• Postado por Tiago

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?As pessoas às vezes pensam que vem tudo de mão beijada, mas não vem, entende??

O navegador Vilfredo Schürmann é o capitão de uma família diferente. Trocou a vida em terra firme e a carreira profissional, para se aventurar a bordo de um veleiro. Duas voltas ao mundo depois, Vilfredo, Heloísa, David, Wilhelm, Pierre e Kat ? que não existe mais ? formam a tripulação que, com variadas configurações, singrou oceanos em uma viagem de 10 anos de duração e ainda refez a rota de Fernão de Magalhães em 1997. Hoje, Vilfredo ganha a vida dando palestras e workshops empresariais, mas o sonho de ganhar o mundo corre livre pelas veias da família. Depois de transformar a aventura em filme, escrever livros, montar um instituto que tem como principal objetivo a preservação ambiental dos mares, preparam uma nova viagem para lugares onde ainda não estiveram, como Rússia e Japão. Dessa vez, pretendem levar 42 duas pessoas, que vão embarcar em pontos estratégicos e ficar pelo menos 10 dias junto com a família, convivendo no veleiro. Em meio à correria do dia-ao-dia, lançamento dos livros e palestras, Vilfredo interrompeu os afazeres para receber os jornalistas Adão Pinheiro e Renata Rosa e o fotógrafo Felipe Vieira Trojan, para o entrevistão que você acompanha nesta edição.

DIARINHO: Você é economista por formação. Para velejar, fez algum curso?

Vilfredo Schürmann ? Entramos em um barco a vela no Caribe, numa viagem de presente que eu recebi, entramos no barco e nos apaixonamos. E no final eu disse assim: Heloísa, um dia nós vamos voltar aqui com o nosso próprio barco. Aí, é claro, fomos para Florianópolis, pra Santo Antônio de Lisboa, que era uma vila, hoje é um bairro. E um menino de 15 anos começou a nos ensinar. Foi assim que nós começamos. Bem, bem, bem do básico. Inclusive o barco não tinha motor, era bem pequenininho, todo aberto e tal. E lá pela Beira Mar Norte nós íamos navegando. E assim a gente começou a praticar a vela e é claro, nós fomos evoluindo, né?

Um amigo meu convidou, disse assim: ?Puxa vida, Vilfredo?. Eu falei que um dia pretendia dar uma volta mais longa, ou se desse pra dar a volta ao mundo, eu daria volta ao mundo. E ele falou o seguinte pra mim: ?Vilfredo, primeiro, no mar você tem que ser muito ágil. Você tem que ser safo. E aí eu não entendi a palavra ?safo?. O que é safo?, eu perguntei. Ele disse: ?Safo é ser rápido nas manobras (risos), ser flexível?. Eu disse: ?Nossa, que interessante?. E eu perguntei: ?Para ser safo o que tem que fazer??. Ele disse: ?Primeira coisa, você tem que participar de uma regata?. Ele é regateiro, fazia regata em barco à vela. E ele olhou pra mim, olhou pra Heloísa, viu a gente. Nós com aquele salva-vidas na barriga, tudo errado, aí ele então ele fez um desafio: ?domingo tem uma regata, que tal vocês participarem?? Nós não sabíamos nada de regata e fomos participar. Foi uma vergonha total. Ou seja, o primeiro lugar passou por nós (risos) nove vezes e eu não gostei da brincadeira, né? E tem um equipamento que se chama retranca, que é aquela parte móvel do ponteiro da vela e quando você tem o vento de popa, essa retranca tem um equipamento que se chama burro. Tem que puxar o burro pra retranca baixar, que dá mais velocidade e estabilidade no barco. Eu não sabia e a minha retranca tava lá em cima (risos). O primeiro lugar passou bem pertinho de mim, assim, e falou: ?Puxa o burro!?. Mas eu só escutava o ?burro? (gargalhada).

Isso foi o primeiro passo, e realmente as regatas dão muita experiência. Fomos participar de campeonatos pelo Brasil, depois no exterior, sempre com o foco na nossa viagem, daí eu saí com o barco Brasília 32, eu fui buscar no Rio de Janeiro o barco com a família. Nossa! Os filhos pequenos não foram, mas os amigos, tal. O que pegamos de frente fria, o que eu enjoei, não era brincadeira! Eu botava, assim, o rádio, porque naquela época não tinha GPS, não tinha nada disso, eu não sabia navegar até então. Daí pegava o rádio, fazia aquele barulhinho assim: pipipipi pra ver as estações e um balde do lado, né? E eu (faz gesto de vômito). Aí quando nós chegamos, eu falei pra Heloísa assim: ?Não sei não, viu? Depois dessa, entende, nós vamos adiante?, e aí eu me acostumei.

Antes de viajar, o pessoal me pergunta muito: ?E como é o negócio de enjoo?? Olha, antes de viajar, numa rede de nordestino eu enjoava. E fui me acostumando, a gente acostuma, realmente. Mas foi no início, no início de tudo.

DIARINHO: A sua vida se tornou um projeto em andamento. É possível planejar cada passo?

Vilfredo ? Olha, eu acredito muito que quando a gente coloca um rumo na nossa vida, não precisa ser necessariamente um planejamento, mas se você focar nas coisas, as coisas vão dando certo. Sabe por quê? Porque nós vivemos energia, eu acredito muito nisso. E essas energias vão emanando prum rumo certo, claro que tem muitas coisas que vão acontecer no meio, né? E aí você tem que analisar. Tem muita gente que desiste do sonho. ?Isso não vai dar certo!?. Ou a família: ?Cê tá louco! Não vai fazer besteira!?. Tem muito disso, mas tem muito disso mesmo. Se você tem perseverança, se você sabe mesmo o que quer, você vai e vai fundo.

