• Postado por Tiago

Futebol é uma coisa muito popular nesse país. Tudo que se faz no futebol chama muita atenção, até exageradamente

?Jogar no Corinthians é um exagero, porque você passa a vida toda sendo cobrado?

?A Democracia Corintiana foi o grande evento da minha vida profissional. O resto é chutar bola?

socrates-(2) Raio-X

Nome: Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira

Idade: 55 anos

Naturalidade: Belém/PA

Estado civil: casado

Filhos: seis

Formação profissional: médico fisiologista

Carreira profissional no futebol: despontou no Botafogo de Ribeirão Preto, mas fez história no Corinthians. Também atuou na Fiorentina, da Itália, Flamengo e Santos, antes de encerrar a carreira onde começou, no Botafogo. Também participou de duas Copas do Mundo ? 1982 e 1986 ? pela seleção brasileira

Ex-jogador de futebol

Doutor Sócrates, Magrão, calcanhar de ouro. Não são poucos os apelidos de Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, um dos principais craques do futebol brasileiro e mundial. Médico de formação, ele levou pra dentro das quatro linhas seu estilo elegante de tratar a bola. Uma de suas principais características foi sua habilidade e uso inteligente do calcanhar. Mas Sócrates também era um jogador completo. Fazia gols de falta, de cabeça e de fora da área com frequência, além de dar assistências perfeitas pros seus companheiros marcarem muitos gols.

Eleito em 1983 o melhor jogador sul-americano do ano e escolhido pela Fifa em 2004 como um dos 125 melhores jogadores vivos da história do futebol mundial, Sócrates ainda foi a única unanimidade em uma pesquisa realizada, em 2006, pela Revista Placar, pra escolher o time de todos os tempos do Corinthians, clube onde marcou história. Ainda foi a única unanimidade numa pesquisa com especialistas, pra escolher os 10 maiores ídolos da história do Timão.

Em visita a Itajaí, na última semana, quando ministrou palestra pro pessoal do curso de educação física da Univali, Sócrates arrumou um tempinho pra atender à reportagem do DIARINHO no hotel Marambaia Cabeçudas, onde ficou hospedado. Lá, falou de sua carreira profissional, da famosa Democracia Corintiana, seleção brasileira, futebol atual, medicina, entre outras coisas.

A entrevista foi concedida aos repórteres Marcelo Roggia e Marcelo Silva, com fotos de Felipe Vieira Trojan.

socrates-(1) DIARINHO ? Você tem brasileiro até no nome e o futebol é o principal esporte do Brasil. Quando e como o futebol começou a fazer parte da sua vida?

Sócrates – Sempre foi o meu esporte de preferência. Mas nunca imaginei ter o futebol como profissão, em nenhum momento da vida. Foi quase que um acidente de percurso. [A carreira futebolística nunca foi um sonho seu?] Não. Minha vida sempre foi voltada pra medicina, desde adolescente pensava em fazer medicina, não sei exatamente por quê. O futebol apareceu aí no meio do caminho, atrapalhando os planos. [E como foi esse acidente de percurso?] Eu jogava no time do colégio e com 14, 15 anos me convidaram pra ir jogar no Botafogo de Ribeirão (Preto, interior de São Paulo), no infantil ainda, e fui pra lá. Fiquei jogando, fiz cursinho, eu só aparecia domingo. Fiz cursinho, depois entrei na faculdade e ia só pra jogar. Mas, em certo momento, começaram a me pressionar pra me tornar profissional. Na minha cabeça não tinha a mínima possibilidade de conciliar as duas coisas. Até que no final do segundo ano da faculdade, eram as últimas férias mais longas, falei ?vamos tentar, pelo menos três meses começar a treinar nos profissionais e ver o que acontece?. E nesse período eu entrei no time, aí não saí mais. Fui levando do jeito que dava, viajando fora de hora, treinando quando podia, uma confusão só.

