• Postado por Tiago

Aqui na Praia do Sambaqui, onde estamos por breves férias, há um Sambaqui situado numa ponta de terra e rochas que adentra ao mar – já estive lá olhando tudo detalhadamente, e penso que não é um Sambaqui muito antigo (talvez com um pouco mais de 2000 anos) nem que tenha sido ocupado por muito tempo (quem sabe por uns 100 ou 300 anos).

Digo tais coisas baseada na camada de conchas que ficou quando aquela gente antiga que morava aqui se mudou – há um ponto do Sambaqui que está desmoronando dentro do mar, e lá é possível observar-se bem a camada de conchas que os antigos moradores acumularam, quando moraram naquele lugar, e fazer-se algumas contas.

Pois bem, então há um Sambaqui no que seria uma pequena península, e há um pequeno istmo que une aquela península à praia que se chama Sambaqui – e ali naquele pequeno istmo há uma ocupação humana recente, coisa de poucas décadas, onde mora uma família, há diversas construções e até um bar, em plena terra pública, terra da Marinha, se bem que em outros pontos da praia haja muitas outras ocupações humanas recentes nas terras da Marinha.

Eu e meu cachorro Atahualpa estamos aqui neste paraíso faz uma semana, e o meu cachorrão, decididamente adulto, agora com um ano e nove meses, tem tido experiências mil aqui por esta praia e ruas adjacentes, na companhia da cachorra Canela, que é a cachorra desta pousada chamada “Pouso da Poesia” onde vim aportar o meu cansaço. Esta é uma praia tranqüila e serena, e eu deixo Atahualpa e Canela se divertirem pelas ruas, pequenos costões, praias de mar manso… e no Sambaqui, para onde estávamos indo umas duas vezes por dia – até ontem, pois agora o Sambaqui nos está mais ou menos vedado.

É que aquela gente que andou ocupando o istmo de terra pública que leva ao Sambaqui cria diversas aves, bem ali na terra pública: há gansos, marrecos, galinhas normais e galinhas garnizés, fora os cachorros e gatos que abundam por toda a redondeza. É uma abundância de animais para um cachorrinho como Atahualpa, que só encontra um ou outro cachorrinho “de apartamento” nos seus passeios diários, ou que fica a espiá-los da nossa varanda de acrílico transparente, quando eles passam na rua.

Estimulado por Canela, Atahualpa já conhece uma barbaridade de animais que estão nos nossos trajetos diários, inclusive um que deve ter sido proibido pelo veterinário de coçar as orelhas, pois está a usar um grande cone de plástico ao redor do pescoço, e que causa o maior susto ao meu bichinho, quando aparece. Também estimulado por Canela, ele tem se aventurado pelas praias de mar manso, correndo e fazendo buracos na areia, mas sempre com o maior medo de qualquer ondinha a quebrar, coisa estranha que só lhe apareceu no último outono, esta coisa de mar. Anda a mil, portanto, este meu cachorrinho que virou um cachorrão, mas eu não imaginava que ele partiria para uma aventura inesperada, como o fez ontem.

Pois é, ontem alguma coisa aconteceu lá na genética do meu bichinho, e de repente ele se lembrou de antigos antepassados caçadores. Se antigos antepassados tinham caçado, o que o impedia de caçar também? E quem é que estava bem por perto dele na hora em que a genética o chamou à razão e o mandou agir? Nada mais nada menos que a família de garnizés que vivem nas terras públicas da Marinha, bem onde passávamos no momento, vindos de mais uma visita ao Sambaqui!

Alertado pela Natureza, Atahualpa não titubeou: avançou para a família garnizé, e o galo garnizé tentou enfrentá-lo para defender as suas galinhas, e a tragédia estava feita.

Atahualpa virou um monstro pré-diluviano, a querer por toda a lei pegar aquele galinho de nada, que fugia e corria pelos muitos meandros daquela ocupação humana, e corria eu atrás dele, e corria o dono dos garnizés também, enquanto a cachorra Canela observava a tudo, impávida. Foram voltas e voltas de perseguição sem dó, Atahualpa a centímetros das penas do rabo daquele galinho, quando o bichinho achou a salvação: voou e mergulhou no mar, mais adiante, local onde a água é bem funda, perto de um costão que sustenta o istmo. Sabem o que fez aquele medroso cachorro chamado Atahualpa, que tem o maior pavor das ondinhas de nada que rebentam nas praias mansas daqui? Fez o que eu nunca imaginara: voou também, e pulou no mar lá perto do galinho, e eu gritava e o dono do galo gritava, enquanto Atahualpa e o galinho davam jeito de nadar de volta para terra, aonde chegaram molhados, estafados, pelo menos o meu cachorro com o rabo no meio das pernas.

Resultado: o dono do garnizé jurou matar Atahualpa, se ele se aproximar do galo de novo, e o meu cachorro está passando os dois últimos dias de férias usando coleira e guia para sair na rua e garantir a vida.

Estou impressionada: quem diria que o meu bichinho, que sempre se portara como um guarda, de repente se transformaria num caçador? Ah! Esta Mãe-Natureza, quando resolve bater na mesa e dar ordens, é uma coisa fantástica!

Pouso da Poesia, 03 de Julho de 2009.

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