Eu estive em Curitiba agora pro lançamento (do livro) e teve perguntas e respostas, e aí uma pessoa disse: ?Pois, é Vilfredo. Eu queria fazer assim igual a você, mas é muito difícil, patrocínio, aquele negócio. É muito difícil?. Então eu peguntei: ?Em quantas empresas você foi pedir patrocínio?? ?Cinco?, a pessoa respondeu. ?E você já desistiu?? ?Você sabe em quantas eu fui? ?Em 42!?. E vinha resposta negativa, então vamos pra outra. Não foi fácil! As pessoas, às vezes, pensam que vem tudo de mão beijada, não vem, entende? E é isso que eu digo: quando você traça um objetivo e vai, você tem que ter perseverança pras coisas acontecerem.

DIARINHO: O que mais surpreendeu em termos de diferenças culturais nas terras por onde passou?

Vilfredo ? Nossa, isso é maravilhoso. Cada lugar é um aprendizado. Diferenças culturais e de respeitar as culturas. Porque tem muito estrangeiro que chega nos lugares e não respeita. Primeiro, não respeita a língua. Então, é uma diferença muito grande. Eu acredito que nós, brasileiros, temos uma facilidade muito grande, vamos dizer assim, de diálogo. De conversar com as pessoas. Tem muito estrangeiro que fica isolado e não fala com as pessoas. Então, um exemplo, na Polinésia, chegava lá e (fala em polinésio: ?oi, tudo bem??). Eles olhavam espantados pra mim e começavam a falar e eu ?Calma, devagar que eu não sei falar muito. E eles: ?Vocês tão tentando falar no nosso idioma!?

DIARINHO: E você aprendeu como?

Vilfredo ? Nos livros, a gente devora livros no barco, né? Porque não tem televisão. No mar, você tá navegando, você tá lendo. É uma das coisas que mais a gente faz. Então, estas diferenças culturais, exemplo: nós estávamos em Samoa. Samoa é entre a polinésia francesa e a Austrália, uma ilha ao sul, a Samoa ocidental. E a gente tinha lido um livro sobre Samoa. Chegando lá, tem uma característica interessante: antes disso, além de ler, eu e Heloísa ancorávamos no barco, chegávamos à tarde, e no outro dia de manhã, a gente ia pra feira livre, no mercado. Era lá que nós íamos conhecer a verdadeira história que os livros não contam. Então, foi uma coisa muito gozada porque nós fomos na feira, e na feira todo mundo tava de canga, e lá também é o seguinte: gordura é formosura. O mais gordo é o homem mais atraente para as mulheres porque é símbolo de prosperidades, aquela coisa. Aí, eu perguntei: ?Olha, eu gostaria de conhecer, existe uma vila que vive como os ancestrais, como há 50, 100 anos? Eles me disseram: ?Existe sim?. Então eu perguntei: ?Dá pra ir com o barco?? E eles disseram: ?Com o barco não dá porque é no meio da ilha e não dá pra ir pelo mar?. ?E como dá pra ir pra lá?, perguntei. ?O senhor tem que alugar uma coisa?. ?E como é a coisa?? ?O senhor vai lá ver?. Era um carro cortado no meio, com o chassis, o câmbio e um banquinho. E fomos nós sentar.

E a gente passava nas vilas e vinha muuuita gente. Eles tinham interesse em ver a câmera, e nós mostrávamos, nós tínhamos tempo. Fomos interagindo e eles foram nos levando para a casa deles e em algumas vilas, inclusive, a gente dormia e de manhã pegava umas cenas espetaculares. Eles dormem no chão, em esteiras. Aí passamos para outra vila, na terceira vila, um silêncio total. E, de repente, a gente viu homens andando rápido, de canga preta. Mulheres com esteira na mão. Eu achei estranho. E eles falavam um pouquinho de inglês e eu perguntei a um jovem o que estava se passando. E ele assim: ?Mataidé, mataidé?. O chefe morreu. Nossa, que legal! A gente leu muito da cultura deles e é muito diferente do ocidente, ou seja, quando a pessoa morre, é uma outra vida, eles fazem trocas, e com o chefe, então, é uma reunião muito importante. Trocam gado, pão, carne. A mulher do chefe tece esteira a vida toda pra quando o chefe morrer, ela, então, dá a esteira para cada uma das pessoas. É uma coisa muito bacana.

E eu tinha uma canga, coloquei em cima da bermuda. Era preta, mas tinha umas bolas alaranjadas, deu pra disfarçar. E eu coloquei um colar de conchas que o chefe da polinésia francesa me deu. E eu fui em direção à casa de reuniões onde estavam todos lá sentados, em posição de ioga. E eu fui caminhando e eu disse: ?Olha, Heloísa, deixa essa coisa ligada, e eu vou lá tentar pedir permissão e assistir essa cerimônia, e se der pra gente filmar, melhor ainda?. Aí, eu fui. Fui caminhando e quando eu tô no meio, começa uma pessoa a discursar, mas um discurso de guerreiro (começa a berrar). Ali, eu balancei. ?Será que eu vou?!? Mas eu fui, assim, meio ressabiado, fui indo, fui indo, e quando eu cheguei perto ele tava de costas pra mim. E todos estavam sentados em semicírculo na frente. E as pessoas começaram a olhar pra mim. E ele se virou. No momento em que ele se virou, me olhou de cima abaixo e perguntou o que eu tava fazendo ali. E eu disse: ?Estou aqui porque eu estou vindo…eu sou do Brasil?. E daí, no mesmo tom dele (gritando): ?E eu estou vindo aqui pra levar a sua cultura pro meu povo! (risos)?.