DIARINHO ? Seu Raimundo, seu pai, queria que você estudasse e deixasse o futebol de lado?

Sócrates – A única preocupação dele é que eu não parasse de estudar. Eu também nunca pensei nisso. Porque ele nunca teve a oportunidade de ter uma educação formal. Tinha o primário incompleto e foi só estudar depois. Na verdade, ele fez faculdade junto comigo. [E você tomou alguma bronca por ter sido pego jogando bola ao invés de estudar?] Ah, várias vezes, algumas em especial. Porque eu fazia as opções, ele não tava entendendo exatamente o porquê, então houve um conflito de interesse. De alguma forma isso aparecia em algum momento.

DIARINHO ? Era muito difícil conciliar futebol e estudos?

Sócrates – Pois é, não dá nem pra explicar. Eu tinha agendas incompatíveis, mas tive muito auxílio dos meus colegas de turma, tinha um regime especial no clube, treinava separado a maior parte das vezes, e praticamente passava o dia todo no hospital. Aí o período que tinha de folga ia pro campo, treinava sozinho, viajava sozinho. Era um nômade. Quando tava na cidade antecipava plantões. No período de férias passava a maioria do tempo dentro do hospital, pra pagar as minhas dívidas e arrumar novos créditos com os colegas. Era tudo uma confusão só, não dá nem pra explicar. Antes (de se tornar profissional) eu nem aparecia pra treinar, chegava sábado e domingo pra jogar. Mas profissional não tinha jeito, tinha que viajar, pelo menos nos jogos eu tinha que comparecer. Se não treinava, pelo menos tinha que jogar, né?

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DIARINHO ? Você começou no Botafogo de Ribeirão Preto e já se destacou como artilheiro do Paulistão e também como campeão do primeiro turno. Como foi essa ascensão meteórica?

Sócrates – Ah, sei lá. Futebol é uma coisa muito popular nesse país. Tudo que se faz no futebol chama muita atenção, até exageradamente. Na verdade, o Botafogo tinha um time bom, um time que dentro do interior de São Paulo se destacava, junto com Ponte Preta, Guarani e alguns outros. E o time fez boas campanhas no período que eu tava por lá. Teve o campeonato Brasileiro em 76, era o meu terceiro ano como profissional, aí aumentou a divulgação ainda mais. Eu enganava. Na verdade, chutava pra trás, de calcanhar, aí chamava atenção. O cara é estudante de medicina, não treina, magro que nem uma pena e resolve jogar bola, com esse nome. Esse cara é um louco. Acho que é por isso. Jogava de calcanhar ainda.

DIARINHO ? Depois partiu pro Corinthians, um time de massa que tinha saído daquela incômoda fila de 22 anos sem títulos. Foi mais tranquila a adaptação ou time grande é pressão sempre?

Sócrates – A diferença é muito grande. Hoje, menos. Hoje talvez seja difícil de compreender, porque hoje você tem tecnologia de comunicação muito participante na vida de todos. Naquela época não tinha um contato assim mais estreito com outras realidades. Eu conhecia São Paulo só como turista, muito pouco também. E muito menos conhecia o Corinthians. Conhecia de jogar contra, sabia que era uma barra, mas jogar no Corinthians é um exagero, porque você passa a vida toda sendo cobrado. A cada segundo da sua vida você tá sendo cobrado por alguma coisa. Então foi um choque muito grande. Sai de uma cidade muito pequena pra uma cidade muito grande, sai de uma dimensão limitada pra uma incontrolada. É um processo extremamente traumático, porque você tem que se adaptar rapidamente e nem sempre tem uma estrutura pra isso. Era na pancada. Primeiro ano em São Paulo foi complicado, bem difícil. Mas depois a gente aprende muito, anda mais calmamente depois.

