• Postado por Tiago

Eu não sabia, mas tinha um leitor me lendo lá na África do Sul. O nome dele é Ulemo Mtekateka, ele têm 28 anos e mora na cidade de Joanesburgo. É casado com Cláudia, e ambos falam português. Cláudia descende de portugueses; Ulemo é filho de brasileiros.

Estes milagres da internet, então, me arranjaram leitores lá na África do Sul. (Em Moçambique eu sei que os tenho – estive lá, uma vez, e fui recebida como escritora brasileira, com um monte de paparicações, ao invés de ser mera turista).

Então, na semana passada, escrevi sobre os homens solitários, os andarilhos que existem ao longo das nossas estradas, e num primeiro momento os vi como um fenômeno de Santa Catarina, este Estado que dizem perfeito e rico. Então Ulemo Mtekateka me leu lá a 5000 km de distância, e me escreveu coisas assim:

“Muito lindo, o seu texto, e só para clarificar, aqui na República da África do Sul também existem esses tipos, também só homens, também sujos, também com fome e sem mulheres. Mas aqui nós temos ouro por baixo da terra fértil, com muitos carros importados, aonde parece ser o centro do nosso universo D’Ouro. E aqui, também, aliás, principalmente, ninguém pára para fazer as perguntas, porque a maioria é negra. Há alguns brancos, mas esses têm um sistema de apoio, deixado pelo governo anterior.”

Seguem alguns elogios mais pessoais, que achei que não interessariam muito ao leitor. Mas achei que a parte acima interessaria, principalmente como cultura geral (Cá entre nós, nove entre 10 brasileiros pensam que a África é um país e tem uma capital, e nem se lembram que aprenderam na escola que a África é um CONTINENTE, com mais de 50 países, e que, portanto, há mais de 50 capitais. Aqui em Santa Catarina, pelo menos, é assim. E o nosso povo se acha cultíssimo!).

Bem, para quem não sabe, África do Sul é um país bem ao sul do continente africano, e um país cheio de riquezas – andando pelas estradas, vai-se vendo minas: de ouro, de diamantes, de urânio, fora uma reserva ecológica de animais que têm o tamanho do Estado de Santa Catarina (o Kruger Park), e que carreia muitos milhões de dólares de turismo para aquele país cheio de riquezas, mas que, infelizmente, viveu e vive as amargura de um apartheid.

Eu já andei pela África do Sul, e espantei-me com algumas coisas que irão espantar ao leitor, como shopping-center com 30 cinemas, e enquanto viajava por uma das suas muitas boas estradas, alguém me disse:

– Depois daquela curva vamos ver as terras ancestrais da tribo tal – e eu me preparei pra ver choças rodeando uma fogueira com um caldeirão onde se cozinhava um missionário, e quando a curva chegou e olhei para as tais terras ancestrais, vi foi uma cidadezinha como as nossas, com uma antena parabólica em cada telhado.

Parecia-me que a rica África do Sul, apesar dos seus problemas de apartheid, não teria, como aqui em Santa Catarina, homens andando à procura de alguma esperança. E me diz Ulemo Mtekateka que eles também estão lá, e como cá, os homens caminham em todas as direções, sem destino, sem mulheres, sem que ninguém que têm carros importados lhes faça perguntas. E lá, além das outras mutilações sociais, eles são negros, e a sociedade é altamente racista.

Se tanto em terra de alemão e italiano, como aqui, quanto em terra de gente negra, como lá, os homens estão andando sem direção, o que será que acontecerá? Decerto estão andando por todo o mundo, e chegará o momento em que, de alguma forma, se juntarão. Então seu exército será muito maior do que o pequeno exército que se formaria em Santa Catarina – e a fraternidade da pobreza fará com que se tornem irmãos, e quem poderá se opor a um exército de irmãos? Ah! Mundo, cuidado! Quando John Steinbeck escreveu “As vinhas da Ira”, ele sabia muito bem que um dia toda esta gente sem destino acabaria por se encontrar.

Obrigada, Ulemo Mtekateka, por me abrir os olhos. O monstro chamado capitalismo está destruindo muito mais gente do que eu pensava.

Blumenau, 03 de uutubro de 2003.

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