Ele me olhou de cima abaixo de novo e disse: ?sit down!? (senta aqui!). Daí, eu fui subindo a escada e me lembrei que os polinésios tinham me dito ? ?nunca passa na frente de um chefe que e uma falta grave?. E como eu falei, tinha um semicírculo e tinha uma vaga. ?Então a vaga é minha?. Quando eu sentei, começou uma gritaria, pensei que era o meu fim. Ahhhhhhhhhhhhh. Naquele momento, em questão de segundos, pensei em sair correndo, entende? Mas não deu, não deu. E quando eu tava naquela situação, essa pessoa que tava discursando começou a falar. E pra meu desespero, tudo em samoano. Eu falava uma ou outra palavra e ele dizia, lá pelo meio, ?Brasil?, daí eu ficava ligado ? ele tá falando de mim. (risos). Na terceira vez que falou ?Brasil?, silêncio total. E todos, assim pra mim ? (imita tom samoano). E eu não entendendo bulhufas do que tava acontecendo. Eles olhavam com uma admiração, uma reverência, então tomei a iniciativa e ele falou: ?Esse lugar onde você tá?. E eu disse ?O que que houve?? Então ele falou baixinho, assim, pra mim: ?Você jamais poderia ter feito o que você fez?. E eu, assim: ?O que que eu fiz??. ?Você fez uma falta muito grave?. E eu já agoniado: ?Mas o que que eu fiz??. ?Você sentou no meio dos grandes chefes. Aquela vaga não era pra você. Você quebrou uma energia centenária que eles tinham entre eles. Você não podia. Mas você tava vestido igual a nós e eu falei que você era um grande chefe no Brasil, então não tinha problema nenhum?.

Então são essas histórias que você perguntou e tem várias outras, como na polinésia. Eles tavam numa festinha de igreja comendo um churrasquinho e tal, e depois fui saber que era um cachorro. Eu não sabia que era um cachorro, né? É uma festa tradicional, porque na polinésia francesa tem 10% de chineses. O chinês come cachorro. E esse cachorro fica um mês comendo só verdura. Eu fiquei meio assim: ?Mas cachorro?? E eles disseram: ? ?Os ocidentais são uns hipócritas?. E eu perguntei porque. ?Vocês comem uma coisinha branquinha que faz méééééé que é a mesma coisa?. É um problema cultural. É que a gente tem com o cachorro uma coisa muito próxima. Cada lugar tem uma coisa diferente. Mas isso que é fantástico, que enriquece.

DIARINHO ? Que lição a Kat deixou pra você? A menina foi adotada e morreu recentemente, vítima de HIV.

Vilfredo ? A Kat nos deixou uma coisa muito importante: vontade de viver. De querer fazer as coisas. E nós até estamos fazendo um desenho animado da Kat. Ela tem, assim, um negócio com a natureza, de preservação da natureza, e a Kat morreu, ela morreu de HIV, e eu vou até contar a história, porque isso é muito importante.Espiritualmente, ela está aqui conosco, ela tá sempre comigo. É um lado espiritual que eu desenvolvi. Eu já fui muito cético, mas aconteceram muitas coisas com a Kat, comigo, com a Heloísa durante a viagem.

Nós estávamos na Nova Zelândia, ancorando o barco no porto num lugar de 400 habitantes, nunca tinha entrado um barco brasileiro e, de repente, entra um veleiro. Não, desculpe, um inflável, e olha a bandeira brasileira. ?Nossa, uma bandeira brasileira! Minha esposa é brasileira! E vocês, aqui!?. Aí, ele veio e começamos a conversar e tal. Era final do ano e ele assim: ?Pra onde vocês vão??. E nós: ?Olha, no final do ano nós vamos pruma ilha?. Aí ele disse: ?Ah, então, depois eu vou pra lá também?.

Nós fomos ancorar e veio ele com um barco e o pai e a mãe dele com outro barco. A gente se juntou e ficamos conversando sobre o Brasil. Eu tenho, inclusive, um amigo aqui do Brasil e esposa que nós recebemos, e aí se criou uma amizade e nós pegamos e fomos pra Fiji, às ilhas Fiji, e a Geane era do Amazonas. O Roberto, quando esteve prospectando petróleo no Amazonas (era diretor de uma empresa francesa), se enamorou. Era uma cabocla muito bonita. Se enamorou e saiu com ela pelo mundo todo. Ela tava grávida da Kat e nós fomos pra Fiji. No voltar, a Kat já tinha nascido. Vim do Brasil, do outro lado do mundo, uma coisa louca, essa vida!