DIARINHO – Logo na estreia pelo Corinthians você deu um toque de calcanhar que deixou o companheiro na cara do gol e quando o Santos fez o gol você buscou a bola no fundo da rede e a levou até o meio. Esse momento foi importante pra mostrar que você era um líder dentro de campo?

Sócrates – Nem lembro disso, não tenho a mínima ideia. O fundamental pra quem trabalha com o público é você buscar imediatamente a comunicação com esse público. De alguma forma ele tem que te conhecer e vice-versa. Então cada gesto, obviamente, tinha como característica a demonstração de quem eu era, queria me mostrar. Você ficar escondido num time de massa como o Corinthians, você tá morto, a massa te atropela. Então tem que mostrar quem é e pra que veio. Talvez tenha sido isso que chamou atenção. Eu não lembro.

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DIARINHO ? É verdade que no Corinthians você foi chamado de jogador frio após uma partida?

Sócrates ? Essa imagem é por causa de um jogo em que eu não comemorei um gol. E eu não comemorei porque eu tava puto com a torcida e ficou a imagem. No jogo anterior nós tínhamos perdido e fiquei quatro horas no vestiário preso, porque queriam bater na gente. Aí no jogo seguinte eu fiz três gols e não comemorei também. ?Agora querem me tratar como Deus, não sou não?(risos).

DIARINHO ? O Corinthians da sua época era um timaço, um verdadeiro esquadrão. Quem foram os melhores jogadores com quem atuou no Timão?

Sócrates – Ah, é difícil citar algum ou alguns. O Corinthians sempre teve bons jogadores, nem sempre bons times, mas jogadores de capacidade, de talento. Eu acho que o grande time que joguei no Corinthians foi o de 82. Mas mesmo em times inferiores, equipes inferiores do Corinthians, tínhamos bons jogadores. Não encontrávamos, talvez, a forma de jogar juntos. Tinha Palhinha, Zenon, muita gente boa aí. [E no geral, quem foi o melhor com quem você jogou ou viu jogar?] O time de 82 (na Copa do Mundo) só tinha fera, pode citar todos. Zico, Júnior, Falcão, Cerezo, Leandro… Aquele foi o grande time que eu joguei, sem dúvida.

DIARINHO ? Quais foram seus melhores momentos no Timão? Tem algum título, jogo ou gol inesquecível no clube?

Sócrates – Inesquecível, nada é inesquecível. Até porque nesse mundo você tem tantos estímulos que é difícil registrar algum, o tempo todo você tá mexendo. É como um álbum de retratos que a cada dia você tem múltiplas unidades em relação àquele número de fotos que você possui. Então, o tempo todo você tá mudando. É de uma velocidade imensa, trabalha com o público e tá sempre mexendo com as tuas emoções. Então é tudo exagerado, tanto pra baixo, quanto pra cima, alegrias, tristezas, teu sentimento tá manipulado o tempo todo. Mas de alguma forma você se protege. Inesquecível, eu tô usando o seu termo. É inesquecível, tem que ser inesquecível. Senão, você morre. [E momentos importantes no Corinthians, existem alguns?] A Democracia Corintiana foi o grande evento da minha vida profissional. O resto é chutar bola.

DIARINHO ? Você foi um dos principais idealizadores da Democracia Corintiana, que reivindicava pros jogadores mais liberdade e mais influência nas decisões administrativas do clube. Como foi esse momento?

Sócrates – Foi de intensa participação política. Quer dizer, o país passava por um momento sui generis (peculiar), pelo menos no meu ponto de vista, e você poder colaborar, estar agindo por uma causa popular é muito interessante, além de ser uma grande responsabilidade. De alguma forma você servia como porta-voz da população do teu país. Foi muito legal. Muito legal porque pela primeira vez eu vi um povo mobilizado por uma causa de interesse coletivo (refere-se às Diretas Já). Os resultados não foram tão bons assim, porque demoramos um pouco mais do que acreditávamos, mas foi muito, muito especial. Naquele período também foi o período da Democracia Corintiana. Quer dizer, nas Diretas Já, de alguma forma a gente tava com um movimento paralelo auxiliando o processo de redemocratização do país.

