• Postado por Tiago

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Ser promotor de justiça não é tarefa para qualquer um. O promotor é o homem de frente da fiscalização dos órgãos públicos e também responsável por acusar aquelas pessoas envolvidas em crimes. Se não é fácil, imagina então ser promotor de justiça militar?! Ou seja, ser o homem responsável por colocar o dedo na ferida de policiais militares que, mesmo vestindo uma farda, muitas vezes se bandeiam pro lado da criminalidade e agem como bandidos. Pois é isso que, há 10 anos, um homem de estatura baixa e fala calma faz. A tranquilidade em se expressar não é sinônimo de acanhamento. Quando chamado para cumprir o seu dever de promotor, Sidnei Eloy Dalabrida mostra a grandeza da sua personalidade. Numa das suas últimas participações no combate à criminalidade dentro da polícia militar, colocou 12 PMs no banco dos réus por favorecer a jogatina. Nesta entrevista aos jornalistas César Valente e Franciele Marcon, o promotor militar falou sobre a operação Arrastão, sobre a morte do jovem Rafael Mendonça na frente do porto de Itajaí, a corrupção dentro da PM e sobre a tentativa de politização da corporação. Mesmo sendo ameaçado de morte diversas vezes, Sidnei segue firme em sua carreira. As fotos são de Felipe VT.

DIARINHO: O que é, em resumo, o Ministério Público Militar?

Sidney Dalabrida: O promotor que atua junto à Justiça Militar estadual, que sou eu, é um promotor que integra o Ministério Público Estadual. Nós não temos aqui Ministério Público Militar como instituição isolada. Há uma vara criminal que atua junto à Auditoria. Tem a promotoria correspondente. Então sou promotor dessa promotoria correspondente.

DIARINHO: Que casos são submetidos à Justiça Militar estadual?

SD: Todos aqueles envolvendo policiais militares estaduais e bombeiros militares estaduais que praticaram ou são suspeitos de praticar um crime previsto no Código Penal Militar. E aí pode ser tanto um crime especificamente militar, que só um militar poderia praticar, abandono de serviço, ou insubmissão, por exemplo, como um crime que qualquer outro civil poderia cometer, como roubo, extorsão, latrocínio, estelionato, corrupção… Há crimes que são propriamente militares e outros que não são propriamente militares, mas ainda assim o policial e o bombeiro são julgados aqui.

DIARINHO: Hoje a polícia militar parece estar com pouca credibilidade diante da população. Por que o senhor acha que chegou a este ponto?

SD: Na verdade porque, primeiro, é uma instituição que está muito exposta à opinião pública. Há muita transparência no que concerne à atividade policial, diferentemente de outras instituições. Se nós pegarmos o poder judiciário, por exemplo, e a gente for analisar os processos envolvendo membros do judiciário, ou ministério público, processos envolvendo promotores de Justiça, quase não se divulga isso. Não significa que não aconteça. A polícia militar está muito mais exposta à opinião pública. O acesso à informação sobre as coisas que acontecem é bem mais fácil que no poder judiciário e no ministério público. O outro aspecto da credibilidade está relacionado com o excessivo número de infrações penais, de crimes que acabam envolvendo, de uma forma ou de outra, o policial militar. Então isso é evidente que repercute na credibilidade de toda a instituição. A imagem da instituição acaba ficando desgastada toda vez que tem um policial militar envolvido numa infração.

DIARINHO: No contato com a população é comum ouvir queixas sobre o despreparo do policial militar. Pode estar havendo algum descuido no treinamento?

