• Postado por Tiago

Cada HOMEM que sofre me diminui, porque faço parte do gênero humano.” (J. Donne)

Caudas Aulete e Antônio Houaiss – dicionarista/filólogo – conceituam o sobreaviso como: estar atento, alerta, vigilante, à espera, de atalaia. Todos sabem que a vigília perene, contínua, repetida ou intermitente é insalubre, malévola e doentia.

Esse modelo jurássico é um escárnio aos artigos, parágrafos e incisos da Organização Mundial de Saúde(OMS), que aplaude: uma metodologia compromissada com a vida (“crescem os lucros com as pessoas”), o controle da carga horária semanal de trabalho (este não deve ser uma requintada tortura), ambiente laboral salutar e instrumentação que fomente a capacitação profissional.

Paradigmas empresariais sucateados, aplaudem o sobreaviso (vertente árida e impessoal de uma atividade), o qual utiliza o homem como sua derradeira reserva. Esse arquétipo agrega a dedicação exclusiva, a vinculação em tempo integral e reduz a escombros a privacidade. A pessoa vinculada, asfixia durante o tempo em que o liame persistir… a vida própria, seu “éden” psíquico.

Se na escravatura havia uma ignominiosa posse jurídica da pessoa humana, igualmente execráveis são suas versões contemporâneas, que não conseguem disfarçar sob a camada pálida da maquilagem, a apropriação de fato… do ser.

Os “clarins” do sobreaviso podem ser empunhados ao amanhecer, à tarde, à noite, de madrugada, aos sábados, domingos e feriados. Insidioso, o sobreaviso separa o corpo da mente. Enquanto o físico anseia pelo descanso reparador, a mente reivindica, contraditoriamente, que “soem os clarins”, para se desvencilhar do sobressalto.

Ele pode durar um dia, três, sete, trinta dias (!!!???). A constância, a iteração e a reprise vão inoculando e injetando, subterrânea e silentemente, enfermidades como: estresse, cefaléias, taquicardia, hipertensão, anomalias estomacais e distúrbios do sono. Com a sobrecarga física, os equilíbrios psicológicos e emocionais contaminados pela adrenalina… se degradam.

Se o trabalho é um dever social, cuja obrigação nenhuma pessoa tem o direito de fugir, à sociedade são repassadas responsabilidades – legais e morais – de propiciar a todos, oportunidades humanas de trabalho.

Se a sociedade assim não faz, está errada. É emergencial redimensionar a sua maneira de pensar, falar e agir (idiossincrasia). A história execra os que se deleitaram – que se deleitam – com o ócio improdutivo, vivendo do trabalho realizado pelos que, por engenhos vários, escravizaram… ou escravizam, parafraseando Paulo Rosas.

A manipulação do homem pelo homem, poderá anular a sua consciência de liberdade e conduzi-lo à abúlica servidão, edificando “oficinas/fábricas” que aberram dos mais elementares princípios de hierarquia, disciplina, higiene e humanização do trabalho. Os valores todos vergam-se ao valor homem.

Dementadores são figuras apavorantes exibidas no filme “Harry Potter”, que sugavam a energia vital das vítimas, as quais se deparavam com o ceticismo da comunidade. Por analogia, o sobreaviso ao drenar a vitalidade aparece como um… dementador implacável!

Ass: Carlyle Cláudio Pereira,
escritor independente

(Transcrito ipsis litteris)

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