DIARINHO ? Existiram jogadores do elenco corintiano que não participaram deste movimento?

Sócrates – Na verdade, a estrutura toda era voltada pra que cada um se manifestasse e optasse pelas posições que defendia. Se alguém não participou, é como votar em branco, não querer participar é de cada um. [A gente pode dizer que o ex-goleiro Émerson Leão foi o traíra dessa história?] Traíra não, mas era um cara que não queria participar, nunca votou, problema dele. Ele tinha que acatar a posição da maioria. É a antítese daquilo que você acredita na sociedade. [E o que você acha do ex-atleta, do técnico e da pessoa Émerson Leão?] Ah, não gosto de falar dele. Vamos falar de coisa boa, né?

DIARINHO ? A Democracia Corintiana perdeu força com sua ida pra Itália e a saída do Casagrande pro São Paulo. Você se arrepende de ter ido jogar na Fiorentina, até mesmo pela rápida passagem que teve?

Sócrates – Não me arrependo de nada na vida. Só fiz o que eu quis e, mesmo nas dificuldades, você tá aprendendo muita coisa. E essa experiência italiana foi fantástica pra mim. Você poder conviver com outra cultura, outra visão de mundo, outra história, te dá uma bagagem incalculável. Todo mundo que, de alguma forma, tiver a oportunidade de conviver com isso devia aproveitar, porque você aprende muita coisa. É duro, é triste, é difícil. Eu não sei viver fora do Brasil, porque meu estilo, minha visão de mundo é diferente daquela que existe nos países do Velho Mundo, das sociedades mais estabelecidas. Mas é uma experiência muito positiva, aprendi demais lá.

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DIARINHO – Na época, existiam boatos de que alguns companheiros seus da Fiorentina estavam envolvidos em manipulação de resultados. O que você pode dizer sobre isso?

Sócrates – Companheiros meus, não. Na verdade, na Itália existe uma série de condutas que a gente não tem muito acesso. Cheguei a imaginar que pudesse acontecer alguma coisa, ocorreram vários casos de denúncia. A Juventus foi punida agora, perdeu o campeonato há pouco tempo. Mas é uma coisa que a gente não tem acesso diretamente. Deve ter em nível mais alto. Eu nem tava muito preocupado com isso, tava querendo voltar logo, porque depois de um ano lá fica insustentável, não aguentava mais. Quis voltar e tinha crédito com o time. Acabei comprando a minha alforria, fui embora.

DIARINHO – Apesar de não ter brilhado tanto como no Corinthians, na temporada que você ficou na Itália jogou contra Maradona, Platini, entre outros craques. Foi de alguma forma proveitosa dentro de campo a passagem por lá?

Sócrates – Não, não. O futebol lá é muito chato. Quer dizer, tinham grandes jogadores, o Zico tava lá, o Maradona, o Júnior, Platini… Platini tava lá? Não lembro. Mas o futebol italiano era como a sociedade italiana. Italiano é um cara determinado, tudo repetitivo. No futebol você até pode criar alguma coisa, mas você tava jogando com nove italianos, o jogo deles predomina.

DIARINHO ? De volta ao Brasil, você ainda passou por Flamengo, Santos e Botafogo de Ribeirão Preto, onde encerrou a carreira. Por que você decidiu parar?