SD: Há uma falha no acompanhamento. Não só na preparação, como no acompanhamento, no desenvolvimento funcional do policial ao longo do tempo. Nisso há realmente uma falha. Deveria haver programas de acompanhamento, programas de preparação do próprio policial. Para isso, tinha que se investir mais na polícia militar também. Não é que ela não faça porque não queira. Não faz porque efetivamente não dispõe de recursos determinados para esse tipo de coisa. Quanto à preparação do policial, embora tenha havido uma melhora significativa nos últimos anos, uma coisa é certa: pode-se fazer bem mais. Agora, isso vai depender de recursos. Tanto em programas de preparação como programas de acompanhamento. A questão do acompanhamento do policial também é muito importante. Porque na medida em que ele pratica um desvio funcional e, no âmbito interno, se passa a mão na cabeça e não se faz nada, ele vê que não está sendo vigiado, controlado. Então isso vai estimulá-lo a prosseguir nessa trajetória. Era necessário que a trajetória fosse mais vigiada.

DIARINHO: Há obrigatoriedade de fazer algum curso de reciclagem?

SD: Não, não há. Há episódicos. Mas não uma metodologia de se fazer de tanto em tanto tempo um curso para reciclagem. Deveria haver. [Nem para combater novos crimes que vão surgindo?] Não, o que há é que eventualmente se seleciona alguns e são inscritos em determinado curso para se aperfeiçoar.

DIARINHO: A polícia militar está na vitrine, faz um serviço ostensivo e naturalmente as denúncias de violência e outros desvios acabam mais facilmente na mídia. Porém, a corporação não dá retorno à sociedade sobre os resultados dos inquéritos administrativos montados pra investigar estes excessos. Por que há este protecionismo da polícia militar em dar esse retorno à sociedade?

SD: Deve haver uma maior transparência, principalmente porque o policial está fazendo um serviço que é público, sendo pago com dinheiro público. Então tem que haver transparência em relação a isso. Se não está havendo essa transparência, algum problema há. Porque não é questão de algum entrave, por exemplo, de ordem legal. De não poder divulgar ou coisa do gênero. Há que se avançar nesse aspecto para gerar mais publicidade em relação às punições administrativas. A polícia, no âmbito administrativo, peca um pouco em relação à punição administrativa-disciplinar dos policiais. Tem que haver um procedimento mais célere, uma resposta mais imediata.

DIARINHO: Pelo que o senhor acompanha, pelo número de processos, a polícia militar de Santa Catarina pode ser considerada violenta?

SD: Não, eu não a considero assim. Há casos realmente que chocam a qualquer pessoa, casos graves. Mas se analisar pela média não percebo isso. Não a qualificaria como uma polícia militar violenta.

DIARINHO: O senhor acha que existe ainda um ranço, na polícia Militar, da época da ditadura militar?

SD: Não. Nenhum. Acho que não. Na minha convicção não há. Inclusive o que se vê é que, em razão dessa justificativa, de que ela serviu durante muito tempo só para sustentar um regime ditatorial e de perseguição, muitos policiais começam a se apegar nisso para entender que algumas punições são perseguições, fruto desse autoritarismo, mas na verdade não é assim. Na verdade, para ser policial, tem que se ater a alguns princípios rígidos e se não forem obedecidos haverá punição. Isso não tem absolutamente nada a ver com a questão de ela ter, no passado, servido como braço da ditadura.

DIARINHO: Os praças estão acampados na praça aqui em frente ao fórum de Florianópolis e têm várias propostas, inclusive de modificação de regulamentos. Como o senhor vê essa politização da PM em que há até reivindicações eminentemente políticas dentro da corporação? Este tipo de atitude não atrapalha a disciplina e a hierarquia?

SD: Em primeiro lugar, acho legítimas essas propostas de modernização dos regulamentos internos. Agora, nenhuma tentativa de mudança de legislação pode passar pelo enfraquecimento de disciplina e hierarquia. Quando isso acontecer, a polícia militar tem que desaparecer. O que sustenta essa instituição são esses dois valores: disciplina e hierarquia. Quando não tivermos esses dois valores como valores supremos da instituição, então vamos partir para outro tipo de polícia. Enquanto ela existir, esses dois valores são fundamentais. Quanto à politização, acho que o texto constitucional é claro quando não permitiu o exercício da greve, por exemplo.