E a gente se encontrou de novo. A Heloísa ajudou muito ela; ela falava um pouco de inglês também, e ajudou a dar comida pra Kat, aquele negócio todo. Nós fomos embora e perdemos o contato com eles. Nós fomos pra Caledônia, Austrália, África do Sul, oceano Índico. Quando chegamos no Brasil pro lançamento do livro da Heloísa (1994), lá no Rio de Janeiro, no iate clube, me disseram: ?Olha, tem um gringo com uma menina no colo, dizendo que é amigo de vocês?. Eu disse: ?Eu conheci tanta gente, tanto gringo?. Aí, quando vi ele, eu disse: ?Oh, Robert, tudo bem e tal. E a Geane??. Daí, ele se arrepiou. ?Você não recebeu a minha carta??. Não tínhamos recebido a carta.

A Geane, em 1980, teve um acidente de carro, antes de conhecer ele, e neste acidente, ela teve que receber várias transfusões de sangue, e contraiu HIV e eles não sabiam. E a Kat, entende, quando pequena, era mirradinha, tava fraquinha, e quando fizeram o exame aí viram, e o castelo desmoronou. Bem, Geane morreu e ele tava com HIV. Daí conversamos, ele veio, fomos de barco para Santos e a gente tava na feira, ele disse que não tava querendo se casar de novo e tal. ?Eu tenho dificuldade em criar ela e tem também a minha vida, não sei o que que vai acontecer na minha vida?. Aí, eu tava vindo pra Florianópolis e ele perguntou se podia ir junto. Aí eu disse: ?É, claro?. E a Kat, assim, nessa idade, quando nós adotamos…quando eu falo na Kat (tira da carteira uma foto da garota). Os olhinhos dela brilhavam e ele, assim, numa noite, ele disse: ?Olha, eu não sei quanto tempo eu tenho de vida. E eu não posso deixar a Kat com os pais da Geane, que são muito pobres, no interior da Amazônia, são oito dias de barco pra chegar lá, e meus pais são muito velhos. Eles vivem no barco e não vão dar a atenção necessária?. Aí, ele perguntou se a gente adotaria a Kat e nós, esse olhinho aqui brilhou, e nós dissemos sim, mas tem uma coisa: a Kat vai ser adotada, vai ser uma Schürmann, entende? E vamos criá-la como fizemos com nossos filhos. E em três meses nós íamos fazer a viagem de Magalhães, né? Minto, foi um ano antes.

Em seis meses veio a assistente social fazer uma visita, e depois teve a adaptação. Heloísa só teve meninos, e veio uma menina. Ela sentiu uma paixão que até hoje ainda tem pela Kat. E nós adotamos ela, inclusive os médicos diziam: ?Vocês são uns loucos. A menina vai viver uns seis meses ou um pouco mais?. Ela viveu 11 anos conosco. Deu a volta ao mundo, falava quatro idiomas. Pegava rápido, era uma coisa, uma energia, não dá pra explicar, uma coisa louca. E Kat ficou conosco, passou pela Patagônia, passou por todos os piores lugares, nas tempestades, lá tava a Kat, e aí nós viemos, fomos aí, inclusive, moramos em Ilhabela. Fez balé, aquele negócio todo. E Kat pegou um resfriado, e a gente ficava arrepiado cada vez que ela pegava um resfriado. Nós a levamos ao hospital, em Ilhabela, e o médico disse: ?Ela tá com um principiozinho de pneumonia, mas a gente vai tratar ela?. Daí, no outro dia, ela não tava legal. Começou a tossir e tossir, daí tiramos outra chapa, e a doença evoluiu, então viemos pra São Paulo. Quando chegamos no hospital da USP, e ela tava com dificuldade de respirar e entrar na ambulância, eles nos falaram: ?Nós vamos sedar ela pra ficar tranquila e aí, amanhã, ela vai ficar numa boa?. E foi no sedar que o coraçãozinho dela não aguentou.

As pessoas, às vezes, ficam até constrangidas em falar da Kat mas eu não fico, nem a Heloísa, porque a nossa vida é uma coisa, como eu falei, é como uma outra vida que começou, como dizem os orientais, né? Nós é que somos muito ligados às coisas materiais. O espiritual é muito mais forte. A gente nem sabe como que é, mas alguns caminhos a gente já sabe. Então Kat está aqui conosco.

DIARINHO: Lá no começo, quando você tinha uma carreira promissora como executivo, o que te levou a abandonar tudo e ir navegar?

Vilfredo ? As pessoas, às vezes, não entendem, quando você tem um projeto de vida e te fazem uma oferta como a que eu tive quatro meses antes da viagem, para ser presidente de um banco. As pessoas acham que eu vou mudar e não realizar um projeto de vida de 10 anos. Então, não foi uma coisa ? jogar pra cima e sair. Nós fomos aprender a navegar, depois fomos pra Marinha. Não ser oficial da Marinha, mas um oficial da Marinha veio no escritório e nos ensinou a navegar pelos astros, porque naquela época não tinha GPS. Tinha que me preparar, inclusive, financeiramente. Eu não tinha dinheiro e um estudante me perguntou lá em Florianópolis ?Precisa ter muito dinheiro??. E eu disse: ?Olha, quem tem muito dinheiro não sai pra navegar. Porque aquele que tem muito dinheiro tá preocupado em ganhar mais?. (risos) Então, a resposta pra tua pergunta é a seguinte: foram 10 anos, mas foi um projeto de vida entre nós. Inclusive foi um negócio quando, no Natal, nós anunciamos pra família que iríamos sair em abril. Nossa! ?Mas tão fugindo de quê?? (risos) Porque as pessoas não sabiam desse projeto de vida que falávamos só entre nós. ?Mas, e os filhos? Vão estudar no mar?!? Estudaram, fizeram estudo por correspondência.