Sócrates – Decidi nada. Quando você leva o quinto nocaute tem que parar de lutar. Tá véio já, não aguenta mais, não tem mais físico pra aguentar e acompanhar a molecada. Chega uma hora que não dá mais. O cérebro pensa, mas o corpo não responde. Se você envelhecer junto ainda dá pra jogar mais algum tempo, mas aí você tem que jogar com garoto de 18 anos, que tem uma possibilidade física muito maior do que a tua, aí não dá pra brigar. [Falando em físico, foi por causa disso que você começou com os toques de calcanhar. Foi pra compensar a falta de físico?] Eu não treinava, não tinha estrutura muscular adequada, aí tinha que jogar num toque só. Se alguém encostasse em mim, me jogava pra fora do campo, não podia nem encostar. Fazia a bola correr. Aliás, a bola é redonda por causa disso. Se fosse pra bola ficar parada e o jogador correndo, a bola poderia ser quadrada.

DIARINHO ? Você participou de duas Copas do Mundo. O que aconteceu naquela Copa de 1982, quando o Brasil perdeu pra Itália? Acha que se jogássemos 10 vezes contra os italianos, ganharíamos nove?

Sócrates – O resultado de um jogo de futebol é muito variado, depende de muitos detalhes. O jogo a Itália ganhou, mereceu, não tem o que discutir. É óbvio que nós tínhamos um time que, teoricamente, era melhor que o deles. Num jogo você perde. Futebol é o único esporte que permite isso. Se fosse num campeonato, não tenho dúvida que aquele time seria campeão. Só tem time bom pra caramba do outro lado, não é só time pangaré. Mas na Copa do Mundo você perde um jogo você tá eliminado. Mais da metade do torneio é de jogos eliminatórios, então isso pode acontecer com qualquer um. Aconteceu com a Argentina em 94, Holanda perdeu a final 74 e 78, com time melhor. Isso acontece o tempo todo. No campeonato geralmente ganha o melhor, mas em torneios desse tipo, que é uma feira, pode acontecer de tudo.

DIARINHO ? Te conforta saber que até hoje você, Zico, Falcão e cia. são lembrados com orgulho pela torcida, por causa da beleza do futebol praticado por aquela seleção de 82, que é até mais lembrada do que a de 94, por exemplo, que foi campeã, mas não deu o espetáculo que vocês deram?

Sócrates ? Não me preocupo muito com isso não. Na verdade, especular sobre passado serve pra história. Pra gente, se tivesse vencido ou não, não iria mudar nada. Talvez até mudasse, seria pior ganhar. Porque quando você ganha uma Copa do Mundo deve ter tanta coisa fácil pra você, que você fica viciado naquilo. Na derrota a gente aprende mais do que na vitória.

DIARINHO ? E na Copa do Mundo de 1986? Acha que tínhamos time para vencer?

Sócrates ? Poderíamos vencer, mas o time não era do mesmo nível de 82. O time não foi tão bem preparado. Na verdade, o time de 86 foi definido 15 dias antes da Copa e o outro foi dois anos antes. O tempo de trabalho era muito menor. [E como foi perder um dos pênaltis contra a França, quando fomos eliminados nas quartas-de-final? É verdade que você sentiu que perderia a cobrança?] Perder pênalti é que nem broxar, acontece alguma vez na vida e só broxa quem tenta. E perde pênalti também só quem bate. É um embate direto entre você e o goleiro e alguém vai ter que errar. Eu gostava de ser o último a bater, porque o último assume uma responsabilidade e pode ajudar os demais. Você tem cinco pra bater, mas teoricamente quem vai decidir é o último. E eu sempre fui o último a bater, mas naquele jogo o Telê (Santana, técnico do Brasil) escolheu que eu batesse primeiro, porque o Zico tinha perdido o pênalti durante o jogo. Eu perdi, mas não tem como interferir nisso. Se você faz o gol, se livrou. Se você perde, nos fudeu (risos). [E acha que o Zico, que tinha recém entrado no jogo, deveria ter batido aquele pênalti que o goleiro pegou durante a partida?] Sim, o Zico era o melhor batedor. Eu batia só quando ele não tava em campo. Quando o Zico tava em campo, era ele. O Zico não perdeu porque estava há pouco tempo, perdeu como eu perdi depois. Eu tava há muito tempo em campo e perdi o pênalti também. Não há lógica nessa correlação.

