• Postado por Tiago

“Com o tempo, percebi que pessoas dos perfis mais diferentes podem ter sido infieis em algum momento de suas vidas, sem, com isso, merecer apedrejamento.

Assistindo à minissérie Dalva e Herivelto é impossível não pensar no tema traição. A pergunta que fica no ar é por que um sujeito que aparentemente tem tudo (amor, paixão, fama, família, casamento) jamais parece estar satisfeito e pula de aventura em aventura? E tudo isso à revelia da parceira, que sofre-desespera-se, lamenta, tem chiliques, impotente que é diante das rebeldias amorosas do marido.

Eu costumava pensar o espinhoso assunto da traição de uma forma bem simples: é inaceitável, revoltante e ponto final. Com o tempo, fui percebendo que pessoas dos perfis mais diferentes (sérias ou cafajestes, criaturas comuns ou não) podem ter sido infieis em algum momento de suas vidas, sem, com isso, merecer apedrejamento. Algumas vezes me choquei com histórias de infidelidades cometidas por criaturas acima de qualquer suspeita, até deixar de me abismar e entender que qualquer pessoa é capaz das atitudes mais incríveis, sejam elas quais forem.

Há inúmeros motivos pelos quais se trai: tédio, desejo, frivolidade, carência, vingança… A questão me custou anos de meditação até que eu compreendesse que o ser humano tem, em si, programada a genética da poligamia – e isso vale tanto para homens quanto para mulheres.

Por isso, muitas vezes o adúltero é infiel e nem sabe justificar o motivo. Quando vê, já está atraído por outro que não o parceiro oficial. A genética de anos de evolução explica: em nossas origens ancestrais, quando não havia pudores ou moral social, tínhamos a missão de procriar e de tentar sobreviver. Quanto mais rebentos, melhor para a espécie. Essa noção está impregnada em nosso DNA e, à custa de séculos de civilidade, é que fomos domando o instinto de conhecer, no sentido bíblico, todos os que estivessem dispostos a tanto. Hoje essa ideia se modificou bastante (já que ninguém quer sair por aí arranjando filhos a cada caso), mas continua a formatação hereditária que compele as pessoas a se envolver com o maior número de parceiros possível – ou, então, que nos faz questionar se a vida monogâmica é solução ou suicídio.

É fato que manter relacionamentos exige um esforço de Hércules para os envolvidos, especialmente no que diz respeito a cultivar as razões pelas quais continuam juntos. O natural desgaste que os anos compartilhados agrega a uma rotina enfastiada e a oferta permanente de romances eventuais é geralmente o estopim para incentivar as traições. Mesmo assim, acredito nos relacionamentos longos, estáveis e plenamente satisfatórios. Eles são possíveis, mas demandam um cuidado enorme e constante enquanto durarem.

Já dizia o bordão: trair e coçar, é só começar. É tão simples que basta querer. O desafio da vida a dois é saber ser tão criativo e comprometido com os votos de união que, a cada dia, sejam ambos capazes de se tornar continuadamente desejáveis, originais, surpreendentes, cúmplices, amantes um do outro, apenas – e de mais ninguém.”

Ass: Daiana Franco Nogueira

(Transcrito ipsis litteris)

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