Inclusive, tinha o lado empresarial, e isso eu falo no livro (?Navegando com o sucesso?). Ao Egon, presidente da WEG, pra quem eu dava assessoria há muitos anos, eu disse: ?Olha, eu vou sair em viagem com a minha família?. ?Ótimo! Você vai fazer um MBA, você vai ter crescimento na tua área, como economista?. (risos) Aí, eu disse: ?Não é bem isso…?. ?Como assim??, ele disse. ?Eu vou levar a minha família pra dar a volta ao mundo?. ?Você tá louco!? Mas aí eu fui mostrando pra ele um projeto de vida que nós fizemos, eu acho que isso é muito importante. Quando você fala do plano de vida, fala de de você buscar alguma coisa. Aí eu fui comunicando e sabia que o maior desafio de tudo isso é o relacionamento em pequeno espaço. O confinamento em 44 m² com a família. O pessoal fala de tempestade, mas não é.

Então saímos de Florianópolis e o pessoal assim: ?Vão pro Rio direto??. Eu disse não. Primeiro vou pra Ilha de Anhatomirim, da ilha de Anhatomirim, fomos pra ilha de Porto Belo, de Porto Belo, fomos até o Itapema Plaza. Depois fomos até São Francisco, Paranaguá, Iguape, e ficamos um ano na costa brasileira. E nós não tínhamos aquele compromisso de dar a volta ao mundo, não. Nós tínhamos combinado, eu e a Heloísa, que quando chegássemos à Fortaleza, se desse tudo certo, se o nosso relacionamento estivesse legal, com os filhos, com a escola, com tudo, se tivesse qualquer arestazinha, a gente voltava. E deu certo.

DIARINHO: O velejador Amyr Klink disse que um dos maiores medos era não partir. Como o sonho de navegar saiu do papel e se tornou concreto na sua vida?

Vilfredo ? É, muitos colocam isso, parece que a estatística é essa: 10% têm projetos de vida de navegar, 0,01% realizam. Esse é um momento que você precisa ter muita segurança sobre aquilo que você tá fazendo porque, volto a falar, existem 1001 coisas pra tirar você do rumo. Fui convidado para ser presidente de um banco quatro meses antes (BNDES), como eu falei. Então, a tua pergunta de como tirar do papel e fazer é realmente quando você tá preparado. Isso eu digo não só quando você tá no mar, tem projetos de vida. Um amigo meu, arquiteto, deu a volta ao mundo de bicicleta. Eu recebo muitos e-mails de pessoas e as oriento. Os jovens, principalmente, acham que tudo vem muito fácil. E eu digo: ?Faz um projeto, você tá no último ano de jornalismo ou de marketing?. Então, é você botar no papel, botar a realidade e marcar uma data. Uma coisa importante na vida é marcar a data pra sair. Isso é importantíssimo. Quem não tem uma data vai prorrogando, mas você tem que ter um objetivo. ?Ah, tá lá: daqui a 10 anos?, e não trabalhar pra isso, também é a mesma coisa. Então é marcar uma data e ir atrás daquilo que você quer alcançar.

DIARINHO: E quais foram as maiores lições destes anos cheios de aventuras?

Vilfredo ? Foram lições de vida, de você ter tranquilidade em momentos de extrema pressão, como numa tempestade. A gente passa por ?tempestades? em terra também, né? De dificuldades econômicas. De você ter tranquilidade e serenidade pra lidar com isso. E isso no mar. Hoje, no mar, tem muitas facilidades, tem GPS, mas o mar não mudou; o mar continua o mesmo. Então, a experiência de vida é isso ? de você ter tranquilidade, de analisar. Exemplo: tem um objetivo aqui, e às vezes, esse objetivo não é alcançado em linha reta. Você tem que dar uma acertada, você tem que regular as velas pra ir pro teu caminho, e isso o mar me ensinou muito. Içar as velas, cambar no momento que é necessário.

E outra coisa que me ensinou muito, eu vou confessar pra vocês, quando eu saí na primeira viagem, a minha política era muito verticalizada. O pai entendia tudo e os filhos não entendiam nada. Eu mudei [ficou mais democrático?]. É. E em situações, ou seja, eu estava na Polinésia e eu tinha que passar por um lugar muito difícil. Tem correntes violentíssimas, tem cemitério de barcos, tem várias ilhas de corais que quando você olha é só mar, mas daqui a pouco tem coral no meio. E tem que fazer uma navegação muito precisa. Fiquei duas horas fazendo a navegação, daí me deu um estalo: ?Péra aí! Eu tô fazendo tudo isso sozinho!?

Aí, eu juntei toda a tripulação, minha família, mostrei a carta e disse: ?Vou fazer essa, essa e essa navegação?. Aí, eles disseram assim: ?Por que nós vamos dar uma volta de seis horas e não vamos ter este risco, que nós poderíamos ter, dava pra passar, mas teria risco. Então, essa foi a outra lição: o feedback das pessoas. E isso acontece muito nas empresas, como eu falo no livro. O feedback é espetacular. O líder, o verdadeiro líder, recebe todas as informações, daí fica muito mais fácil deliberar e decidir, não é verdade? E tem uns que não escutam ninguém! E é esse que é o problema: não escutar. Porque às vezes, as pessoas têm ideias espetaculares.

DIARINHO: Durante as viagens, quais foram os momentos mais críticos?