Então houve aí uma demonstração de que a opção do legislador constitucional foi de não permitir justamente para que essa questão da politização não prejudicasse o atingimento dos fins da instituição. Porque não há dúvida que a politização se reflete na questão da missão da própria polícia. Quando começamos a deixar entrar na polícia questões de política partidária, por exemplo, ou reações totalmente desproporcionais… Uma coisa é você estar inconformado e recorrer à via judicial, seja o que for, outra é, por exemplo, se armar contra o oficial, é fazer motim, que configura crime.

DIARINHO: Como o senhor viu aquele episódio do comandante do policiamento na capital reunindo pessoas no seu gabinete para falar sobre seu candidato à prefeitura? Isso não demonstra que até os oficiais estão envolvidos nessa politização?

SD: Sim, quando citei os praças, é porque estava centrado naquela questão da greve, mas não tenha dúvida, que isso é prejudicial inclusive em nível de oficialato. Sobre esse fato instaurei um procedimento criminal, já ouvi várias pessoas, requisitei documentos e a última providência, agora depois de analisar os documentos, será ouvi-lo. Agora é evidente, já ouvi a fita, é lamentável que um oficial da polícia militar se valha do seu posto, da sua condição de comandante, dentro de uma unidade militar, usando do seu poder para convencer policiais a votar em determinado candidato. Isto é um absurdo e deve ser punido, seja praça ou seja oficial.

DIARINHO: Na sua opinião o que precisaria acontecer para que a polícia esteja mais presente e seja melhor vista e mais benquista pela sociedade?

SD: Acho que é aquilo que a gente ressaltou: mais programas de preparação e de acompanhamento funcional auxiliarão em relação a isso. Outra coisa: precisamos aparelhar a polícia militar, a corregedoria e a agência central de inteligência. Durante muito tempo ninguém investiu nisso porque, a partir do momento que a corregedoria começa a punir, a partir do momento que começam a surgir informações do policial que está envolvido com crimes, a instituição passa a ficar exposta. Isso, para quem está no comando, pode representar um desgaste político, porque ele é indicado por alguém. Então, enquanto a gente ficar nessa engrenagem, não vamos melhorar. Pessoas. O importante é ir depurando isso, purificando. E enquanto tiver essa ideia de: ?ah, não vamos aparelhar a corregedoria, não vamos aparelhar a central de inteligência porque estão ali para investigar gente que pertence à nossa instituição?, a coisa não vai pra frente. Também em relação a isso, tenho sentido uma melhora. Vem melhorando. Era muito pior, quando eu comecei (há 10 anos). Até em razão da própria atuação da justiça, isso tem melhorado. Mas acho que precisa mais. Tem que aparelhar melhor, fortalecer, colocar policial para investigar policial mesmo. E punir exemplarmente. Isso vai melhorar a questão da credibilidade.

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DIARINHO: Às vezes se vê a P2, o serviço reservado da polícia, investigando também o cidadão comum, não só os policiais, como seria a sua função original. Isso é um desvio de função?

SD: Não, é natural que se faça. A polícia pode contribuir com a polícia judiciária na investigação de determinado delito. [Mas o estatuto não diz que o P2 deve atuar como fiscalizador da sua própria corporação?] Sim, digamos que isso seria a atividade principal. Mas também se lê no estatuto, por exemplo, que policial não deve fazer segurança de presídio. E, no entanto, está cheio. Então a questão vai por aí. O fato de ele investigar quem faz um crime comum, não vejo nenhum desvio significativo. O importante é apurar o crime. Se colaborar com a polícia civil, às vezes é melhor.

DIARINHO: Mas isso não cria uma disputa com a própria polícia civil?