DIARINHO ? Seu irmão Raí também foi um grande craque do nosso futebol. Quem foi melhor, Sócrates ou Raí?

Sócrates ? Raí, é claro. É só perguntar pra mulherada (risos). O Raí era um atleta, eu fui um enganador. [Mas você ganhou uma votação feita com o público e especialistas pelo Esporte Espetacular, da Globo… Não é sinal de que você era melhor?] Não. Tem muito mais corintiano do que são paulino. A questão toda é a camisa que você veste. Você pergunta pra mulherada, ele ganha disparado (risos).

DIARINHO ? Você falou que parou de jogar porque as pernas já não obedeciam mais, mas em 2005, aos 51 anos de idade, foi convidado pra atuar numa equipe inglesa. Você chegou a aceitar o convite e depois acabou não indo. Como foi essa história?

Sócrates ? Não fui convidado pra jogar com 50 anos de idade, isso aí é maluquice. O cara me convidou pra conhecer o trabalho dele e eu fui. Daí ele me perguntou se eu jogaria no time dele um pouquinho e eu disse que jogaria. Só que o time dele era oficial, disputava a oitava divisão inglesa, uma coisa assim. Acabou que ele conseguiu uma transferência. Fui o jogador brasileiro mais velho a se transferir pro exterior. Aí eu fiquei no banco. Passei um frio, um gelo, foi em Leeds isso. Ele que inventou o negócio pra promover o time dele. Só depois que eu fiquei sabendo dos detalhes, mas tudo bem.

DIARINHO ? Entrando um pouco no tema de sua palestra ?A formação do jogador de futebol na década de 70 e na contemporaneidade?, que você ministrou na Univali, como vê o atual futebol brasileiro e mundial?

Sócrates ? O futebol tá feio, muito físico. Hoje há muito pouco espaço pro talento aparecer com mais frequência, porque os caras tão correndo demais. Os jogadores tão com uma preparação física muito grande e o futebol não se adequou a esta realidade física dos atletas. Então, cada vez mais o jogo vai ser de muita correria e pouca criatividade, pouco espetáculo. [Acha que isso é normal, uma evolução do futebol que não pode ser mudada?] O futebol vai ter que mudar sua regra, não é possível. Todos os esportes mudaram, por que o futebol vai ficar parado no tempo? O futebol tem aquela coisa tradicionalista, séria, de não querer usar a tecnologia. Isso uma hora tem que acabar, até porque passa a ser coerente com hipóteses de manipulação de resultados. Você manter um único árbitro em campo, como a única instância de decisão e sem ajuda da tecnologia é irreal hoje em dia. Há tanta coisa girando em torno de um jogo de futebol, tanto dinheiro, é irreal. Uma hora vai ter que mexer, e mexer também na estrutura do jogo. A minha tese de mestrado seria tirar dois de cada time de campo e tentar provar que quando não tem a maior exigência física melhora muito a parte técnica. [Você acha que o jogo fica melhor quando tem duas expulsões de cada lado?] Não tenho dúvida disso.

DIARINHO – E a nossa seleção brasileira, qual sua expectativa pra próxima Copa do Mundo?

Sócrates ? É a que está mais bem preparada. O time está praticamente pronto e se tivermos alguma alteração até o ano que vem será numa ou noutra posição, se tivermos alguma contusão. Talvez a lateral-esquerda esteja indefinida, mas tá pronto o time e vai brigar pelo título mais uma vez, contra os mesmos, Itália, Alemanha… [O Dunga conseguiu passar nesse teste e montar uma boa seleção?] Sim, mas ser técnico de seleção é muito fácil, você pode escolher quem quiser. Duro é ser técnico de pangaré, perna-de-pau, aí é difícil e o cara tem que ser bom mesmo. [O Dunga então foi um privilegiado, pois já começou direto treinando o Brasil?] Sim, mas ele teve uma grande capacidade de suportar (a pressão do cargo), que não é fácil não. Pelo lado técnico é uma coisa muito boa, mas você treinar a seleção brasileira não é nada fácil.

