• 06 jun 2009
  • Postado por Tiago

Já me disseram que a foto mais reproduzida no mundo é a do quadro da Mona Lisa, e aí fico a pensar na decepção que tive quando vi o quadro de verdade, lá no Louvre. O Louvre é um museu ENORME, daqueles que a gente precisa de mais de um dia para ver, cheio de quadros ENORMES, separados da gente apenas por uma cordinha – e quando se chega à Mona Lisa ela é um quadro pequenino em relação aos outros, e está lá no fundo de um corredor comprido, e entre ela e a gente há uma porção de paredes de vidro à prova de roubo ou ataque, que a protegem e deformam um bocado a magia dela, e na frente da gente tem tal multidão de gente tentando ver aquele quadro mais famoso do mundo que na verdade a gente vê muito pouco. Consolei-me, na ocasião, comprando um cartão postal com a foto do quadro, para levar para o hotel e olhar bem como é que era a bendita Mona Lisa. Leonardo da Vinci que me perdoe por eu não ter curtido devidamente o seu quadro.

Acho, no entanto, que a foto mais conhecida no século XXI é outra: é a de um jovem argentino que, depois de formar-se em medicina, saiu a andar pela América, primeiro com uma motoquinha, e depois com uma bicicleta, e acabou participando de uma revolução que até hoje mexe com os brios de muita gente, principalmente de um tal de Mister Cachorro Louco, também conhecido como George W. Bush e seus asseclas.

A foto em questão, de Che Guevara, foi tirada em algum momento iluminado da vida dos dois: do fotografado e do fotografante, e está nas camisetas, botons, adesivos, agendas, e o que mais se possa imaginar de milhões de pessoas pelo mundo afora. Penso que ela já bateu o número de cópias da Mona Lisa. De Che Guevara você já ouviu falar, mas quem bateu aquela foto? É um assunto que muita gente também sabe: foi um fotógrafo cubano chamado Korda, e penso que raríssimos de vocês teve na vida a oportunidade que eu tive: a de conviver pessoalmente com o fotógrafo Korda.

Korda e um grupo de outros artistas cubanos apareceram em Blumenau lá pelo outono de 1994, e o Artur Monteiro e eu fomos mais ou menos os anjos-da-guarda, ou algo assim, do alegre grupo de cubanos que achava o nosso rum e a nossa pimenta muito fracos. No grupo, entre desenhistas, fotógrafos e pintores, havia uma artista plástica chamada Lésbia, que achava totalmente natural chamar-se Lésbia, sem a menor malícia a respeito do seu nome, coisa tão comum a nossa gente brasileira.

Por uns dias, esteve aqui todo o grupo; depois, os outros se foram e ficou Korda. Ah! Como lembro de Korda! Ele me parecia sempre como um alegre Profeta do Antigo Testamento, e é assim que a sua imagem ficou no meu coração e na minha mente. Artur Monteiro e eu o carregamos para todas as partes, revezando-nos. Korda, naquela altura, teria mais de sessenta anos, mas sua energia era ilimitada. Eu vivia cansada e cheia de sono de tanto acompanhar Korda, mas não perderia um instante da sua companhia por nada do mundo. Tenho uma linda foto com ele no Restaurante Tiefensee, em Blumenau, onde ele se fartou de comer cierdo.

Por dois anos Korda fora o fotógrafo oficial do governo cubano, logo após a Revolução. Disse-nos, no entanto, que não tinha pique para tanto: Fidel Castro e Che Guevara dormiam duas ou três horas e já estavam prontos para outra longa jornada de trabalho, enquanto ele, Korda, precisava lá de suas oito horas de sono. Chegou um momento em que não aguentou mais: teve que pedir a conta. Mas o quanto tinha para contar daqueles amigos íntimos e pessoais que provocam reações tão desencontradas na Humanidade de hoje: há os que os amam e há os que morrem de medo deles!

Por alguns dias, Korda hospedou-se na minha casa. Tenho até hoje, na minha parede, uma foto tirada por ele, revelada do negativo original, de dois jovens sem camisa pescando na transparência do mar do Caribe: Fidel e Che. Ele escreveu uma dedicatória. E um dia acabou indo-se embora, e Artur Monteiro e eu ficamos na rodoviária de Blumenau, abanando para ele dentro do ônibus. Eu sofri um bocado, faz um ou dois anos, quando soube que Korda morreu em Paris. Ele é daquelas pessoas que a gente nunca esquece!.

Blumenau, 3 de Fevereiro de 2004.

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