SD: Ah, por isso é que eu digo, se colabora. Agora, se começa a entrar em choque, aí é um problema, né? A gente está sofrendo isso agora em Mafra ou São Bento do Sul, em que houve umas denúncias. Tem que haver uma certa coordenação nesse trabalho. Não pode sair por aí tentando substituir a polícia civil. Não vai dar certo. Uma das questões: a polícia civil sempre teve prioridade de realizar o termo circunstanciado. Aí, há algum tempo se permitiu que a polícia militar também fizesse. Até acho que não devesse ser negado diretamente, mas teria que ter alguns critérios. Nesse episódio da Operação Arrastão, o que favoreceu foi isso. O policial militar vai lá e faz o termo circunstanciado e ele fica no controle, não leva mais para a delegacia. Ficam as máquinas todas lá, no controle dele. E isso acabou contribuindo para proliferar um pouco da corrupção no meio policial militar. Então teria que ter um estudo mais aprofundado, fazer com mais cientificidade. [Isso foi notado só na questão da jogatina ou há outros casos?] Em vários casos isso já veio à tona. Em inquéritos que viraram processo, inclusive, tem que o fato do policial militar ter exercido uma função que era típica da polícia civil, acabou descambando para a corrupção, por exemplo.

DIARINHO: Mesmo o policial militar sendo super honesto, a função dele é ostensiva. O tempo que ele fica parado fazendo TCs, deixa a área de cobertura dele desguarnecida. Isso por si só já é um desvio de função. O senhor acompanhou o processo para que a polícia militar fizesse TC?

SD: Não. Quando houve este processo de se atribuir à polícia a possibilidade de se fazer TCs, eu não estava aqui. Eu estava afastado. Eu estava na Espanha e não participei disso diretamente.

DIARINHO: Qual o caminho mais adequado para uma pessoa que sofreu alguma violência por parte de um policial militar denunciar este crime?

SD: Primeira questão é lavrar um boletim de ocorrência, porque daí não ficaria nisso. A gente sabe que muita coisa não vai pra frente. Pegar cópia desse boletim e levar até o promotor de justiça, que não precisa ser necessariamente eu, promotor de justiça militar. Vai até o promotor de justiça da sua comarca, munido disso e faça a denúncia, e tenha certeza que aquilo ali vai caminhar. Vai ter um resultado. Talvez não seja o esperado, porque a gente trabalha com provas, mas não vai ser arquivado. O caminho mais seguro é esse.

DIARINHO: A maior parte dos casos que o senhor denunciou chegou à condenação?

SD: Eu diria que a maior parte que eu denuncio, acaba ensejando condenação. Já sobre as denúncias que eu recebo, não poderia dizer isso, porque a gente recebe muita coisa infundada. A maioria das denúncias que eu recebo não gera nem processo criminal. [Mas dos fatos denunciados pelo senhor a maioria…] Sim, dos processos a maioria resulta em condenação. [Geralmente é mantida a condenação pela instância superior?] Sim, geralmente é mantida.

DIARINHO: O senhor recebe uma denúncia e aí qual a equipe que o senhor conta para investigar?

SD: Esse é um grande problema. Veja como funciona: na polícia civil, quando há o crime praticado por uma pessoa, a polícia civil faz um inquérito. Aqui quem faz o inquérito é a polícia militar. Pois é um inquérito policial militar que é encaminhado para cá. Geralmente, o inquérito vem como se fosse um inquérito da polícia civil, sem direcionamento, sem tentar favorecer, até porque é feito por um oficial, às vezes, aqui de Florianópolis. Mas pode acontecer, já aconteceu, do inquérito ter sido feito já com um propósito desvirtuado e eu transformo aqui numa investigação e utilizo a estrutura do ministério público pra refazer aquilo ali, já que não deu para confiar no trabalho da polícia militar. [E por que não dá pra confiar no trabalho muitas vezes?] Muitas vezes percebes que foi feito para favorecer um ou outro. Eu cito como exemplo aquele caso que teve há uns três anos, de anulação do concurso público para policial militar, que eu tomei as medidas para que ele fosse anulado. Ali há um rol extenso de irregularidades, de ilicitudes… Só para se ter uma ideia, três pessoas que eram da comissão de correção da prova eram candidatos ao mesmo tempo, e eles passaram eles mesmos. Então era um troço assim absurdo. Apesar disso, o inquérito policial militar disse que não tinha crime nenhum, infração nenhuma, que aquele era um concurso, digamos assim, um exemplo de concurso público. Por isso temos que ter muita cautela. Diante disso, a gente tem tomado essas medidas de refazer a investigação, mas isso é exceção.

