• Postado por Tiago

“Aconteceu dia quatro de setembro, sexta-feira, em uma panificadora de Navegantes. Não descrevo detalhes quanto à localização do estabelecimento. Escrever estas linhas foi a minha única reação concreta de indignação pelo ocorrido.

A minha intenção era apenas comprar algo gostoso para acompanhar o café da tarde. Olhei pelo balcão na panificadora e vi baurus e esfirras que pareciam apetitosos. Aí lembrei-me do colesterol alto e as recomendações do médico em relação às guloseimas. Então optei pelos dois últimos pães de queijo à disposição. Na fila havia duas mulheres à minha frente. A atendente esticou a mão querendo entregar o troco para a que estava saindo, já com a sua compra efetuada, mas ela recusou as moedas como se elas fossem algo repugnante. A atendente com um sorriso para a próxima mulher da fila, concluiu: “ninguém gosta de moedas!”.

Por impulso mais do que qualquer reação bélica, proferi: “Eu gosto!”, sendo agora o próximo da fila. Os dois pães de queijo saíram por um real e oito centavos. Dei dois reais e recebi noventa centavos. Para não me contradizer disse: “Olha, você me deu noventa centavos, falta troco”. Aqui o leitor poderá julgar-me um sovina, pão duro, porém não procede a acusação, pois o pouco que recebo pelo meu trabalho, esbanjo, gasto mesmo, mas não dou dinheiro a mais no que pago pelo produto que compro. Em resposta, a atendente já indignada pelo pedido, disse “Não, foi um e dez!”. Eu, mais calmo do que o esperado: “Não, foi um e oito, se você não tem troco aceito noventa e cinco”. Ela, já possuída pelo sangue nas faces e com uma lógica totalmente pessoal, disse: “Não, pra mim um e oito é igual a um e dez”. Irredutível, desafiei a matemática de vendedora dela: “Mas pra mim, não!”. A atendente, com a resposta mais pronta impossível, retrucou: “Não vou brigar por dois centavos, não vou ficar mais rica nem mais pobre. Pega!”. Grudando a moeda de cinco centavos no balcão.

Pedagógico, respondi: “Não estou brigando e também não vou ficar mais rico, apenas quero meu troco e não sei por que você está tão nervosa por isso”. Saí, sentindo-me ultrajado por aquela cena, dois passos adiante, voltei e disse: “Olha gostaria de falar com o dono daqui, não entendi a tua falta de educação”. No que ela enraivecida, disse: “Eu sou a dona, é ridículo brigar por dois centavos, já falou o que tinha pra falar, pode ir”. Pensei em Procon, pedir nota fiscal na próxima compra só pra ferrar, pensei em advogado… Dominado pela angústia, passando em frente da delegacia, resolvi ir tirar dúvidas em relação ao procedimento em uma situação dessas. Mais levado pelo ímpeto de externar minha angústia do que satisfazer uma vingança, entrei na delegacia. Pela circunferência aberta no vidro, relatei o acontecido, disse que trabalho com muitas crianças (sou professor), vivo em situação de estresse o tempo todo, mas nunca humilhei nenhuma delas. “Tem que fazer um boletim de ocorrência, mas daqui a pouco cai a linha”. Foi o que falou a policial atrás de um computador, fazendo um gesto com a cabeça, apontando para a parede atrás de mim. Sem entender direito olhei para trás, vi o relógio na parede: três minutos para as seis. “E se eu vier amanhã (sábado)?”, perguntei. “Depende de quem estiver de plantão”, respondeu.

Uma interrogação tomou conta de mim. Linha cair? Depende do plantão? “Obrigado”. E saí. Ao pegar minha bicicleta lá fora, um cara que, quando entrei estava sentado na salinha de espera, veio ao meu encontro e me interpelou “Ei, meu enteado tá lá dentro, eles não deixam eu falar com ele, sabe, é que ele fica soltando pipa o dia inteiro, não vai pra escola e acho que tá com má companhia”. Perguntei da escola em que ele estudava, mas não pude ajudar muito. Disse apenas que se eles estavam questionando ele isoladamente era para não sofrer uma possível influência da família, na hipótese de violência doméstica, coisa desse tipo e que não era pra ele se preocupar pois a polícia só queria saber a verdade. Ele apertou a minha mão, agradeceu e eu fui embora.

Fui para casa, comi os pães de queijo com café. Eu estava ainda disposto a levar a contenda à frente. Pensei na felicidade comunal do conforto do sofá e da televisão, o quanto as pessoas não se dispõem a fazer valer seus direitos, por que isso requer sair da zona de conforto que esses dois objetos lhes dão. Depois de uma certa reflexão e a emoção esvaída, respirei fundo, ri ironicamente pra mim mesmo, pensei no valor intrínseco do ser humano, direitos, essas coisas…”

Ass: A.R., o indignado

(Transcrito ipsis litteris)

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