• Postado por Tiago

Meu amigo, o escritor Raimundo Caruso, contou-me outro dia episódio da sua juventude. Recém-formado em jornalismo, ele aventurou-se a conhecer a América do Sul, bem naquele momento em que a nossa América fervilhava de ditaduras militares, inclusive o nosso bem-amado Brasil. Caruso passou ano e meio pulando de país de governo ditatorial para país de governo ditatorial, e sua história é muito interessante, daria um livro, mas o episódio que agora quero contar é do momento em que ele voltou ao Brasil.

Caruso ainda não definira bem para si próprio o que era pátria: a impressão que tive é que ele sentia que pátria era qualquer lugar onde houvesse ditadura militar, de tanto que andara por elas, mas um dia quis voltar ao Brasil. Estava no Peru, e atravessou a fronteira para o país tupiniquim em remota localidade do Amazonas, arruado de poucas casas, muitos bares e prostíbulos, lugarejo perdido em algum lugar do mapa. Era de noite, e ele estava cansado. Conseguiu modesto quarto para dormir e ferrou no sono, sem antes filosofar a respeito do grande ato de estar voltando à Pátria, e dormiu bem como só os jovens soem fazer. Foi acordado, pela manhã, por uma voz de sotaque nordestino, uma mãe que chamava uma criança:

– Ei, menino, vem cá, sua peste!

Semana passada ele me contou isso, décadas depois do acontecido, já homem feito, mas era visível a sua emoção ao lembrar como, naquele momento, lá nas fímbrias do Brasil, ele descobrira, de repente, um ralho carinhoso de mãe nordestina, que havia chegado ao Brasil. Ele se lembra de todas as nuances da entonação daquela mãe, de como era carinhoso aquele ralho, de como ela lhe dera, de repente, a Pátria.

Aprendemos na escola que os símbolos da Pátria são a bandeira e o hino. Mas quantos símbolos mais há? Para Caruso, de repente, o símbolo que lhe identificou a Pátria foi uma mãe chamando seu menino de peste (ele insiste que foi um chamado com muito carinho).

Eu vivi algumas situações parecidas na vida – o espaço só permite que conte uma. Viajava pelo altiplano boliviano com minha amiga Sônia. O boliviano é um povo bastante fechado. País, ainda, essencialmente índio, acho que uma das principais características da Bolívia é a expressão impenetrável dos rostos da sua gente. Nunca se sabe o que está pensando um boliviano – suas caras pétreas, parecendo estilizadas, ainda são as caras de antigos povos pré-colombianos, e não chegou até lá a alegria da África, que tanto adoçou o Brasil. Fazia dias que não encontrávamos um brasileiro naquelas paragens, que me contasse alegres piadas, com que pudéssemos rir o nosso riso brasileiro.

Na cidade de Copacabana, às margens do Lago Titicaca, aguardávamos na praça principal a condução que nos levaria, naquele dia, ao Peru. Morríamos de tédio (não há nada para se fazer no lago Titicaca além de andar um pouquinho de barco, conhecer o santuário de Nossa Senhora de Copacabana, a padroeira da Bolívia, e comer truta), e eu gastava o tempo observando as pessoas que estavam pela praça. Chamou-me a atenção uma mulher morena com um menino. Primeiro, ela era levemente mulata, e naquelas paragens não existem pessoas negras. Isso, porém, não queria dizer nada – ela poderia ser alguma mestiça perdida por ali, oriunda de qualquer país circunvizinho. Mas quando prestei mais atenção, achei o detalhe revelador: a mulher tinha longas unhas pintadas de vermelho!

Gente, boliviana nenhuma pinta as unhas, ainda mais de vermelho! Unhas daquelas tinham tudo para terem vindo do Brasil, e eu arrisquei e fui falar com a dona das unhas longas. Não deu outra: encontrei Cleide, uma brasileira que estava tão louca para achar compatriotas quanto nós, e que sabia contar piadas como ninguém. Eu conto as nossas aventuras no meu livro “Entre condores e lhamas”. Mas garanto que foi uma enorme emoção aquele encontro com uma brasileira às margens do Lago Titicaca, ainda mais com uma brasileira que sabia contar piadas!

Os símbolos da Pátria são a bandeira e o hino. Mas também podem ser mães ralhando com meninos, ou mulheres vaidosas, que mantêm longas unhas pintadas de vermelho. A Pátria tem incomensuráveis nuances e, às vezes, é necessário que nos afastemos dela para entender os seus símbolos

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