DIARINHO: O setor de inteligência da polícia militar pode usar escuta telefônica? É previsto isto por lei, é legal?

SD: Não, não. Um policial militar usando interceptação telefônica não pode. O que existe é o seguinte: tem que ter uma ordem judicial. Hoje temos o sistema no ministério público, polícia federal e na DEIC, de pessoas que fazem o monitoramento quando é feita a interceptação e, às vezes, junto com ela trabalha um policial militar. Por exemplo, no próprio ministério público tem um policial militar. Fora isso não, é completamente irregular. [Qualquer escuta telefônica que não seja feita pela polícia federal, ministério público e DEIC é clandestina?] Sim, claro.

DIARINHO: O senhor participou recentemente da investigação da Operação Arrastão. Como começou essa investigação?

SD: Na verdade começou num inquérito da polícia federal, que estava tentando apurar denúncias de que havia contrabando de peças de informática e de peças para caça-níqueis, a partir dali se gerou a investigação. Foi pedida interceptação telefônica e durante as escutas se percebeu que havia muitos policiais envolvidos e que o esquema girava em torno mais da exploração do jogo de azar. De uma interceptação surge um telefone, foi seguindo e foi se vendo que tinha uma rede de influência, de pessoas envolvidas. Se iniciou a partir de denúncias de contrabando, mas acabou sendo dirigida para este fato.

DIARINHO: A maioria dos policiais que participava deste bando, desta rede, participava por ganância, pelo poder ou porque precisava desse dinheiro para aumentar a sua renda porque o seu salário era baixo?

SD: Não, não. Até para citar o que um deles acabou dizendo: ?o olho cresce?. A questão é a seguinte: não é que precisa daquilo para comer, mas é evidente, ele viu ali uma forma de aumentar o seu ganho, de forma fácil, digamos assim. Então foi por isso: ganância. Tentar aumentar aquilo que ele já recebia. Veja que um deles ali é oficial, havia recebido R$ 15 mil e tava pedindo mais R$ 5 mil. [A sensação de impunidade tem alguma ligação com isso, quando esse pessoal atende esse chamamento?] Como eles estão protegidos pelos poderes, pela própria farda, então eles imaginam que aquilo ali não vai ser descoberto. Não é nem: ?vai ser descoberto e eu não vou ser punido?. Ele pensa o seguinte: ?não vai ser descoberto?. Isso tem feito com que se aumente esse número de participação de policiais. Não é nem a questão de não ser punido, que também existe. A sensação de impunidade é um grande mal do aumento gradativo da criminalidade em todos os setores. As penas previstas na legislação são pequenas e isso acaba gerando essa sensação. O sujeito não sofre punição e quando sofre é uma punição pequena, daí acaba estimulando. [O senhor disse numa entrevista recente que o que sustenta o jogo ilegal em Santa Catarina é a corrupção policial. O que pode ser feito para reduzir este problema?] Só tem algo que pode ser feito aí: intensificar a investigação e a fiscalização. Não tem outro meio. Porque a gente sabe que este tipo de coisa acontece no estado inteiro. Eu recebi um monte de questionamento: ?e aqui não vai dar nada? Lá não vai dar nada??. A questão é a seguinte, neste caso a gente tem provas. Foi feita uma investigação e redundou nisso aí. Muita gente fala e não traz elementos concretos. Falam: ?aqui tem?. Mas aqui tem é uma coisa, mas pelo menos tem que trazer um dado para iniciar uma investigação. [O que sustenta uma conversa de botequim não sustenta uma investigação, um processo…] Perfeito. Subscrevo isso que tu falou. [Quantos policiais permanecem presos dessa investigação?] Os 12. Eles respondem à justiça comum, a crimes comuns, que seria formação de quadrilha. E aqui por crimes de peculato, crime de corrupção, de concussão e violação de sigilo. [Na militar ele corre o risco de ser expulso da corporação?] Sim. Todos esses policiais, em tese, podem ser excluídos da corporação. Isso é importante: para serem excluídos eles não precisam ser condenados aqui não. A polícia já pode instaurar um procedimento administrativo, desde que dê direito à defesa, cumpra a lei que diz que tem que ter um conselho, e pode excluir independentemente do resultado. [O senhor sabe se algum desses 12 policiais já responde a este procedimento?] Até agora não, não foi instaurado ainda. Eu diria que até é cedo porque não houve interrogatório, mas a polícia já me pediu, agora não sei se vão instaurar.