Vilfredo ? Olha, eu tive um momento muito, muito difícil durante uma tempestade na Nova Zelândia. Com ondas de 10 metros de altura e ventos do Catarina de quatro anos atrás de 135 km/h. Neste, eu perdi os dois mastros. E você vai dizer: ?Puxa, mas com tanto planejamento, o que aconteceu?? Antes de sair da Nova Zelândia, eu mandei fazer uma vistoria de todos os cabos de aço. Um raio-x, e nenhum cabo de aço tava comprometido. São 17. Eu troquei e botei tudo novo. O operador ou a máquina que não prensou bem um. Era prensado. Nós saímos. Eu tava esperando uma janela de tempo bom, que era inverno. Eu sou rádio amador e a Heloisa também. Tinha um rádio amador da Nova Zelândia que também era meteorologista da Marinha aposentado, que nos contatou e disse: Vilfredo ? janela boa para sair a viajar. Primeiro dia espetacular. Chegou à noite do segundo dia recebi uma mensagem de urgência no rádio, onde o operador dizia que não tinha uma notícia muito boa. Tava chegando à ilha Sul uma das maiores tempestades de inverno da Nova Zelândia, e eu sei que você não tem mais volta. Te prepara, os carneiros estão congelando na Ilha Sul. Nós temos dois mastros de 17 metros cada um. Eu coloquei uma vela de tempestade bem pequena, baixei todas as velas e esperei. Por que sem vela? Porque com as velas você tem velocidade e é fator de segurança na descida de ondas. Quando a onda descia o barco parecia uma prancha de surfe. A tendência no barco é atravessar. Se você deixar atravessar vem uma onda e capota. Um barco à vela é muito seguro a não ser que tenha problema de fabricação. O nosso tem cinco toneladas de chumbo e 850 litros de óleo na quilha e mais dois mil litros de água. Ele pode chegar, segundo testes de laboratório, com os mastros batendo de 90 a 110 graus, já com a quilha pra cima. Nesse momento, ou ele volta ou ele capota. No capotar você perde os mastros, mas o barco não afunda. Não é como no filme Mar em Fúria que as ondas atingem um barco de pesca e ele vira. Um barco à vela pode virar, mas ele volta à posição por causa da concentração de peso. Eu estava na roda de leme, era de madrugada e eu chamei a Heloisa. Normalmente, a gente fica de vigia quatro horas. Nessas condições de mar somente duas horas, porque você não pode colocar no piloto automático. Passou a minha hora e eu tinha que ser substituído, porque temos regras e regulamentos dentro do barco. Você não pode passar daquele tempo. Porque a pessoa fica cansada. Cansada, a pessoa não raciocina. Eu chamei Heloisa, ela respondeu mas eu não escutei. Então eu fui chamá-la novamente e Heloisa tava fazendo um chocolate quente. De repente eu disse: cuidado. Uma onda pegou os nossos seis cilindros e levou tudo, fez um barulho e o barco parou. Num primeiro momento eu pensei numa baleia. Num segundo momento, eu pensei que fosse um contêiner perdido no mar. Nós perdemos um casal navegador amigo nosso. Eles desapareceram no mar num local onde um navio perdeu 18 contêineres. Dados da National Geographic informam que de 100 milhões de contêineres carregados por ano, 10 mil ficam no mar. O contêiner fica muito tempo flutuando, depois ele afunda, porque muitos são hermeticamente fechados. Saí correndo para ver, quando cheguei descobri que os dois mastros tinham caído. Aquele momento foi muito difícil. Um momento que eu tive realmente medo. Medo, no meu conceito, todos têm. Uns têm mais, outros têm menos, mas todo mundo tem medo. Dizer que tem receio é bobagem. É medo realmente. Não pode ter pânico. Eu não tenho tripulantes que não tenham medo de nada. É perigoso. Numa hora como essa, você tem que tomar atitudes. Aí foi muito importante os treinamentos que nos fizemos. Ainda antes de sair eu me joguei no mar, durante os treinamentos. Na época, eu fiquei 30 minutos no mar esperando para ser resgatado pela tripulação. Depois começamos a fazer exercícios, com um caindo no mar. Naquele momento, o mais difícil da viagem porque nós tivemos que cortar tudo. As ondas batiam os mastros violentamente no barco. Foi tudo para o fundo do mar. Aí eu tinha que tomar uma decisão; ir a favor da tempestade que era o melhor, porque a gente tava indo em direção às ilhas de Tonga ? que dava mais ou menos 700 milhas do local onde fomos atingidos pela tempestade ?, ou voltar para Nova Zelândia, distante 380 milhas, só que contra a tempestade. A autonomia do motor era de 400 milhas. Voltamos pra Nova Zelândia. Depois de umas quatro horas navegando parei e fui fazer a navegação. Descobri que estávamos sendo jogados para cima de um banco de areia. O banco de areia tinha 47 metros. Ao redor do banco de areia tudo profundidades abissais de cinco, seis mil metros e eu já tinha lido sobre as grandes ondas que se formam no local. Eu peguei uma onda de frente que o barco subiu e ficou quase na vertical. Eu pensei que ia ficar embaixo das 25 toneladas. Quando ele voltou eu parei tudo, porque não adiantava dar murro em ponta de faca. Fechamos tudo e ficamos esperando dois dias e meio que a tempestade passasse, comendo frutas secas, bolachas e amarrados. O barco não capotou. Era aniversário da Heloisa e ela fez um bolo de chocolate. Colocamos uma antena e começamos a conversar com os rádio amadores. Disseram que tinha uma fragata para nos resgatar, mas nós dissemos que iríamos voltar com os nossos próprios meios. A gente sabia que se fosse resgatado pela Marinha teria que deixar o barco. Eu não ia deixar a nossa casa. O barco tava seco. Pegamos mais uma tempestade, não tão violenta. Por isso que eu digo, na vida temos tempestades. Mas elas passam. No mar também. Não se desespere. Da Nova Zelândia até onde caíram os mastros foram dois dias e meio. A volta levou 11 dias.

