavam seus chatos ternos pretos ou azuis-marinhos – a caminho da igreja, dentro dela, todos se comportavam-se coma maior urbanidade possível, e cada manhã de domingo era uma festa solene, onde se via a melhor cara da sociedade onde se vivia.

Os tempos mudaram, as pessoas mudaram, a sociedade mudou. Eu, pessoalmente, acho que tudo mudou para melhor – vivemos, desde lá, grandes mudanças, a partir da filosofia que veio com o movimento hippie. Acho que hoje somos menos preconceituosos, menos hipócritas, menos preocupados com a opinião dos vizinhos. Achei legal, hoje, ver como as pessoas se vestem informalmente nas manhãs de domingo, como curtem com liberdade seu dia de lazer, seu dia sem as pressões do trabalho que garante o pão nosso de cada dia. As pessoas andam soltas e livres com seus chinelos e suas bermudas, sem a exibição da quantidade de anáguas, sem a opressão das golas e colarinhos cheios de goma. Sou totalmente favorável a esse novo modo de se vestir descompormissadamente nas manhã de domingo, mas que deu uma saudadezinha do tempo em que se tinha as roupas de missa, ah! Isso deu!

Blumenau, 28 de Abril de 1996.

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