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DIARIN HO: Em Itajaí, no ano passado, um policial militar que trabalhava no centro de operações da polícia militar (Copom) foi flagrado repassando informações privilegiadas para os traficantes da cidade. Isso é comum acontecer?

SD: Sim, já tivemos processos relacionados com fatos dessa natureza. [É comum?] Sim. [Tem alguma região do estado onde há maior incidência] É complicado em Balneário Camboriú. O litoral, eu diria assim. Tem um maior número de denúncias envolvendo facilitação do tráfico de entorpecentes por policiais militares. [Porque esse número é maior?] Não sei exatamente, porque naquela região específica. [Volume de tráfico maior?] É o que eu penso assim de início, mas não sei… [Qual a pena para um policial flagrado traficando ou favorecendo um traficante?] Aí é que está: se ele pratica tráfico de entorpecente ele responder à justiça comum e não à militar. Daí, ele pode pegar de cinco a 15 anos. Se ele auxiliou no tráfico ele vai pegar de cinco a 15 também.

DIARINHO: Existe alguma orientação dentro da polícia militar para que, num confronto entre a polícia e os bandidos, os tiros não sejam disparados para matar os cidadãos?

SD: As diretrizes operacionais são claras no sentido de que realmente ele deve evitar ao máximo um tiro contra o cidadão e quando fazê-lo evitar uma região vital. Existem várias denúncias de que isso não foi atendido, mas isso depende muito de um caso concreto, é difícil falar em tese. Talvez num caso concreto não tivesse outra medida a ser dar um tiro no peito do sujeito que estava indo para cima dele para matá-lo com uma faca ou um revólver. Ou que ele ia sacar um revólver e naquele instante tu não tens ali total equilíbrio de raciocinar: ?vou apontar pro chão?. Porque se ele não for rápido e efetuar o disparo, ele pode morrer. Então tudo depende de uma situação, de caso a caso para poder responder.

DIARINHO: Em 2004, o senhor recebeu um inquérito policial do caso Rafael Mendonça. Um estudante confundido com bandidos que foi morto por um policial militar em frente ao porto de Itajaí. Ele estava com as mãos pro alto pedindo para não atirarem, mas mesmo assim foi morto por um tiro. A promotoria de Itajaí entendeu que o policial não teve intenção de matar e qualificou o crime como culposo. O senhor recebeu o inquérito e devolveu à comarca, pois entendeu que o crime foi doloso, que houve a intenção de matar. Que elementos constavam naquele inquérito que o auxiliaram em sua decisão?

SD: Eu acho que tinha prova testemunhal, das circunstâncias que o fato ocorreu, os laudos periciais… Um conjunto de provas que mostrava claramente que não se tratava de um fato culposo, de um descuido, de uma negligência, de uma imprudência, não. Ele efetuou o disparo com o propósito nítido de acertar o sujeito e matá-lo. Havendo indícios de que isso tenha ocorrido tem que ir para o júri, não pode ficar na alçada militar. Eu encaminhei primeiro para a procuradoria geral de justiça e o procurador geral de justiça nos deu razão, e encaminhou para a comarca. [É normal ter essa divergência?] Não é raro. Falar que é comum também não é, porque não ocorre sempre. Tem alguns casos, vamos supor aí: de cada cem um caso. É, talvez seja raro. [Até hoje os policiais acusados deste crime não sentaram no banco dos réus. Se o julgamento fosse na justiça militar este caso já teria chego ao fim?] Por crime culposo já teria sim. Só que teria sofrido uma pena insignificante. Se um homicídio é culposo a pena é muito leve, no militar então a pena é muito pequena. É pena de um ano e ele teria direito a suspensão do processo. Não ia ser processado e nem condenado. Quando a pena é de um ano, se o sujeito for primário, ele tem direito do processo ficar parado durante determinado tempo. Se neste determinado tempo, ele não cometer outro crime, não gera nem antecedente.