DIARINHO ? Hoje vocês se dedicam a fazer workshops e palestras. Como a vida no mar se assemelha com a gestão de empresas e vice e versa? Quais os aspectos da rotina de viver num barco que podem ser aproveitados na vida profissional.

Vilfredo ? Nas palestras, nos fazemos uma analogia de como é uma expedição. Nós fizemos um trabalho de gestão para o Unibanco em 2000 com a participação de 2 mil gerentes. Eles tinham um plano de gestão que estava sendo implantado, só que eles queriam uma coisa realizável. E nós tínhamos o nosso plano de gestão que tinha sido adotado em nossa viagem. E nesse plano de gestão, para você ter uma ideia, você tem que ter mecanismo de aferição de resultados. Isso nas empresas sempre tem. Qual era o nosso mecanismo de aferição de resultado? Nessa última viagem eram as nossas imagens. Nós queríamos saber o que acontecia com as nossas imagens. Nós acompanhamos o Ibope. As nossas imagens, quando entravam no Fantástico, tinha uma média de crescimento de oito pontos, chegando a picos de 12. Isso tem que ser observado na empresa também, com o relacionamento entre as pessoas. Bem, nós tivemos tripulações de cinco nacionalidades. Como é conviver com essas pessoas? Como é você administrar? Inclusive o editor da revista Exame passou 10 dias conosco na Polinésia Francesa, para ver como nós administrávamos a empresa, a expedição, e ele colocou que essa é a verdadeira empresa globalizada, porque vai com o seu escritório em todas as partes do mundo. O mais difícil nas empresas hoje é delegar. As pessoas têm medo de delegar. Nós tivemos 11 pessoas internas que nós confiávamos. As pessoas têm que vestir a camisa e isso que é legal. Esse lado holístico. Ou seja, esse lado de energia que nós passávamos para eles e a capacidade também. A gente delegava, mas o mais importante nisso é o saber cobrar. Nós tínhamos software de gestão. [Isso na segunda viagem?] Na segunda viagem nós não podíamos falhar. Nós tínhamos um programa de televisão que ia ao ar todo mês. E se quebrasse alguma coisa? Nós tínhamos um plano de contingência. Todas as empresas têm um plano de contingência. Nós fizemos o seguinte: os equipamentos mais importantes, como o dessalinizador que transforma a água salgada em água doce, em nosso projeto de viagem identificamos as empresas que poderiam consertar o equipamento se quebrasse. O equipamento quebrou. Fizemos um conserto, e de dentro do barco, via internet, comunicamos nos Estados Unidos a empresa que tinha o nosso projeto. Eles enviaram o equipamento, desembaraçaram. Quando chegamos ao destino mais próximo, só trocamos o dessalinizador. Na empresa você também tem que ter plano de contingência. Essas analogias são muito importante para os empresários.

DIARINHO ? Como é o trabalho do Instituto Kat Schürmann?

Vilfredo? O instituto era família Schürmann, então nós fizemos uma homenagem à Kat. Lá nós temos um trabalho de educação ambiental com as crianças e com os jovens e, no verão, com os turistas. Tem biólogo, oceanógrafo. Eles recebem todas as informações de como as crianças têm que cuidar da natureza. Essa é uma bandeira muito grande. O nosso foco é o mar, mas atuamos também na área de saúde. Não Sei se você sabe, mas hoje são jogados cerca de cinco bilhões de litros de esgoto no mar por dia e apenas cinco por cento é tratado. Nossos rios são verdadeiros esgotos. Temos que preservar esses recursos. A gente fala muito em termos de floresta Amazônica. O mar é o grande fornecedor de oxigênio pela fotossíntese. Nós temos que cuidar dessa nossa costa. Esse é o grande patrimônio que nós temos. O problema de balneabilidade aumenta 20% a cada ano. É um problema seriíssimo da nossa costa. É isso que nós estamos fazendo, ou seja, um trabalho na costa brasileira de conscientização ambiental para jovens, e claro, ligado a algumas ações sociais. Essa é a função do instituto.

DIARINHO ? Como foi fazer o filme ?O mundo em duas voltas? que registra a volta ao mundo a bordo de um veleiro?