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DIARINHO ? Falando um pouco aqui de Santa Catarina, o que você acha do futebol catarinense atualmente?

Sócrates ? A gente conhece muito pouco. Acompanho basicamente os times que estão no Brasileiro, mas não deve ser muito diferente do resto do país. Se tem uma ou duas estruturas com um pouco mais de tradição, mais apelo popular, que conseguem sobreviver de uma forma melhor. Mas os pequenos estão morrendo, por má gestão, incompetência, uma série de motivos. Nós temos um calendário maluco, que só privilegia os mais fortes. A maioria dos times do país trabalha três, quatro meses, e isso aí é pseudo-profissional. Não tem nada de positivo pra você tentar fazer um time do interior virar alguma coisa forte. Você tem que ter uma equipe competente na administração, mas também tem que ter possibilidade de crescimento. E as federações não ajudam em muita coisa nesse aspecto. Os outros interesses se sobressaem em relação ao mérito técnico ou de capacitação e infraestrutura. No futebol brasileiro eu não vejo muito futuro para as equipes de cidades do interior. Onde você vai captar recursos pra brigar contra os times das grandes capitais? A realidade econômica do estado de vocês é pior do que a de São Paulo. Em São Paulo, um time de Campinas, que é uma cidade gigantesca, tem dificuldade de brigar e captar recursos pra chegar num mesmo nível que São Paulo, Palmeiras e Corinthians. É difícil, imagina um time como o Ipatinga, por exemplo, não tem como brigar com os grandes… O desnível é muito grande e depende muito do aporte financeiro.

DIARINHO ? Recentemente, você elogiou a competência do Avaí que, apesar de ser um time pequeno, montou uma equipe de categoria, que vem conseguindo enfrentar de igual pra igual as ditas ?grandes? equipes. Pelo que você falou antes, acredita então que o Avaí tá sendo apenas uma honrosa exceção à regra de que futebol é coisa pra quem tem patrocinador forte e dinheiro pra montar time?

Sócrates ? Se você fizer uma boa gestão, você tem condição de se estruturar. Os outros são relaxados. Se fizer direitinho, você vai brigar no mesmo nível, mas ser campeão não vai acontecer. Se tiver chance, não vão deixar, essa é a verdade. Mas se manter na primeira divisão, com uma campanha boa como essa do Avaí, dá estímulo pros outros. Às vezes até o Figueira volta. Essa rivalidade facilita o aporte de recursos internos, no estado. Fortalece as equipes e as outras vão vindo atrás. Mas do jeito que está não tem muita rotatividade. Um time do Acre jamais vai chegar num campeonato brasileiro da primeira divisão. Não tem chance. E é um desperdício. Se você der chance à competência, eventualmente um desses vai e fica. O Santos virou o Santos porque? Santos é uma cidade pequena. [Dentro dessa linha de pensamento, por toda a grandeza que tem Corinthians e Flamengo, você acha que os dois clubes são administrados por pessoas incompetentes?] Sem dúvida. Futebol é um produto que não tem concorrência. Você, com consumidor garantido e sem concorrência, não conseguir vender, é muita incompetência. Não sabem fazer. O Flamengo contratou o Adriano. O que fizeram pra lançar o Adriano no Flamengo? Nada. Fizeram lá um jogo qualquer e ficou por isso mesmo. Um marketing desses na mão você tem que vender camisa antes, vender todos os ingressos do campeonato antes, porque o público vai comprar. Mas se você colocar no meio do bolo, na verdade é desperdiçar a oportunidade desse intercâmbio com o consumidor. [E quem tem estrutura hoje no futebol brasileiro?] Sem dúvida, o São Paulo é o melhor de todos. O São Paulo tem uma linha e os outros dependem muito de determinada gestão. O São Paulo é o que se mantém com a mesma postura, mesma posição. Não aceita interferência externa. Você pega os clubes de futebol no Brasil, quem faz a política de contratação é o treinador. Isso é um absurdo, o cara é funcionário. O São Paulo é o único clube que não tem isso. O cara chega lá, mas cada um faz o seu papel. Podem até ouví-lo, mas quem decide é quem tá administrando. Em time pequeno o treinador vem, indica 12 jogadores, manda os outros embora, mas quando ele vai embora leva os 12. Tem um monte que faz isso, é brincadeira!