DIARINHO: Aos leigos as várias possibilidades de recursos dentro de um processo incomoda. Isso incomoda, imagino, muito mais os promotores de justiça, que acabam muitas vezes vendo o resultado do seu trabalho quase indo para prescrição. Existe uma possibilidade de isso ser revertido?

SD: Só existe uma forma disso ser revertido, que é com uma modificação na legislação para suprimir alguns recursos, aumentar os prazos prescricionais. Não tem outra forma, porque por mais que se queira está na lei que tem um determinado prazo para julgar, para ser confirmado e isso não é respeitado, porque daí tem um monte de recurso até ser transitado e julgado. [Isso é tão incômodo para vocês quanto a gente imagina?] Acho que até mais, a gente fica inconformado. Principalmente, porque quando sai daqui, eu perco o controle do negócio. Em outra instância depende de outra pessoa, que talvez não tenha tido contato com aquilo, daí fica complicado.

_MG_8561DIARINHO: O senhor acredita que hoje um policial militar catarinense tem um bom salário?

SD: Eu acho que ele merecia muito mais do que ele recebe, agora fazendo uma comparação com as policiais militares de outros estados, eu acho que ele está ganhando bem.

DIARINHO: Qual a grande dificuldade de trabalhar com uma promotoria militar?

SD: O grande problema é que aqui todos os crimes envolvem uma pessoa que possuiu uma função pública. Em outros termos, que um sujeito se refugia atrás de uma farda e para ti descobrir que atrás de uma farda tem um sujeito que cometeu um crime, é mais difícil que os outros casos. Isso que, às vezes, nos angustia descobrir efetivamente os crimes, de desvendar os crimes praticados, porque envolve toda uma estrutura policial. Tem ainda aquelas circunstâncias de ser auxiliado pelos companheiros de fardas, então nem sempre se tem muita testemunha, então o maior problema é esse. E tem a questão da gravidade por si só de ter um policial militar, que deve reprimir a criminalidade, ser um integrante deste outro lado, de ser um criminoso, de pertencer a uma organização criminosa. Claro que isso representa um perigo à sociedade muito maior do que um civil. Já que ele já tem, por natureza, uma série de poderes em volta dele.

DIARINHO: Nos 10 anos que está à frente da promotoria militar, o senhor já foi ameaçado de morte?

SD: Já sofri várias ameaças de morte. Inclusive, uma delas confirmada por um comparsa que foi preso em outro processo na justiça comum e declarou no seu interrogatório de um plano para matar o promotor da justiça militar, eu. O documento foi encaminhado pelo juiz ao ministério público.

DIARINHO: Alguém já tentou corrompê-lo ou suborná-lo?

SD: Nunca houve tentativa de suborno ou corrupção.

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2 Respostas to “Sidnei Eloy Dalabrida: “Permitir que a PM fizesse TCs acabou contribuindo para proliferar a corrupção no meio policial militar””

  1. venicius Diz:

    não podemos pensar que todo policial é desonesto! A grande maioria são pessoas honradas, de boa índole e pais de família responsáveis, precisamos é valorizar esses policiais e o judiciária tomar medidas para os ajudarem, um exemplo seria a construção de presídios, reformas na lei, e acabar com o indulto. Poxa, o que o preso fez para merecer o indulto? Depois dessas ações, pagar melhor a polícia, e deixar de culpar somente uma instituição pela falta de segurança do nosso país.

  2. pmitajai Diz:

    so Deus sabe o que vai acontecer, teoria é bonito a pratica: é momento. ilumine nos enquanto podemos. Ninguem faz ou é verdade.

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