Vilfredo ? Essa é outra coisa de planejamento. Quando fechamos com o Fantástico eles disseram: façam as imagens em vídeo. O meu filho falou, nós vamos fazer em filme, em película. Tudo precisou ser planejado. Veja bem, nós saímos em 1997. Sabe quando o filme ficou pronto? Em 2007. Foram 10 anos. Três anos ficamos no mar. Foram sete anos em busca de recursos. Mas a gente não desistiu. A gente tinha 120 horas de filmagem. O nosso filme só tem 20 horas. Era muito material. Agora estamos negociando com a Discovery mais quatro capítulos. Porque a Discovery comprou nossos direitos para a América Latina toda, inclusive o México. Eu falo isso porque é equipe. É meu time que funciona. Eles tiveram um crescimento de 70% de audiência na América Latina. Os chineses compraram nosso filme. David (filho) teve em Cannes e perguntou por que vocês (chineses) estão comprando o filme? Porque nós queremos que os chineses sonhem. Os chineses não sonham. O filme foi um negócio muito bacana, uma experiência espetacular que nós tivemos. Ganhamos competindo com filmes de longa metragem pelo júri popular em Buenos Aires, Roma, Milão e Nova Iorque. Isso é trabalho de equipe. É de emanar vontade das pessoas. De fazer bem feito. [Você se inspirou em Jacques Cousteau?] Jacques Cousteau é uma inspiração. Pena que a família não continuou. Parece que agora um neto vai dar continuidade ao trabalho que ele realizava. Eu tenho toda a coleção dele. Ele, na realidade, era cineasta que desenvolveu documentários.

DIARINHO ? Tem muito pirata em alto mar? Eles atacam pequenas embarcações?

Vilfredo ? Tem. Nós passamos pelo estreito de Málaga. Na época em que passamos tinham sido atacados 511 navios. Agora tem muito na Somália, na costa da África. Quando nós passamos nas Filipinas eles aconselharam a colocar metralhadoras na volta do barco. Não comprar, que você não compra metralhadora. Mas colocar tudo de plástico, imitando as originais, que o pessoal respeita. O que nós temos é arma de sinalização, que isso você pode ter. Se dá um tiro na pessoa, queima inteiro. Os piratas sabiam quando os navios passavam. Eles tinham informantes, botavam um cabo no barco, subiam a bordo e assaltavam. O que nós fizemos: ficamos ligados ao centro de pirataria da Malásia que dava a posição de onde eram atacados os navios. Sinalizamos a carta náutica e não dizíamos para onde nós íamos ao rádio. Dessa forma conseguimos desviar dos piratas.

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DIARINHO ? A educação das crianças não foi prejudicada neste tempo no mar e como eles ajudaram a fazer dinheiro durante a viagem?

Vilfredo ? As crianças estudaram por correspondência. Eu fui para escola para ajudar a ensinar eles. A Heloisa é pedagoga, sem problema nenhum. Eles estudaram um ano e meio na primeira viagem até chegar ao Caribe. Então o que que aconteceu? Naquela época não tinha muita greve e não vinha material didático. A gente via que nos outros barcos, de outras nacionalidades, estudavam por uma escola dedicada ao estudo à distância, muita boa. Era US$ 350 todo o material didático, com acompanhamento de professores. Quando eles faziam exame tinha que ser na frente de um policial ou de um padre, um missionário, que ficava responsável por lacrar o envelope com a prova e mandar para a escola. Era uma responsabilidade muito grande pra nós. Os meninos tinham que fazer por mês 25 redações. Eles escreviam muito. Nós somos privilegiados. Claro, o homem lá em cima nos ajudou bastante, mas a gente teve a oportunidade e a gente fez. Essa relação que eu tive com os meus filhos foi muito bacana, de amigo, uma parceria. Eu sai preparado financeiramente para ficar de dois a três anos. Quando nós chegamos ao Caribe, tínhamos feito 10% da viagem. Então começamos a fazer dinheiro. Eu fotografava, a Heloisa escrevia. Eu participei de um concurso de fotografia nos Estados Unidos, organizado pela revista de vela mais lida do mundo e fiquei em segundo lugar. Era uma foto muito bonita de uma escuna, onde só aparece as ondas e as velas. Essa escuna era comandada por uma mulher. Eles me pagaram US$ 1,2 mil. O Estado de São Paulo me pagava US$ 300 por cada matéria e tinha muitos empresários que eu convidava para ir ao barco e eles não iam. Uma vez um deles me disse que não iam porque ficavam constrangidos, em ver a gente gastando. Aí montamos a empresa ?amigos pagando?, nome de fantasia. Nós cobrávamos US$ 300. Um casal ficou 30 dias, faturamos nove mil dólares. Com um mês de trabalho vivemos quatro meses e os meninos ganhavam 10 por cento de tudo o que a gente ganhava. Depois passamos a ver vídeos profissionais e eles nos pagavam e aí fomos indo, fazendo recursos e eu não mexi no meu capital.

DIARINHO ? Tem uma nova viagem programada?

Vilfredo? Nós estamos saindo no final do próximo ano ou em março de 2011. Vamos passar por lugares que nunca passamos, como Japão, China, Rússia, Alasca, pequena ilhas do Pacífico Norte. Uma nova volta ao mundo, indo do Brasil até a África, passando pela ilha Cristal da Cunha, que poucos visitam. Da cidade do Cabo em direção à outra ilha francesa pouco visitada. Depois vamos para a Austrália e Indonésia. [Quanto tempo vai levar?] Vai levar uns dois anos e oito meses e nessa viagem nós vamos abrir para 42 pessoas ficarem, no máximo, 10 dias a bordo. Nós recebemos muitos e-mails de empresários, profissionais liberais, jornalistas, querendo participar da nossa viagem. Nós estamos vendo com os nossos patrocinadores se eles custeiam esse gasto também.

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Uma Resposta to “Vilfredo de Oliveira Schürmann: Navegador e palestrante”

  1. reserva Diz:

    … Sensacional….esta entrevista, parabéns…

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