DIARINHO ? Você hoje é articulista da revista CartaCapital, do jornal Agora São Paulo e comentarista do programa Cartão Verde, da TV Cultura. O que te fascina nessa área do jornalismo?

Sócrates ? É a comunicação com o público, poder provocar, poder gerar repercussão. Devo ter alguma coisa boa. No Agora eu estou há oito anos, na Carta nove, não me mandaram embora ainda não sei como, principalmente no jornal (risos). O articulista de jornal sempre é mais rotativo. Também tenho um talk-show em Ribeirão Preto, regional e numa tevê comunitária, que eu faço há uns 15 anos. Esse talk-show eu mando pra passar também na tevê do Kajuru (Jorge, jornalista). Nós estamos armando de fazer um programa juntos, mas tem que fechar a boca dele primeiro (risos). [Mas o Kajuru é muito amigo seu?] É sim. Meu filho que está administrando as coisas dele hoje e administrando ele, o que é pior. O mais difícil é ele. Mas é uma figuraça, tem um coração do tamanho de um bonde.

DIARINHO ? Quem é que você respeita e quem você não suporta na mídia esportiva brasileira?

Sócrates ? Tem muita gente boa. Não é a maioria, porque tem muita gente mal preparada nesse meio, mas respeito muita gente. Como qualquer área, tem o bom e o mau profissional. Tem o que gosta de ganhar dinheiro e o outro que gosta de fazer as coisas direito.

DIARINHO ? Falando em outra área, você segue exercendo a medicina?

Sócrates ? Eu tenho um laboratório e o projeto de logo, logo voltar. Eu sou aquariano, fico mudando de área o tempo todo. Estamos com alguns projetos na área médica, vamos ver. Qualquer hora eu volto, mas pra fazer medicina mais social [Tem alguma especialidade?] Eu fiz fisiologia, mais ligada ao esporte, à promoção da saúde. Mas fazer clínica é fácil. Tive uma escola boa. Agora estamos elaborando um projeto mais voltado pra higiene básica, educação e prevenção.

DIARINHO ? É verdade que você é muito tímido?

Sócrates ? Eu sou. Dizem que não, mas sou. Um tímido disfarçado. [E isso te atrapalhou em alguma coisa?] Sempre é uma briga. Timidez é uma coisa meio sacal. Te coloca medos onde não deve, obstáculos onde não existe, mas é uma briga interna cotidiana que não incomoda mais não. Já passei da idade em que me incomodei. Na adolescência, começo da idade adulta isso incomoda bastante.

DIARINHO ? E continua bebendo seu uisquinho e sua cervejinha?

Sócrates ? Parei com a cerveja. Não tomo mais cerveja com álcool, só tomo sem álcool agora. Faz uns seis meses. O corpo já começa a reclamar, começa a cair tudo. Os olhos já não funcionam, tem que usar óculos. [E joga suas peladas ainda?] Não. Tenho muita sequela. Tornozelo ruim, na minha coluna lombar tenho hérnia de disco. Se eu for jogar bola é capaz de me animar e depois sair todo quebrado, travado. Nem me meto mais. Xadrez agora. Daqui a pouco dama, dominó na mesinha da praça (risos).

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